Era no tempo do Rei – Ruy Castro | Traquinagens e Pilantragens no Rio de 1810 | NITROLEITURAS #resenha

Um livro divertido e picaresco, escrito no melhor estilo de “contador de histórias”, e com uma maravilhosa e bem brasileira recriação do Rio de Janeiro do começo do século 19!


Era no tempo do Rei : Um romance da chegada da corte – Ruy Castro | 2007, Alfaguara, 248 páginas | Nota 3.5 em 5 | NITROLEITURAS

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SINOPSE
O cenário é o Rio de 1810, dois anos depois da chegada da Família Real portuguesa, com as ruas vivendo uma agitação jamais vista em uma cidade das Américas. Os personagens são nobres e plebeus que existiram de verdade e outros saídos da mais delirante imaginação.

Em Era no tempo do rei, nem tudo o que se lê neste livro aconteceu – mas podia ter acontecido. Afinal, o autor é Ruy Castro.

Os heróis de Era no tempo do rei são o príncipe D. Pedro e seu amigo Leonardo, um menino de rua, ambos com 12 anos. Os dois garotos endiabrados tomam a cidade de assalto, envolvendo-se nas mais empolgantes cabriolas.

Na pista deles, estão o temível major Vidigal, a prostituta Bárbara dos Prazeres, a vingativa princesa Carlota Joaquina, o pio padre Perereca, o sinistro inglês Jeremy Blood, granadeiros, ciganos e capoeiras. Como pano de fundo, a luta pelo poder no Brasil, em Portugal e nas colônias espanholas no Prata.


RESENHA
Minha primeira leitura do famoso Rui Castro, tive uma excelente surpresa com uma narrativa leve e divertida, e feita com uma linguagem coloquial mas elegante, e recheadas de expressões da época e uma cadência bem “carioca”.

A recriação de época é um primor. O ponto mais forte do livro são os detalhes pitorescos e bizarros do mundo do Rio de Janeiro de 1910. O livro, usando as aventuras e as traquinagens de Dom Pedro ainda menino e o fictício Leonardo, o futuro sargento do romance “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida.

A prosa tem momentos bem líricos, a descrição dos lugares desse Rio antigo tem a sua poesia. O vocabulário também me chamou atenção, com um estilo mais clássico, emulando a prosa da época. Eu adorei esse detalhe estrutural, uma mostra da maestria do Rui Castro, escritor velho de guerra!

O livro tem uma trama divertida e bem entrelaçada com as conspirações palacianas da época, com a Carlota Joaquina sendo uma espécie de Cersei do Brasil-Império. Curti pra caramba e desconhecia as tramóias da corte portuguesa no Brasil.

Recomendo para quem curte romances históricos com uma levada mais de humor e para quem queira conhecer o mundo amalucado do Rio do século

Nota 3.5 em 5


CITAÇÕES

“Era a infância que todas as crianças pediam a Deus, mas que só Belzebu podia oferecer. Leonardo não tinha de ir à escola, nem de fazer os deveres, nem de ir à igreja e nem mesmo de trabalhar. Ouvia bater o sino de São Bento, mas isso não lhe dizia nada, porque não tinha hora para dormir, muito menos de voltar para casa, e sabia que, a qualquer hora que voltasse, encontraria no armário uma travessa de sardinhas fritas ou um prato de feijão preto sobre o qual deitar farinha. Também não precisava usar sapatos, nem cortar as unhas, nem escovar os dentes, nem tomar banho, exceto, neste último caso, quando lhe dava na telha, e então mergulhava vestido — calças de ganga azul e camisa riscada de algodão grosso — no chafariz do largo da Carioca e, melhor ainda, sem a mãe por perto para fiscalizar se esfregara atrás das orelhas.

Leonardo não tinha mãe ou, pelo menos, desde os 7 anos não sabia por onde andava, desde que ela saíra de casa e deixara o marido, seu pai, literalmente a ver navios. E, de certa forma, Leonardo também não tinha pai, o qual, ao se ver abandonado pela mulher, resolveu abandonar o filho, largando-o aos cuidados dos padrinhos: um bondoso barbeiro seu vizinho, chamado Quincas, que acolheu o menino e o criou como se fosse seu filho, e dona Felomena, que, na condição de parteira, fora a primeira pessoa a ver Leonardo quando ele veio à luz. Os dois, padrinho e madrinha, não eram marido e mulher, mas, como compadres, encarregaram-se por igual de estragar o garoto, mimando-o de todo jeito, fazendo vista grossa às suas travessuras e dando-lhe algo que nunca se deve dar a uma criança para brincar: o mundo.”

“Era como se, naqueles momentos, o mundo de dona Maria voltasse, trinta ou quarenta anos antes, ao Século das Luzes. Eram os felizes tempos em que, na França, ainda não havia os demagogos Marat, Danton e Robespierre, e em que as cabeças serviam para ser penteadas e empoadas e para portar coroas — não para rolar para dentro de cestos, ao fio da guilhotina. O culpado pela ascensão daqueles bárbaros jacobinos que ameaçavam a estabilidade dos tronos europeus tinha sido seu invejoso primo Louis-Philippc, duque de Orléans, um trânsfuga da realeza, que depois se chamaria pelo vulgo de Philippe-Egalité e cometeria a ignomínia de votar pela morte de Luís XVI, pensando que lhe herdaria o trono. Com os retalhos de lembranças que lhe restavam, dona Maria dizia enfaticamente a Pedro que iria a Paris para puxar as orelhas de Louis-Philippe e exigir que retirasse seu voto, o que permitiria a ressurreição do rei.

Diante dessa avó biruta, Pedro apenas ouvia e fazia que sim. Até ele, com sua pouca instrução, sabia que os agentes do Terror, como Marat, Danton, Robespierre e centenas de outros, além do próprio Egalité, já estavam tão mortos quanto Luís XVI e igualmente guilhotinados — exceto Marat, assassinado em sua banheira pela militante girondina Charlotte Corday (logo Marat, que só tomava banho para fins medicinais!). As vezes, Pedro tinha pena da rainha. Mas, quase sempre, despedia-se dela com um novo beija-mão, retirava-se andando de costas e, depois de fechar a porta atrás de si e sair no corredor, deixava escapar um suspiro de alívio. Não era justo que uma rainha terminasse assim — que o mundo desse a volta ao juízo de alguém nascida para usar uma coroa e interferir nos destinos desse mesmo mundo. Mas já havia muito que dona Maria não interferia nem no próprio destino.”

Era no Tempo do Rei – Ruy Castro


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