Criação (Creation) – Gore Vidal|A Busca do Sentido da Vida de um Persa do séc. V a.C.! | NITROLEITURAS

Finalmente li “Criação”, a obra-prima do escritor Gore Vidal, um romance que fiquei namorando por mais de uma década! E é maravilhoso, o Vidal é o monstro sagrado do romance histórico, por Zoroastro! :D

Criação (Creation) – Gore Vidal | Doubleday 2002 (1981), 720 páginas | Início da leitura: 24.05.16 | NITROLEITURAS

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SINOPSE
Reconstrução uma das épocas mais turbulentas e fascinantes da história da humanidade, o século V a.C., período em que se conceberam idéias filosóficas, sociais e políticas que mudaram o curso do mundo antigo.

O protagonista de ‘Criação’ é Ciro, neto do profeta Zoroastro, que viaja como embaixador para além das fronteiras da Pérsia à procura de riqueza e, sobretudo, de respostas às perguntas acerca da criação e da origem do mundo.

Ciro Espítama,
embaixador do Grande Rei em Atenas, no século V a.C., é o neto e último descendente vivo da linhagem de Zoroastro — fundador do Zoroastrismo no Império Persa. Por esta herança (e por ser reputado como ouvinte e confidente das últimas palavras do seu avô) foi considerado digno de elevação e ascendência espiritual sobre os homens; assim Ciro foi criado nos círculos da alta corte da Pérsia Aquemênida.

O Grande Rei Dario I, planejando seguir com a expansão do Império para o Leste
, envia Ciro em expedições para avaliar as riquezas da Índia e de Catai (a China). Em suas viagens, Espítama entra em contato com alguns dos pensadores e místicos mais importantes da História: Mahavira, Buda, Lao Tse, Confúcio. As experiências com esses sábios filósofos vão transformá-lo para sempre.


RESENHA

“Criação” é um livraço, literal e metaforicamente. Uma narrativa imensa, que passeia pelo mundo do século V antes de Cristo, sob o ponto de vista de um embaixador persa, que, velho e cego, narra suas memórias.

A escolha do narrador tornou o livro mais ácido e interessante do que o convencional. O que sabemos do mundo antigo é totalmente influenciado pela versão grega.

Mas os Persas, tradicionalmente vistos pelos ocidentais como os derrotados pela história, oferecem uma visão muito diferente dos eventos como as Guerras Gregas (as mesmas que envolvem os 300 de Esparta), a influência do monoteísmo zoroastrista em todo mundo antigo, a visão expansionista e globalizante de Xerxes, entre muitos outros detalhes.

PARIS, FRANCE - MARCH 20. (EDITORS NOTE: Image has been shot in black and white. Color version not available.) American writer Gore Vidal poses during portrait session held on March 20, 1983 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)
PARIS, FRANCE – MARCH 20. (EDITORS NOTE: Image has been shot in black and white.
Color version not available.) American writer Gore Vidal poses during portrait session held on March 20, 1983 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

É uma visão muito diferente da versão bizarra-hedonista-monstruosa dos persas no 300 de Esparta (uma obra que, apesar de divertir, é mais um reflexo das pirações paranóicas e intervencionistas (e cripto-fascistas, bem nem tão cripto assim hahahaha) do Frank Miller dos últimos anos).

É uma reconstrução da história do Ocidente feita através de um olhar do Oriente.
Pode ser uma alusão de Gore Vidal ao confronto contemporâneo entre o Ocidente e o Oriente islâmico, com o escritor mostrando a complexidade gerada por um choque de culturas diferentes; e apontando como os erros do passado sempre retornam ao presente, em novas facetas.

A prosa é maravilhosa, como é a regra no caso de Gore Vidal. Frases cheias de música (li no original, em inglês), e observações feitas com acidez.

As descrições são precisas e detalhadas. Destaco a passagem do protagonista pela cidade da Babilônia, que era uma espécie de Las Vegas do mundo antigo, dá para sentir o cheiro do incenso de suas ruas.

Gore Vidal cria uma espécie de romance histórico literário, reconstruindo o passado sem cair em anacronismos e sem tentar passar imparcialidade. Como Graves fez em seu “Eu, Cláudius”, Vidal cria um narrador que se vale do recurso de uma ficção criada por memórias pessoais e subjetivas de eventos históricos.

Limitada pelo ponto de vista narrativo fechado, essa técnica da espaço
para especulações e suposições sobre as motivações dos personagens feitas pelo narrador, e até para imprecisões de detalhes. O que importa é a essência do drama humano e os questionamentos sobre o sentido da vida e o porquê da existência do mal, colorido pelo contexto histórico.

Outra ténica fantástica usada por Vidal foi, antes do protagonista se encontrar com os grandes pensadores do período, como o Buda, Lao Tsé, Confúcius, Pitágoras, entre outros, é passar, por meio da narrativa, o panorama cultural e social dos locais que geraram esses pensadores, melhorando o entendimento do que é relativo ao período e do que é universal em suas filosofias.

Ou seja, Criação é DOIDIMAIS DA CONTA!


RECOMENDAÇÕES

Recomendo “Criação” para quem:

Curte romances históricos mais profundos, que não só abordam os eventos e o drama do período mas levam a pensar.

Queira conhecer uma obra-prima da literatura do século XX, não só um dos melhores romances históricos jamais escritos sobre o século V antes de Cristo, como uma obra que faz refletir sobre a experiência humana.

Queira conhecer a vasta obra de Gore Vidal, “Criação” é um excelente ponto de partida.

Curte obras que abordam temas complexos em uma linguagem mais simples e acessível.

Curte romances bem escritos (li em inglês e na versão atualizada de 2001, com um “livro” a mais (no Brasil saiu a versão compostas de “nove” livros, na edição especial são “dez” livros e também não sei se a tradução brasileira se garante).

Queira conhecer a VERSÃO DOS PERSAS do que aconteceu durante as Guerras Gregas (as famosas onde ocorreu o mito dos 300 de Esparta, que segundo os persas, foi mais um exagero e criação poética dos atenienses, pois os espartanos, até esse período, NUNCA moveram uma palha para ajudar os atenienses, sempre aceitando OURO dos persas para ficar de fora dos conflitos, ou seja, muito diferente da visão romântica que chegou até nós. E uma visão mais baseada na historiografia contemporânea, Vidal coloca, no final do livro, uma extensa lista de referências usadas para escrever “Criação”.


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CITAÇÕES

Por fim lembrei-me de uma das muitas perguntas que tencionava fazer-lhe: – Diz-me, Buda, se a vida neste Mundo é um mal, então por que é que o Mundo existe!

O Buda olhou para mim fixamente. Penso que desta vez deve ter-me visto realmente, ainda que a luz no interior da cabana fosse agora tão pouco e tão verde como a água de um poço quando abrimos os olhos debaixo de água.

– O Mundo está cheio de dor, sofrimento, mal. Esta é a primeira verdade -, disse ele. – Alcança esta verdade e as outras serão evidentes. Segue a via óctupla e…

– … e o nirvana poderá extinguir ou não o eu -. Ouviu-se um ah abafado dos presentes. Eu tinha interrompido o Buda. Apesar de tudo, persisti na minha grosseria. – Mas a minha pergunta é: quem ou o quê faz um mundo cuja única razão é, segundo tu, causar dor inútil?

O Buda condescendeu: – Meu filho, suponhamos que estiveste a combater numa batalha. Foste atingido por uma seta envenenada. Sofres. Tens febre. Receias a morte… e a próxima encarnação. Eu estou por ali perto. Sou um cirurgião experiente. Que é que me pedes que eu faça?

– Que tires a seta.

– Imediatamente?

– Imediatamente.

– Não quererias saber de quem era o arco que disparou a seta?

– Ficaria curioso, claro -. Vi a direcção que ele estava a tomar.

– Mas quererias saber antes de eu tirar a seta se o archeiro era alto ou baixo, guerreiro ou escravo, bonito ou feio?

– Não, mas…

– Então, isto é tudo quanto a via óctupla te pode oferecer. A libertação da dor da seta e um antídoto para o veneno que é este Mundo.

– Mas uma vez retirada a seta e eu curado, podia ainda querer saber de quem era a seta que me feriu.

– Se tiveres seguido com verdade a via, a pergunta será imaterial. Terás visto que esta vida é um sonho, uma miragem, uma coisa produzida pelo eu. E quando o eu se vai, vai-se.

– Tu és Tathagata… aquele que vai e se foi e vem outra vez. Quando estás aqui, estás aqui. Mas quando vais, para onde vais?
– Vou para onde vai o fogo quando se apaga. Meu filho, não há palavras que definam o nirvana. Não tentes agarrar com uma rede de frases familiares aquilo que existe e não existe. Por fim, mesmo a contemplação da ideia do nirvana é uma prova de que ainda se está no lado mais próximo do rio. Aqueles que alcançam esse estado não tentam nomear o que é inominável.

Entretanto, tiremos a seta. Curemos a carne. Saíamos a dar uma volta, se pudermos, na barca que vai para o lado mais afastado. Deste modo seguimos a via intermédia. É esta a via certa? -. O sorriso do Buda era quase visível no crepúsculo. Depois disse: – Tal como o espaço do Universo está preenchido por incontáveis rodas de estrelas de fogo, a sabedoria que transcende esta vida é abissalmente profunda.

– É difícil de compreender, Tathagata – disse Sariputra – mesmo para aqueles que estão acordados.

– Razão essa pela qual, Sariputra, nunca ninguém a poderá compreender através do acordar.

Os dois velhos riram-se à gargalhada com o que obviamente era uma piada entre eles.

Não me lembro de mais nada daquele encontro com o Buda.

“Criação” – Gore Vidal, pag. 262


Confúcio lançou-me um rápido olhar de lado, como se não estivesse certo de até que ponto poderia arriscar-se comigo.

– Bom – disse ele – falei com muitas pessoas que pensam que viram os espíritos dos mortos e faço-lhes sempre uma só pergunta, que as choca. O fantasma estava nu? Invariavelmente, respondem-me, o espírito vestia as roupas que tinha quando foi enterrado. Ora nós sabemos que quando um homem morre, as suas roupas apodrecem ao mesmo tempo que ele. Portanto como é que o seu espírito pode vesti-las outra vez?

– Não sabia como reagir a isto. – Talvez o espírito apenas pareça estar vestido – contrapus fracamente.

– Talvez o espírito apenas pareça. Talvez o espírito não exista a não ser na mente de um homem apavorado. Antes de nasceres fazias parte da força primordial.

– Isso está perto do que Zoroastro nos diz.

– Sim, lembro-me -, disse Confúcio sem ligar muito. Nunca fui capaz de o interessar na Verdade. – Quando morres, reúnes-te à força primordial. Como não tens nenhuma lembrança ou consciência da força primordial antes de nasceres, como podes reter o que quer que seja desta breve consciência humana depois de morreres e regressares à força primordial.

– Na índia acreditam que reencarnarás na terra como outra pessoa ou outra coisa.

– Para sempre?

– Não. Continuas a regressar até o ciclo actual da criação chegar ao fim. A única excepção é a daquele que alcançou a iluminação. Esse apaga-se a si próprio antes do fim do ciclo.

– E quando é… apagado, para onde vai?

– É difícil de descrever.

Confúcio sorriu-se. – Também me parece. Para mim foi sempre claro que o espírito que anima o corpo humano regressa, na morte, à unidade primordial donde veio.

– Para renascer? Ou para ser julgado?

Confúcio encolheu os ombros. – Seja lá para o que for. Mas uma coisa é certa. Não podes reacender um fogo que se apagou. Enquanto queimas a tua vida, a tua semente pode fazer um novo ser humano mas depois que o teu fogo se extinguiu, ninguém é capaz de te fazer voltar outra vez à vida. Os mortos, caro amigo, são cinzas frias. Não têm consciência. Mas isso não é motivo para não honrarmos a sua memória e a nós próprios e aos nossos descendentes.
“Criação” – Gore Vidal, pag. 567


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