Mulheres de Cinzas (Areias do Imperador #1) – Mia Couto | Épico Poético-Histórico de Moçambique | NITROLEITURAS

Minha primeira leitura da obra de Mia Couto, “Mulheres de Cinzas” é um romance histórico diferente e maravilhoso, dentro de um estilo de prosa poética, e que passa, além dos fatos, que expõe a complicada formação da identidade moçambicana  através dos pontos de vista de uma jovem negra e de um oficial doo reino português, ambientado no final do século XIX.

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Mulheres de Cinzas (As Areias do Imperador #1) – Mia Couto | Companhia das Letras, 2015 | 344 páginas | Lido de 16.05.16 a 19.05.16


SINOPSE

Primeiro livro da trilogia As Areias do Imperador, Mulheres de cinzas é um romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane (ou Gungunhane, como ficou conhecido pelos portugueses), o último dos líderes do Estado de Gaza – segundo maior império no continente comandado por um africano.

Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado ao vilarejo de Nkokolani para a batalha contra o imperador que ameaçava o domínio colonial. Ali o militar encontra Imani, uma garota de quinze anos que aprendeu a língua dos europeus e será sua intérprete. Ela pertence à tribo dos VaChopi, uma das poucas que ousou se opor à invasão de Ngungunyane. Mas, enquanto um de seus irmãos lutava pela Coroa de Portugal, o outro se unia ao exército dos guerreiros do imperador africano.

O envolvimento entre Germano e Imani passa a ser cada vez maior, malgrado todas as diferenças entre seus mundos. Porém, ela sabe que num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar despercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas.

Ao unir sua prosa lírica característica a uma extensa pesquisa histórica, Mia Couto construiu um romance belo e vívido, narrado alternadamente entre a voz da jovem africana e as cartas escritas pelo sargento português.


RESENHA

Misturar o gênero de romance histórico, com sua ênfase em eventos e trama com a prosa mais trabalhada e lírica dos romances ditos “literários” e sair algo bem feito é para poucos. Porque o gênero “literário” também tem suas convenções e exigências, como um maior cuidado com o lado lírico da prosa, a exploração psicológica mais profunda e o uso da narrativa e de metanarrativas intercalado com a existência ou não de trama.

Acredito que “Mulheres de Cinzas” consegue esse feito. Talvez seja o fruto da pesquisa extensa feita por Mia Couto sobre o período da colonização portuguesa de Moçambique no final do século XIX, a mistura deu muito certo.

De um lado temos um contexto histórico complexo, abordado sem maniqueísmos, com a decadência das tribos africanas frente ao domínio colonial e os impactos desastrosos da interferência européia nos conflitos tradicionais dos povos de Moçambique e região.

Ao invés de focar no aspecto externo da trama, a ameaça de destruição da tribo dos VaChopi frente ao império africano dos Gungunhanes, Mia Couto mergulha fundo na alma dos protagonistas, misturando a riqueza folclórica e cultural das tribos africanas com questões de racismo, linguagem, identidade feminina e tribal, e a dissolução da identidade que acontece com conquistadores e conquistados, quando culturas diferentes são forçadas a coexistirem.

Gostei muito do livro, a leitura é agradável e cheia de frases fantásticas! É um daqueles livros que se você começar a sublinhar as frases que mais gostou, vai acabar riscando o livro inteiro!

Uma dica, experimente ler em voz alta algumas passagens para ver como o Mia Couto é fera! :)


RECOMEDAÇÕES

Recomendo “Mulheres de Cinzas” para quem:

  • Curte romances com prosa poética, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa (o grande guru do Mia Couto).
  • Queira conhecer um pouco da história de Moçambique
  • Queira entender mais a complicada questão da identidade africana.
  • Quem curte histórias tristes (sim, o romance é bem triste e melancólico).
  • Quem queira conhecer mais sobre a visão de mundo de uma tribo africana.
  • Quem curte a mistura de romance histórico com prosa e caracterização mais aos modos da chamada “alta literatura”.

CITAÇÕES

A diferença entre a Guerra e a Paz é a seguinte: na Guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na Paz, os pobres são os primeiros a morrer.

Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na Guerra, passamos a ser violadas por quem não conhecemos.”

“Mulheres de Cinzas” (Capítulo 9) – Mia Couto, 2015.


Na manhã seguinte dirigi-me descalça para o rio Inharrime. Mergulhei no leito até que a água me chegou ao peito. Não era que quisesse morrer afogada, arrastada nas fundas correntezas. A minha intenção era a oposta: queria engravidar do rio.

Sucedera antes com outras mulheres esse fecundo namoro. O segredo era ficarem quietas até que a alma delas não se distinguisse das folhas, flutuando mortas, corrente abaixo. Era isso que queria naquele momento.

Porque de uma coisa eu estava certa: nenhum homem haveria de me possuir. Restava-me o rio, o meu rio de nascença. As águas já me fluíam por dentro quando encalhei na margem, paralisada como um velho e náufrago tronco. E ali me deixei até recuperar forças para o regresso a casa.

Foi então que os meus pés se afundaram no matope. Em vez de contrariar essa ausência de chão, libertei-me das vestes e, toda nua, abandonei-me ao abraço viscoso da lama. Por um momento deixei-me possuir pelo prazer de sentir a pele coberta por uma outra pele. Entendi então o gosto dos animais pelo banho de lama. Era por isso que ansiava: ser um bicho, sem crença, sem esperanças.”

“Mulheres de Cinzas” (Capítulo 17) – Mia Couto, 2015.


PRÓXIMAS LEITURAS

Agora, antes de retornar para Westeros com “O Cavaleiro dos 7 Reinos” e “A História de Game of Thrones”, lerei o clássico do romance histórico italiano, “O Deserto dos Tártaros” de Dino Buzzati e depois “Vasto Mundo”, de Maria Valéria Rezende, ganhador do Prêmio Jabuti do ano passado.

E vamos ler porque ler é DOIDIMAIS! :)


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