Minha primeira, ou melhor a primeira de muitas releituras que certamente farei desse livro maravilhoso. O que é a Paixão Segundo GH? É um mergulho místico, filosófico, hermético, onde cada frase amplifica os mistérios da vida, é uma prosa-poesia ou uma poesia-prosa, é um dos monólogos interiores mais absolutamente perfeitos que já li na minha vida de leitor, é um texto que transcende os limites da linguagem (como toda grande poesia), é uma busca sem-fim por identidade, é o grito milenar de sofrimento e gozo do universo feminino desde a aurora dos tempos, é pura Clarice Lispector.

Qualquer escritor estaria feliz em ter forjado algumas das frases que Clarice despeja sem parar, uma depois da outra nesse livro. É um texto que eu costumo chamar de “concentrado”, como aquele extrato de tomate cica véião que a gente tira um tiquinho, taca água e faz um litro de molho para macarrão, esse livro é assim, é frase atrás de frase atrás de frase de explodir a cabeça. Eu parei de sublinhar no começo, iria acabar sublinhando o danado do livro inteiro.

E sobre o que é A Paixão Segundo GH?

Na camada superficial é a tempestade interior apocalítica que assola uma dona de casa de classe alta (um avatar da própria Clarice) que, ao entrar no quarto de sua ex-empregada doméstica, se depara com um desenho que ela deixou na parede (como os desenhos pré-históricos encontrados nas cavernas de Lascaux e Altamira). A partir desse contato vem um jorro de emoções, pensamentos, informações, reflexões sobre centenas de temas universais e pessoais, Deus, vida e existência, a condição da mulher, aborto, relação de mãe e filha etc. E ainda tem a barata, o encontro e o assassinato de uma barata, que se torna praticamente um mito dentro do livro, com associações impressionantes. E lá vem frase, atrás de frase, atrás de frases marcantes, frases que fazem pensar, refletir, se enojar, se engrandecer.

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E ainda tem a carpintaria de dar inveja a um Nabokov, ressonância por todos os lados, o texto dialogando em si mesmo, cada capítulo começando com um eco da frase final do anterior, etc.

E tudo isso em míseras 179 páginas, que, pelo que sei, foram reescritas centenas de vezes. Isso é a Clarice Lispector véio! E nada de mensagens, frases prontas etc. que o chorume da internet atribui a ela, Lispector é inquietude, é perturbação, e descobrir o mistério onde ele não havia, é criar o enigma onde antes só haviam soluções fáceis.

E é isso aí, recomendado esse livro maravilhoso para aqueles que que preferem perguntas mais do que respostas!

NITROLEITURAS: A Paixão Segundo GH de Clarice Lispector (1964) – 179 páginas
Período de Leitura: 05.07.15 a 06.07.15

PRÓXIMA LEITURA:
Inciando um livro que estava na minha lista faz tempo, o elogiado A Grande Arte (1983) – Rubem Fonseca – 303 páginas, e estou curtindo reencontrar com o grande Mandrake!

BÔNUS STAGE: Um trecho dos trocentos trechos maravilhosos desse livro feroz.

“Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.” A Paixão Segundo GH – p.98

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