Biofobia – Santiago Nazarian| Nada é mais assustador do que a culpa pelos nossos fracassos!| NITROLEITURAS #resenha

Minha primeira leitura da obra de Santiago Nazarian, um escritor com um estilo doidimais, bem rock and roll, pós-punk decadente, bão de ler e com aquela atmosfera de podreira que eu curto pacas! Pena que é curtinho!


Biofobia – Santiago Nazarian | 2014, Record, 240 páginas | Nota 3.8 em 5 | NITROLEITURAS

Capa-Biofobia


SINOPSE
Após o suicídio da mãe, uma conhecida escritora, André, um roqueiro decadente, vai passar alguns dias na casa de campo em que a mãe passou os últimos anos. O que deveria ser apenas um fim de semana entediante transforma-se em um pesadelo, quando a casa e a natureza circundante parecem se voltar contra André. Entre garrafas de vodca, restos de drogas, telefonemas para a ex-namorada, visitas passageiras de conhecidos, ele enfrenta os fantasmas de suas lembranças, encara a descrença no futuro e experimenta o medo do desconhecido que o cerca. Repleto do sarcasmo característico de Santiago Nazarian, Biofobia é um thriller eletrizante sobre o confronto entre homem e natureza.


RESENHA
Curti muito o livro e já estou na cola dos outros do Nazarian. Talvez por sermos da mesma geração, urbanóides, com referências similares, entrei de cabeça na frequência pulp literária do BIOFOBIA. Um livro que segue a mesma linha do David Mitchell e outros autores mais literários, que misturam exploração profunda de personagem com tropos de literatura de gênero. No caso de BIOFOBIA, o livro é uma mistura bem sucedida ao meu ver de literatura de exploração de personagem com toques existencialistas com o gênero do horror psicológico. A prosa me cativou, é bem rock and roll, sem firulas, na veia, naquele esquema de cortar o pulso e deixar sangrar no papel para ver o que rola.

Os diálogos são muito bons, cheios de um humor ácido de literatura junkie. Aliás, o livro é permeado de humor negro, que aparece principalmente nas observações e reflexões do protagonista.

O protagonista, que segue a linha do anti-herói com a narrativa trabalhando CONTRA a identificação do leitor, e causa um fascínio mórbido no leitor. É um personagem bem antipático, de classe alta, imaturo e mimado pra caramba e uma vítima das próprias ilusões egóicas e do sonho dionisíaco de rebeldia roqueira que muitas vezes acaba em autodestruição ou em semi-autodestruição, como é o caso do protagonista André. O cara é totalmente decadente, narcisista e preso em uma espiral descendente pelas trevas do próprio inconsciente. Como dizia a Camile Paglia, excesso de Apolo leva à estagnação, o excesso de Dionísio, ao auto-despedaçamento.

O livro é recheado de referências diversas, desde o corvo do Poe ressuscitado em um pica-pau zumbi, Clarice Lispector invocada na sua lendária e youtubada entrevista onde ela diz que “é uma pessoa feliz mas que naquele dia estava cansada”, citações ao Necronomicon, às targarugas ninjas, listas de livros doidimais (nem acreditei que a mãe do protagonista tinha A Pedra do Reino em casa!), etc.

Os temas do terror causado pelo isolamento, de que o maior inimigo de um homem é sua própria mente, em um tropo na linha do Iluminado, mais no clima da versão do Kubrik, dá a força para a segunda parte do livro. A Natureza, tradicionalmente tratada como algo benéfico ao homem, é visa aqui como um antagonista, retornando ao sua natureza sombria e ctônica (tá vendo, também sei escrever chique hahahahaha!), o lado oculto e medonho de Gaia. Que é também uma espécie de reflexo da mãe onipresente do protagonista, quem sabe?

E o livro se unifica através da culpa, da imensa culpa que o protagonista carrega, culpa por suas frustrações, por seu fracasso, por tudo e por todos. Mesmo que ele passe o livro inteiro negando sentir essa culpa, parece que a natureza se transforma na expressão violenta dessa culpa recalcada, tão recalcada que só consegue se expressar através da insanidade.

Fica a recomendação, para quem curte literatura de horror, pode achar estranho o começo mais literário/psicológico/existencialista. Quem curte romances mais literários pode assustar com o que acontece, mas literatura é para isso mesmo, tem que surpreender e provocar!

Nota 4 em 5


CITAÇÕES

“A menina voltou com o celular, revirando seus arquivos de música na tela. “Gostam de Katy Perry?” Nenhum dos dois se dignou a responder.

“Mas tava falando da cigarra”, retomou André, num surto de continuidade. “Lembra aquela história: A cigarra e a formiga, que a cigarra canta todo o verão, daí no inverno não tem nada para comer e bate na porta da formiga e tal…?”

“Andy… você tá surtando…”, o amigo abriu um risinho desconcertado, pensando que André se referia a ele mesmo, batendo em sua porta para pedir dinheiro.

“Não, a coisa é que a cigarra não canta no inverno. Não viu na história?”

“Sei. Nessas histórias da Disney em que um rato é amigo de um cachorro e de um jacaré”, apontou o amigo.

“Tem jacaré nas histórias da Disney?”, perguntou André, legitimamente curioso.

“Sei lá, tô falando que esses bichos de história não têm nada a ver com nada…”

“Putz, podia ter um jacaré, hein?”, continuou André, empolgado com a ideia. “Tá faltando um jacaré. Acho que jacaré ainda não tem.”

“É um mundo só de patos, Patópolis”, observou a menina. “Não ia ter espaço pra jacaré.”

“Imagina, tem o Mickey, que é rato, o Pateta e tudo mais…”, corrigiu André.

“Mickey é de outro núcleo. É de um universo paralelo…”

“Mickey é de um universo paralelo? Cara, vocês cheiraram ou fumaram…? Hahaha”, caçoou o amigo.

“Eu tô falando que as cigarras não cantam no inverno!”, lembrou André, entusiasmado por conseguir manter sua linha de raciocínio. “As histórias podem estar erradas. Mas nessas histórias a
Cigarra deixa de cantar no inverno.”

“Não, a Cigarra canta no inverno”, a menina se lembrava. “A formiga abriga a Cigarra, que termina cantando dentro do formigueiro para alegrar as formigas.”

“Acho que a versão que você conhece é mais positiva do que a minha”, disse André, voltando a dar um gole na cachaça. “Na minha, as formigas não abrem a porta para a Cigarra como uma lição, para ela aprender que cantar não leva a nada, que ela deveria ter arrumado um trabalho de verdade. E agora ela vai morrer de fome e frio no inverno, enquanto as formigas — que passaram o verão todo miseráveis, ralando sem aproveitar a vida — agora poderão ter um tempinho de descanso. É a visão capitalista de trabalhar e depois descansar, sem um meio-termo, sem poder fazer um trabalho associado ao prazer ou sem fazer um mínimo de esforço no momento de lazer. Não existe a opção de se aproveitar a vida… Bom, pode também ser uma visão comunista, né? Trabalhar pela comunidade apenas para merecer seu tempo de descanso? Sem nenhuma opção individualista? Mas até aí… no mundo real, se uma cigarra entrasse num formigueiro seria para comer as formigas, ou ser comida pelas formigas, sei lá, só não teria como elas viverem em harmonia…”

“Vai”, disse o amigo para sua menina, “coloca qualquer música aí para tocar antes que o Andy surte de vez com o canto das cigarras.””

Rafael Nazari – Biofobia

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