A Origem do Poder das Mulheres – Trecho de “Um Defeito de Cor” (2006), o livro maravilhoso de Ana Maria Gonçalves #trecho #citação

Um trecho fantástico do romance “Um Defeito de Cor” (2006) de Ana Maria Gonçalvez, onde Kahinde aprende aos pés de Mãezinha.

“Com palavras muito bem escolhidas e voz tranqüila, a Mãezinha parecia receber inspiração especial ao falar de uma força que nós, mulheres, temos à disposição e devemos aprender a usar. Ela contou que, quando o mundo foi criado, Olodumaré, o Deus Supremo, mandou três divindades à terra: Ogum, o senhor do ferro, Obarixá, o senhor da criação dos homens, e Oduá, a única mulher e a única que não tinha poderes. Por causa disso, Oduá foi se queixar a Olodumaré e recebeu dele o poder do pássaro contido em uma cabaça, o que fez dela uma lyá Won, a nossa mãe suprema, a mãe de todas as coisas e para toda a eternidade, a que dá continuidade a tudo que existe ou venha a existir. Olodumaré disse a Oduá que, a partir de então, o homem nunca mais poderia fazer nada sem a colaboração da mulher.

Com o poder dos pássaros, as mulheres receberam de graça e de nascimento o axé, que é uma energia que os homens têm que cativar. Não me lembro direito da explicação para este poder estar desde sempre com as mulheres, mas acho que está relacionado ao ninho, representado pela cabaça, ou ao ovo, gerado pelo pássaro. Só sei que, por meio dele, as mulheres passaram a ser as que geram, as que fertilizam, as donas da barriga, que é por onde circula toda a energia e a vida do corpo, através do sangue. É por isso que as mulheres têm as regras, porque o grande poder feminino segue o rastro do sangue.

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Olodumaré também alertou Oduá que esse era um poder muito grande, maior do que qualquer outro, e que por isso deveria ser usado com cuidado. Mas Oduá abusou, o que fez com que Obarixá fosse se queixar a Olodumaré, preocupado e humilhado com o poder concedido às mulheres. Olodumaré fez o jogo do Ifá para Obarixá e o ensinou a conquistar e vencer Oduá, usando a astúcia e fazendo sacrifícios e oferendas. Ele seguiu os conselhos e conseguiu se casar com Oduá depois de tê-la enganado, fazendo com que comesse uma de suas quizilas (Quizila: Tabu que os orixás têm em relação a certos alimentos). Com o passar do tempo, Obarixá conquistou a confiança de Oduá e descobriu de onde vinha grande parte do seu poder, o culto aos eguns. Ela também mostrou a roupa especial dos eguns e deixou que ele, em segredo, participasse dos cultos.

O que Oduá não sabia era que tudo isso fazia parte dos planos de Obarixá, que aproveitou um dia em que ela saiu de casa para modificar e vestir a roupa de egum, chamado então de egungum, e foi assim vestido para a cidade. Quando viu a roupa de egungum andando e falando, Oduá percebeu que tinha sido enganada e reconheceu que merecia ser castigada pelo descuido. Ela então prestou homenagem à esperteza de Obarixá e mandou que o pássaro pousasse sobre ele, para que ele tivesse o poder de transformar em realidade tudo o que dissessem as suas palavras.

Depois disso, Oduá nunca mais participou do culto aos egunguns, permitido somente para homens, e ficou com o culto às íydmis. Deu para entender? Os eguns masculinos são os egunguns e os femininos são as lyámis. Os egunguns são cultuados separadamente, e somente pelos homens, como um castigo ao abuso e ao descuido de Oduá. Mas, como uma homenagem às mulheres, os homens vestem roupas de mulher. Toda íydmi, ou íydmi agbd, (ydmi agbd: minha mãe ancestral) é cultuada na pessoa de íydmi òsòròngd, que também é chamada de iyãnla, (IyãNla: A Grande Mãe), e para isso as mulheres se unem nas sociedades gelédés. A Mãezinha fazia parte de uma delas, ali mesmo na ilha. íydmi òsòròngd também pode ser chamada de Íyemònjd-Òdud, a dona dos mares, a dona das águas que nutrem e fecundam a terra, o grande útero do mundo. Você sabia que Xangô é também um egungum? Acho que só no Brasil ele é tratado como orixá, mas na verdade é um grande ancestral do povo iorubá, um dos mais importantes reis de que já se ouviu falar em toda a África.”

de “Eguns e Egunguns”, em Um Defeito de Cor (2006) – Ana Maria Gonçalves

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Ana Maria Gonçalves nasceu em 1970, na cidade Ibiá-MG. Publicitária por formação, residiu em São Paulo por treze anos até se cansar do ritmo intenso da cidade e da profissão. Em viagem à Bahia, encantou-se com a Ilha de Itaparica, onde fixou residência por cinco anos e descobriu sua veia de ficcionista, passando a se dedicar integralmente à literatura. Atualmente, reside em New Orleans, no estado americano da Louisiana.

Em 2002, estreou como escritora com a publicação de Ao lado e à margem do que sentes por mim – “livro terno, íntimo, vivido e escrito em Itaparica”, segundo o depoimento de Millor Fernandes. O livro teve circulação restrita, apesar da primorosa edição artesanal. Mas é em 2006 que a autora se torna conhecida no meio literário com o lançamento de Um defeito de cor, épico de 952 páginas. O romance narra a trajetória de Kehinde, uma escrava nascida no Benin (atual Daomé), desde o instante em que é capturada, aos 8 anos, até seu retorno à África como mulher livre, porém sem o filho, vendido como escravo pelo próprio pai a fim de saldar uma dívida de jogo. O texto dialoga com o modelo pós-moderno da metaficção historiográfica e traz para a narrativa parte da trajetória de vida do poeta Luís Gama, também ele vendido como escravo, embora nascido livre.

Um Defeito de Cor conquistou o importante o Prêmio Casa de Las Américas de 2007 como melhor romance de literatura brasileira.

Ana Maria Gonçalves vem participando de inúmeros eventos literários no Brasil e no exterior. Atualmente, prepara seu novo romance, que aborda o universo das Minas Gerais no tempo da colônia.

Onde Comprar:

http://www.livrariacultura.com.br/p/um-defeito-de-cor-1407629

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