O Deserto dos Tártaros – Dino Buzzati | O Desespero Existencial de um Soldado de Fronteira | NITROLEITURAS

Um clássico da literatura mundial, “O Deserto dos Tártaros” é uma narrativa permeada do existencialismo característico do começo do século XX, que impressiona pela profundidade da exploração do absurdo da existência, através da vida desperdiçada de um tenente, que se vê isolado em um forte inútil no meio de uma fronteira desértica.

O Deserto dos Tártaros – Dino Buzzati | Marcador, 300 páginas | Lido de 19.05.16 a 20.05.16| NITROLEITURAS

Deserto-Tartaros

SINOPSE

Giovanni Drogo, recém-nomeado oficial, aproxima-se do seu destino, a fortaleza Bastiani, com um indefinível pressentimento de que algo na sua vida o conduz a uma total solidão.

A fortaleza, enorme, amarela, situada nos limites do deserto, outrora reino dos míticos Tártaros, acolhe-o na sua misteriosa imponência. Dentro desta, o tenente Drogo é contaminado pelo clima heróico de avidez de glória que parece petrificar, numa espera perene, oficiais e soldados. Aguardando todos o dia em que os inimigos virão do Norte…


RESENHA

O que dizer de um livro que foi considerado pelo grande Jorge Luiz Borges como uma “obra prima da literatura”? “O Deserto dos Tártaros” é um livro impressionante, ideal para leitores mais maduros e que curtem narrativas existencialistas.

Me lembrou uma mistura das paranóias surreais e enlouquecedoras do Kafka, com uma sensibilidade existencialista e uma visão do absurdo da vida humana bem no estilo do Albert Camus e outros escritores do começo do século XX. Reflete bem a preocupação de muitos intelectuais desse período com as questões da identidade em um mundo onde as antigas certezas religiosas e científicas estavam sendo destruídas.

“O Deserto dos Tártaros” é uma narrativa sobre o tempo, a espera fútil de algo que sacie a ansiedade contemporânea, e sobre o perigo de se apegar às rotinas impostas pela artificialidade das organizações sociais.

A prosa, mesmo traduzida, é fantástica. Dino Buzzati é um mestre nas caracterizações psicológicas, e suas descrições são muito boas, dá para sentir na pele o sol do deserto e a desolação da fortaleza onde o protagonista vegeta. As partes de narração surreal, como delírios e sonhos, são tão bem costuradas na trama que quase não se nota a transição.

A linguagem é precisa, palavras selecionadas a dedo, sem excessos, direta e elegante.

O livro lida com perguntas essenciais que todos nós fazemos, em um período ou outro de nossas vidas. Para que estamos vivos? Estou perdendo o meu tempo de vida com o que estou ocupado no momento? O que realmente espero que aconteça comigo no futuro? Qual é o sentido de tudo isso? Realmente conheço aqueles com quem me relaciono? Quem é esse eu que se relaciona com os outros?


RECOMENDAÇÕES

Recomendo “O Deserto dos Tártaros” para…

  • Quem gosta de romances existencialistas que fazem pensar.
  • Quem curte os romances de Albert Camus, como “O Estrangeiro”, “A Peste”, etc, Sartre, “O Coração das Trevas” do Joseph Conrad.
  • Quem curte narrativas onde militares endoidam o cabeção porque não tem nada o que fazer. (Daria para transportar “O Deserto dos Tártaros” para uma nave de guerra espacial numa boa!)
  • Quem curte literatura de altíssimo nível literário (Prêmio Nobel Level!)
  • Quem curte romances que envolvem, apesar de tristes, e que deixam uma melancolia depois que são lidos.

CITAÇÕES
Essa é uma das passagens que mais me chamaram atenção, vejam quanta beleza e quanta sabedoria, mesmo que seja uma verdade difícil de engolir. :)

“Estirado na cama, fora da zona iluminada pelo lampião de querosene, enquanto devaneava sobre a própria vida, Giovanni Drogo foi repentinamente invadido pelo sono. Entretanto, justamente aquela noite — oh, se o soubesse, talvez não tivesse vontade de dormir —, justamente aquela noite iria começar para ele a irreparável fuga do tempo.

Até então ele passara pela despreocupada idade da primeira juventude, uma estrada que na meninice parece infinita, onde os anos escoam lentos e com passo leve, tanto que ninguém nota a sua passagem. Caminha-se placidamente, olhando com curiosidade ao redor, não há necessidade de se apressar, ninguém empurra por trás e ninguém espera, também os companheiros procedem sem preocupações, de-tendo-se frequentemente para brincar.

Das casas, a porta, a gente grande cumprimenta-se benigna e aponta para o horizonte com sorrisos de cumplicidade; assim o coração começa a bater por heroicos e suaves desejos, saboreia-se a véspera das coisas maravilhosas que aguardam mais adiante; ainda não se veem, não, mas é certo, absolutamente certo, que um dia chegaremos a elas.

Falta muito? Não, basta atravessar aquele rio lá longe, no fundo, ultrapassar aquelas verdes colinas. Ou já não se chegou, por acaso? Não são talvez estas árvores, estes prados, esta casa branca o que procurávamos? Por alguns instantes tem-se a impressão que sim, e quer-se parar ali. Depois ouve-se dizer que o melhor está mais adiante, e retomasse despreocupadamente a estrada. Assim, continua-se o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o sol brilha alto no céu e parece não ter mais vontade de desaparecer no poente.

Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.

A um certo momento batem às nossas costas um pesado portão, fecham-no a uma velocidade fulminante, e não há tempo de voltar. Mas Giovanni Drogo, naquele momento, dormia, inocente, e sorria no sono, como fazem as crianças.

Passarão alguns dias antes que Drogo entenda o que aconteceu. Será então como um despertar. Olhará à sua volta, incrédulo; depois ouvirá um barulho de passos vindo de trás, verá as pessoas, despertadas antes dele, que correm afoitas e o ultrapassam para chegar primeiro.

Ouvirá a batida do tempo escandir avidamente a vida. Nas janelas não mais aparecerão figuras risonhas, mas rostos imóveis e indiferentes. E se perguntar quanto falta do caminho, ainda lhe apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade ou alegria. Entretanto, os companheiros se perderão de vista, um porque ficou para trás, esgotado, outro porque desapareceu antes e já não passa de um minúsculo ponto no horizonte.

Além daquele rio — dirão as pessoas —, mais dez quilômetros, e terá chegado. Ao contrário, não termina nunca, os dias se tornam cada vez mais curtos, os companheiros de viagem, mais raros, nas janelas estão apáticas figuras pálidas que balançam a cabeça.” 

Capítulo 6, “O Deserto dos Tártaros” – Dino Buzzati 


PRÓXIMAS LEITURAS

“Vasto Mundo”, de Maria Valéria Rezende, ganhador do Prêmio Jabuti do ano passado e depois “O Cavaleiro dos Sete Reinos”, reunião de 3 noveletas de George R.R. Martin feitas para o universo de Guerra dos Tronos!

E vamos ler porque ler é DOIDIMAIS!:)


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2 comentários em “O Deserto dos Tártaros – Dino Buzzati | O Desespero Existencial de um Soldado de Fronteira | NITROLEITURAS

  1. Esse romance, foi o PRIMEIRO, que lí integralmente em PDF, MARAVILHOSO!
    Sugestão: Tem um adulation disponivel no programa LITERATURA FUNDAMENTAL da USP ,no YouTube
    O filme tambem vale a Pena ser visto, tambem disponivel no YouTube!

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