O Feitiço Da Ilha Do Pavão – João Ubaldo Ribeiro| Fantasia Histórica e Mitológica Brasileira! | NITROLEITURAS #resenha

Uma espécie de continuação, recriação mitológica da obra-prima de Ubaldo, o “Viva o Povo Brasileiro”, misturando fábula, a essência da nossa história, humor e erotismo em uma ilha utópica tropical, uma espécie de Olimpo brasileiro-baiano! Adorei!

O Feitiço Da Ilha Do Pavão – João Ubaldo Ribeiro | 323 páginas, 1997, Editora Nova Fronteira | Lido de 14.06.16 a 19.06.16 | Nota 3.7 em 5

Capa O feitico da Ilha do Pavao.indd


SINOPSE
Uma ilha isolada, no Reconcâvo baiano, no tempo do Brasil Colônia. É nesse cenário em que se passa a trama, uma fantasia em torno da nossa história, que envolve feitiçaria, Inquisição e mistérios. Os personagens: a população da ilha, formada por índios aculturados, negros escravos, brancos que enriqueceram com o tráfico negreiro, apátridas e um quilombo subvertido em reino tirânico. Uma aventura literária, utilizada pelo autor para mostrar algumas vertentes da formação do caráter do povo brasileiro.


RESENHA
Cada vez mais fã do João Ubaldo Ribeiro, a cada leitura me apaixono cada vez mais com sua prosa única e de “explodir cabeças”.

“O Feitiço Da Ilha Do Pavão” segue a mesma mistura de fantasia de inspiração na história brasileira da obra prima “Viva o Povo Brasileiro”. Dessa vez, Ubaldo fica apenas com o essencial da formação do nosso povo criando a fictícia e mitológica Ilha do Pavão.

É um livro da maturidade do Ubaldo, onde ele demonstra, mais uma vez, sua perícia poética com a língua portuguesa, ou melhor, com a língua brasileira. É o efeito “Ubaldo”, todas as vezes que leio um de seus livros, sinto o meu vocabulário “brasileiro” aumentar exponencialmente.

E não tem nada mais brasileiro do que “O Feitiço Da Ilha Do Pavão”. Tá tudo lá, Ubaldo criou uma espécie de ilha utópica ou mitológica, concentrando todos os dramas da formação da nossa identidade tropical: as podreiras da colonização portuguesa, a complexa relação entre o racismo inerente na nossa cultura com a miscigenação entre as raças e o hedonismo essencial de nosso povo. A mistura de violência com preguiça, o choque entre a cultura européia e as culturas africanas e indígenas, a corrupção eterna dos nossos poderosos, as crendices e superstições de nosso povo e a adaptação do catolicismo europeu tendo que se curvar ao sensualismo natural dos trópicos.

Tá tudo lá, uma coisa impressionante, uma espécie de “bis” do Viva o Povo Brasileiro, mas com uma levada mais de fábula, de lenda.

Um livro maravilhoso, mostrando que a literatura é um troço de doido mesmo, e que é possível criar uma literatura de fantasia totalmente brasileira e que, além do prazer de histórias fabulosas, ainda debate as nossas raízes culturais e ainda reconhece os grupos que foram marginalizados no caminho brutal e sangrento de nossa colonização. E ainda com bom humor (tem muitas passagens engraçadas DEMAIS!) e com muito erotismo!

Recomendo para quem curte romances brasileiros que usam da fantasia para debater questões de identidade, quem curte João Ubaldo, quem curte literatura de qualidade e prosa poética, divertida, engraçada e fascinante! :) Uma leitura obrigatória para quem leu a obra-prima “Viva o Povo Brasileiro”. :)


TRECHOS

“— Cadê tendente? Cadê Dão Filipe de Meulo Furutado? Cadê condenado pecador, tendente estrumo? Uá! Uá! Índio mata, índio dá carne de branco postadinha pra guará, pra raposa, pra tatu e aribu, pra siri e pra mecê atecuri, na terra, no vento e na maré! Índio pega toda gente e mata de dentada, arrum, arrum, creque-creque, ramo-ramo, racha cabeça, bebe sangue na coité, tuque-tuque-tuque-tuque! Curuí-curuê, é com vossimicecê! Donde que saiu? Saiu de cu, bosta sem mistura, bosta pura! Fio arrejeitado de sarigueia amolestosa, bixiguento! Cadê tendente? Não manda ele? Manda eu também! Aqui tudo, índio já mandava antes de branco parecer! Vão-te à merda do caraio da postema da barabaridade! Dismigaia mioleira, come nariz, chupa olho, capa zovo, enfia porrete no rabo! Uá! Uá! Joga feitiço da Degueredada, faz desgraça, vai secar tu e tua parentage, tua mãe, teu pai, teus com que vive, teus de sangue tudo!

— Não é eu que dá as ordens — disse Cabeça Reta, apoiando-se na forquilha do mosquete como se estivesse com medo de cair.

— Ordes dá tendente Dão Filipe, índio sabe! Mas tendente fugiu, se escondeu aí dentro! Índio vai entrar, índio lasca porta toda, entra aí dentro, quebra tudo, tudo! Então, povo: todos índio não vai entrar? Vai! Vai! Índio vai entrar, garguelar tendente, enfiar no espeto, assar no moquém!

— Seu Dão intendente não tá aí. Tá tudo fechado, hoje é feriado, dia do outono.

— Dia de quem? Quem é o tono, é santo? Santo Antono não é, não fica com conversa querendo enganar índio, Santo Antono é no tempo de trezena e novena, índio não é besta!

— Não sei se é santo, só sei que é feriado, dia do outono. Está na postura, é feriado dia do outono, dia da primavera, todos esses dias. O outono começa hoje, é muito importante, é feriado.

— Mentira. Mentira de Dão Filipe tendente, filadumaégua com oitenta jumento.

— Mentira, não. Tá escrito e pregado ali na porta. Tando escrito, não pode ser mentira, tá escrito.

— Diz tu e diz o cura Bonege. E é porque é dia do tono que o tendente não tá aí?

— Não, é porque é feriado. Por primeiro é o dia do outono, por segundo é o feriado. No feriado, ninguém tá aqui, só tá nós.

— Então onde é que ele tá? Em casa não tá, na rua não tá, aqui não tá. Ele tem que tá. Ninguém não não tá, todo homem tem que tá, não pode não tá, índio não é besta.”


“Índio anda nu porque é nocente, desconhece roupa, não sabe mardade, padre cura disse, padre cura não se poquenta com índio nu! Toda gente gosta índio! Assomente é Dão Filipe que não gosta! Assomente Dão Filipe e as beata beguina! Assomente Dão Filipe, as beguina e os miserave! Quando índio tá na casa de mulher que eles vai, ajudando no sereviço e fazendo covitage, eles não recrama nem manda índio simbora! Quando índio vê o que eles faz e elas faz, fica tudo muito amigo de índio, pra índio espiar mas não contar! Eles quer índio tarabaiando de graça, consertando rede, carregando fruta, capinando mato, levando barrica de bosta, pra depois nem comida querê dá índio, nem misgaia! E, se índio peida, é comida junto mais bebida de branco que faz bufa, comida boa, mas faz bufa! Dê dinheiro índio, índio contente! Dê mais dinheiro índio, índio mais contente ainda! Por que não dá dinheiro índio?”


“— Meus nobres senhores — falou finalmente Capitão Cavalo, reenrolando o memorial, passando-lhe a fita em que viera atado e pondo-o sobre uma mesa —, quero inicialmente agradecer as palavras de todos os senhores, que, repito, não mereço.

— Não apoiado! — bradou Dão Felipe e o capitão suspirou novamente, com um aceno enfarado.

— Como dizia — prosseguiu o capitão —, agradeço-vos pelas palavras generosas, mas temo que minha resposta não vos agrade. Por graciosa dação real, me foi concedida esta sesmaria, mas disso não me aproveitei para contestar direitos dos que aqui já estavam.

Ocupei somente terras ainda sem cultivo, nunca quis ser o dono supremo da ilha do Pavão, que para mim deve ser de todos os que nela vivem e labutam. Já por aí bem vedes que minha ambição está longe de ser desmesurada.

Quanto aos índios, não sei por que não terão o direito de entrar e viver nas vilas, pois que se encontravam aqui antes de qualquer um de nós e a terra também é deles, antes mais deles do que nossa. Se têm seus costumes, também temos os nossos e, se queremos os nossos respeitados, respeitemos os dos outros.

Quanto aos negros, se estão quase todos livres, é porque compreendi que muito melhor que escravos é ter comigo homens livres e leais, que me sirvam porque queiram e que possam ganhar a vida honestamente.

E, se agora isto se torna geral em toda a ilha, a única culpa que me cabe foi ter começado. E não há, na verdade, por que falar em culpa, pois isto, se pensardes bem, a ninguém causou dano, antes pelo contrário. Agora os negros podem ser proprietários, podem juntar-se em grupos para cultivar a terra, trazendo fartura e bom comércio, que a todos beneficiam.

Os brancos fazem melhores negócios, as negras de casa continuam a prestar seus serviços em troca de bem pouco, os negros fazem seu ganho, os brancos fazem o que bem entendem, todos têm liberdade. Tende a liberdade lá que quiserdes. Se quiserdes mudar a situação criada, no que só vejo insensatez e estreiteza de pensamento, fazei por onde e só não o fareis nas minhas terras, porque nelas mandamos eu e meus homens.

Quanto às vossas leis do Reino, que as façais cumprir como puderdes, mas não com a minha ajuda, pois há muito que aprendi não haver tanta sabedoria nessas leis, que são as mesmas leis desse quilombo despótico que se intitula aliado da Coroa.

Vejo esta ilha diferentemente dos senhores. Vejo esta ilha livre, com todos misturados e podendo levar as vidas que desejarem, sem as intrigas, as misérias, as guerras, os morticínios, as perseguições e as maldades que tanto já testemunhei pelo mundo afora.

Tampouco a cristandade aqui sofre violência, mas antes é vivida em sua inteireza, que é o amor ao próximo e à justiça, como quis o Cristo, que jamais mandou ou desejou queimar quem fosse na fogueira e morreu na cruz por amor a nós. Não, senhores, se desejais esse governo prepotente, fazei-o vós mesmos, se puderdes.

Cada um se governa como quer ou como pode e eu não me intrometo. Apenas não governareis a mim, que já acreditei no que vós hoje ainda acreditais, mas não mais acredito, tenho crenças bem diversas. Se quereis expulsar os índios, não vos admiro por isso, mas administrai-vos como entenderdes correto, não sou dono das vilas.

— Mas, com todo o respeito devido, ouso perguntar a Vossa Mercê: não crê Vossa Mercê que com isso foge a um dever, a deveres para com a Coroa, o rei e a Santa Madre Igreja?

— Não fujo a dever algum. Meus deveres sei bem quais são e não careço de que mos lembrem.

— Perdão, não foi do meu intento ofender Vossa Mercê, longe, longíssimo de mim, tal desígnio. Sei muito bem que é Vossa Mercê um homem exemplar, que conhece perfeitamente bem seus deveres. Mas me refiro a um dever mais alto, um dever que se impõe pela própria História.

— Não percebo onde há essa imposição. Aliás, as poucas luzes que iluminam meu juízo me mostram o exato contrário.

— Que outro, senão Vossa Mercê, com vosso poder e vosso comando pode reconduzir a ilha a seu destino reto?

— Como já devia estar claro para todos vós, não acho que o destino da ilha esteja torto. Isto acham os senhores. Pois bem, como também já disse, isso é com os senhores. Não vos tendes governado da maneira que desejais, até agora? Pois então continuai a fazê-lo, não me passa pela cabeça impedir-vos. E se algo vos impede, não será que os tempos estão a exigir novos governos, diferentes do vosso? Como já disse, os do quilombo se governam com leis semelhantes às que desejais ver de novo vigorar com severidade. Acaso já quis eu invadir o quilombo, para impor minha maneira de ver o mundo? Lá eles que tenham suas leis, governem-se como quiserem e, quando quiserem ou se tornar imperativo, que façam eles próprios suas mudanças.”



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