Me diverti muito com a leitura de Portões do Inferno, de André Gordirro, de inspiração RPGística e que me lembrou as trocentas campanhas de RPG que mestrei na vida, principalmente porque SEMPRE mestre para um grupo de anti-heróis, só bandido aparece em minha mesa, ou quando não era bandido na criação dos personagens, acabavam virando bandido depois!

Segue a resenha abaixo, SEM SPOILERS,  logo depois da sinopse do livro! Então, peguem suas espadas, machados, arcos e flechas, seus grimórios e itens mágicos, e vamo que vamo!

SINOPSE

Anos atrás, Krispinius e Danyanna realizaram um feito heroico: fecharam os Portões do Inferno. Coroados monarcas da atual Krispínia, tornaram-se as pessoas mais influentes daquela parte do continente e, acima de tudo, os responsáveis por garantir que demônios jamais voltem a caminhar pela superfície.

Porém correm rumores do avanço de uma tropa de svaltares – estranhos e temidos elfos das profundezas – em direções aos Portões. Tais relatos, a princípio, não parecem fazer sentido: uma das poucas certezas a respeito desses seres, afinal, é sua vulnerabilidade à luz. O que ninguém imagina, no entanto, é que eles estão dispostos a enfrentar o sol para enfim libertar as trevas.

Enquanto isso, o misterioso Ambrosius reúne seis homens em uma missão para resgatar um rei anão destronado. Os convocados são Baldur, cavaleiro desertor, ferido e sem montaria; Derek Blak, segurança profissional salvo da morte lenta (seria devorado por cães famintos e de dentes gastos); Agnor, feiticeiro expatriado; Kyle, menor infrator; Od-lanor, bardo adamar – espécie antes venerada, hoje em extinção –; e Kalannar, assassino e caçador de recompensas svaltar.

Culturas diferentes, raças rivais, temperamentos explosivos – um grupo heterogêneo, aparentemente destinado ao fracasso, mas que acaba cruzando o caminho da glória: são os únicos capazes de impedir a reabertura dos Portões do Inferno.

capa-frente


 

RESENHA

Portões do Inferno é um livro de fantasia que cumpre o que propõe, divertir o leitor com uma narrativa de fantasia medieval, ágil, despretensiosa, pop, cheia de ação e pancadaria, cujos protagonistas principais são um bando de párias da sociedade, mercenários amorais atrás de recompensa pessoal e dispostos a matar a tudo e a todos para conseguir ouro. Ou seja, o tipo de personagem que mais aparece nas minhas antigas mesas de D&D e minhas atuais mesas de Old Dragon RPG!

É o livro de estréia de André Gordirro, carioca, é jornalista, crítico de cinema, mestre e jogador de RPG, tradutor e especialista no (mas não limitado ao) universo nerd.

Então, vamos começar o dungeon crawl, pelas técnicas narrativas e o escambau, um dos focos aqui no Nitroblog, e de minhas leituras, eu sempre leio com essa bifurcação mental esquizofrênica; o olhar de escritor vendo a estrutura narrativa, o “maquinário” por trás da prosa, das cenas, etc. e o olhar de leitor, experimentando a narrativa emocionalmente. E em Portões de Ferro não teve jeito, entrou o olhar de RPGista, então, estão avisados, essa é uma resenha de um dinossauro do RPG, com pilhas e mais pilhas de leituras de campanhas de RPG romanceadas, romances baseados em mundos do D&D, etc., já acostumado com esse tipo de narrativa.

O ponto de vista narrativo é onisciente, o que dá um tom mais tradicional na prosa,  diferente o que está em voga na literatura de fantasia medieval contemporânea, que normalmente usa terceira pessoa limitada (como Game of Thrones) ou primeira pessoa (como Prince of Thorns, O Nome do Vento). É um ponto de vista narrativo difícil de fazer bem,  tem o risco de afastar um pouco o leitor da história com a sensação de assistir “de fora” e a percepção de que existe um narrador manipulando os eventos, mas em Portões do Inferno, o POV onisciente encaixou bem na proposta do livro, ficando claro quando os parágrafos alternavam pelas mentes dos personagens.  E o POV onisciente permitiu acelerar a trama, cobrindo muitos eventos em poucas páginas.

A prosa é mais direta, com um estilo mais jornalístico, rápida e sem muitos artifícios literários, resolvendo rapidamente as descrições, e se valendo de sumários narrativos para acelerar a narrativa, o que deixou a leitura bem ágil e acessível.

Como o foco da narrativa é mais na trama, na ação, na aventura em si, o desenvolvimento dos personagens ficou mais restrito, quis saber mais sobre alguns dos protagonistas, mergulhar mais em suas almas, mas toda narrativa de fantasia tem que escolher se foca mais em exploração de personagem ou exploração de cenário e desenvolvimento de trama. Sei como é difícil equilibrar exposição (passar as informações do cenário e da situação da narrativa), desenvolvimento de personagem sumários narrativos e cenas ativas em “tempo real” e ainda assim tacar uns monólogos interiores e elementos do passado dos protagonistas.  E “Portões do Inferno” claramente foca mais na trama, o que encaixa bem com a proposta do livro e até mesmo a origem rpgística da narrativa.

Por ter o foco principal na trama, e  o de ser o primeiro livro de uma trilogia, o livro traz muita exposição, como é de praxe nesse tipo de narrativa de fantasia medieval, mas achei bem distribuída pelos  diálogos e entre as cenas, sem carregar demais o ritmo. Como a história de fundo do cenário é relativamente simples (principalmente para quem está acostumado com a complexidade insana de Malazan, por exemplo!) a exposição focava mais em explicar as motivações dos protagonistas.

O texto me pareceu bem revisado, que é algo que eu valorizo muito (apesar dessas minhas resenhas escritas e postadas com a velocidade clichê de um raio, hahahahaha, muito engraçado Nitro, hahahaha, not!). A revisão e o trabalho de edição é compativel com o que eu esperaria  de uma editora importante como a Rocco.

O livro é claramente inspirado em jogos de RPG, principalmente no consciente e no inconsciente coletivo  criado pelo RPG Dungeons and Dragons, tanto no modo como se organiza o mundo, as classes dos personagens, as raças humanas e não humanas, a magia, os planos dimensionais, etc, com algumas variações e quebras de expectativas interessantes (que não vou revelar, veio, lêia o livro se quiser saber, uai!).

É mais uma adição a literatura nacional de fantasia brutal, um estilo que curto muito ( é só dar uma olhada nas minhas trocentas resenhas de fantasia brutal _ a minha tradução para o “Grimm fantasy”, tem  gente que traduz como “fantasia suja”, mas isso tem um “quê” de pornozão hardcore hahahahahaha, o que não deixa de ser legal também!). O livro entra bem dentro desse gênero da fantasia, protagonistas amorais, sexo, drogas e violência, vícios, palavrões, corrupção moral, escravidão, crueldade, cinismo, humor negro, anarquia estilo filmes dos anos 60, torturas, dentro de uma visão mais sujona e punk dos topos tradicionais da fantasia medieval.

E isso foi o que mais me chamou atenção no livro, o humor bem brasileiro nas farpas trocadas pelo grupo de anti-heróis. Fantasia brutal com humor brasileiro, hahahaha, massavéio demais.

Gostei muito do grupo de anti-heróis, suas cenas foram os meus momentos favoritos do livro, são bem punks e engraçados, e me lembrou demais das centenas de grupos de aventureiros das minhas sessões de RPG. E Kalannar, um assassino massavéio, sarcástico e com algumas das melhores falas do livro, se tornou o meu favorito. Fica a torcida para um livro só com ele, em primeira pessoal, veio, ia ser doidimais!

Senti falta de mais protagonistas femininas, pois, tirando uma ou outra protagonista,  a narrativa é ocupada por uma “homarada dus infernos” por todos os lados. O cenário tem até um exército guerreiras mulheres, cuja capitã aparece um pouco, mas, tirando uma rainha maga, os papéis principais são ocupados por machos de várias espécies. Imagino que seja influência da origem do livro em uma campanha de RPG jogada e mestrada pelo autor, jogadores homens custam a criar personagens femininas, eu sei por experiência própria.

Em suma, o livro é divertido pra caray, bem escrito e revisado (o que é para mim é muito importante, pode ser a prosa mais doidimais, mas o texto estiver mal revisado _ como essa resenha tosca aqui, hahahahaha _ eu paro de ler na hora, veio!). Um livro que vai agradar a galera que curte RPGs e narrativa de fantasia com bastante ação épica, pancadaria, aventura, combates de exércitos, etc. e vai dar vontade de jogar com os compadres (me deu essa vontade, pelo menos).

E isso aí, e que venham mais livros e mais leitores (o mais importante!) de fantasia brutal brasileira!

RECOMENADO PARA QUEM:

  • Curte RPGs de fantasia medieval
  • Já jogou com um grupo de aventureiros amorais e mercenários
  • Curte Fantasia Medieval com foco em trama, muita ação e pancadaria, batalhas épicas, vilões cruéis, heróis de moralidade duvidosa e grupo de aventureiros que passa o tempo todo brigando entre si. E que a história rola sem enrolações.
  • Curte narrativas ágeis, com referências nerds
  • Curte Dungeons and Dragons
  • Gosta de fantasia brutal misturada com humor negro

 

NITROLEITURAS: Os Portões do Inferno ( Lendas de Baldúria #1, 2015) – André Gordirro – 377 pgs | Fantasia Brutal Brasileira

Período de Leitura: 29.07.2015 a 01.08.2015

Onde Comprar:

Amazon

Os portões do inferno (Lendas de Baldúria Livro 1) por André Gordirro Os portões do inferno (Lendas de Baldúria Livro 1)


 

PRÓXIMA LEITURA:

NITROLEITURAS: Satori ( Shibumi #00, 2011) – Don Winslow – 513 pgs

Iniciando uma viagem no mundo da narrativa de thrillers de ação, para estudar as técnicas narrativas e me divertir, uai, ler é diversão também sô, lerei meu primeiro livro do badalado Don Winslow!

Uns chegados fanáticos por thrillers me recomendaram fanáticamente a leitura do mega-clássico Shibumi (1979), do mestre Trevanian, e depois que descobri que o Don Winslow (o atual escritor favorito do Warren “Authority” Ellis!!!!) escreveu um romance-prólogo do Shibumi, e como sou viciado em ler livros em séries, catei logo o Satori, que narra o passado do Nicholai Hel, o perigosíssimo , anti-herói do Trevanian.

Onde Comprar

Amazon

Satori (English Edition) [EBook Kindle] – Don Winslow

E vamos ler porque ler é doidimais!

 


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