Um Defeito de Cor (2006) – ANA MARIA GONÇALVES | Todas As Histórias do Mundo desde que o Mundo era Mundo! #trecho #citação

Nesse belíssimo trecho de Um Defeito da Cor (2006) de Ana Maria Gonçalves, conhecemos as histórias da Nega Florinda, a que “parecia saber todas as histórias do mundo, desde que o mundo era mundo”.

“Aos domingos e nos dias santos, todos os escravos tinham folga certa, menos nós, os da casa-grande, que precisávamos trabalhar se os senhores assim quisessem. E sempre queriam, pois falavam que a nossa vida era bem melhor que a vida dos escravos que viviam na senzala grande, e que, portanto, não fazíamos favor algum abrindo mão de certas regalias. De fato, eu já tinha percebido que a nossa vida era melhor mesmo, apesar do pouco contato com os outros, de quem o sinhô José Carlos fazia questão de nos manter afastados.

Segundo a Esméria, era para que não pegássemos de novo os vícios selvagens dos pretos, e assim servirmos melhor aos brancos. Mas eu desconfiava que ela não cumpria muito bem esta ordem, pois em algumas noites que eu fingia dormir, via que ela se levantava e saía, voltando somente na hora de torrar e moer o café para o desjejum. Ela também conversava muito com a Nega Florinda, que aparecia de vez em quando na fazenda e de quem eu já tinha ouvido a sinhá Ana Felipa dizer que não gostava, por ser metida até as unhas com bruxarias, embora se divertisse com as histórias que a preta contava.

A Nega Florinda era das pessoas mais antigas da ilha, morava lá desde que tinha chegado da África, ainda mocinha, e já era forra havia tanto tempo que ninguém vivo se lembrava dela como escrava. Era muito velha e parecia saber todas as histórias do mundo, desde que o mundo era mundo, como ela mesma dizia. Como recontadeira, andava de casa em casa e recebia algum dinheiro ou mesmo sobras de comida, que aceitava de bom grado antes de se agachar em qualquer canto e contar histórias.

Até a sinhá se aproximava para ouvi-la, e não se importava se algumas pretas da casa ou da cozinha também ficassem por perto. Parecia que o Tico e o Hilário tinham faro para as histórias, pois os dois podiam estar longe que davam um jeito de aparecer. Aliás, os dois estavam sempre sumidos, e muitas vezes, quando se precisava deles para fazer algo ou levar recado a pedido dos senhores, quem tinha recebido a incumbência de encomendar o serviço a eles acabava tendo que fazê-lo, porque só eram encontrados quando o assunto também lhes interessava.

Eu me assustei um pouco na primeira vez que vi a Nega Florinda se aproximar da varanda onde eu estava com a sinhazinha Maria Clara. De longe, ela parecia um dos egunguns (egunguns: “esqueleto”, espírito dos antepassados, egum), que eu tinha visto certa vez passeando pelas ruas de Uidá. Era baixa e andava curvada, os passos rápidos para compensar as pernas curtas, e usava uma bata inteiriça e colorida que ia até os pés, com um pano-a-costa jogado sobre o ombro direito e, em uma das mãos, uma bolsa de tecido, onde guardava o dinheiro ou as prendas que recebia por suas histórias.

Usava vários colares de contas coloridas em volta do pescoço, e em uma corda amarrada na cintura pendurava um sino pequeno e barulhento, que tilintava para anunciar sua chegada. A sinhá Ana Felipa não deixava que a Nega Florinda fosse recebida sem que ela estivesse presente, pois queria ter certeza de que, como desdenhava, a velha não contaria histórias de feitiços nem dos demônios que os pretos chamavam de santos e cultuavam como se fossem capazes de grandes feitos.

Mas quando a sinhá estava cansada de bordar ou de ler, a Nega Florinda era até bem recebida, com direito a refresco e um pedaço de pão ou bolo, sem falar no dinheiro. Além de dizer alôs (Alô: conto, história), muito bem, era interessante ver como a Nega se preparava, batendo palmas ritmadas antes de começar e durante a narração, com força e velocidade diferentes, para ajudar a fazer suspense. A primeira história que ela contou eu já conhecia, a minha avó tinha contado para mim, para a Taiwo e o Kokumo enquanto tecia sob o pé de iroco, com uma pequena diferença no final, que a Nega Florinda devia ter feito para agradar à sinhá Ana Felipa. Era a história do teiú e da tartaruga (tartaruga Em iorubá, um dos apelidos da tartaruga é ajapá, que significa “a fada da cabeça pelada”), que viviam em um lugar onde há muito tempo não chovia, fazendo com que todos passassem fome.

Para sobreviver, o teiú se arriscava para roubar o inhame que crescia dentro de uma rocha mágica vigiada por um homem muito bravo, e foi enganado pela fada da cabeça pelada. Mas no final deu tudo certo e a fada foi punida, apanhando muito do dono da roça, que quebrou seu casco em vários lugares. Arrependida, a fada recebeu ajuda da barata, que coseu o casco e o deixou daquele jeito, com as marcas das rachaduras. Perto da sinhá Ana Felipa, a Nega Florinda disse que a ajuda tinha sido de Nossa Senhora, mas tive quase certeza de que ela sabia o final verdadeiro.

Em um dia em que a Nega Florinda apareceu e não pôde ser recebida porque a sinhá estava de repouso para não perder a criança, aproveitei para conversar com ela. Imaginei que ela poderia me ajudar porque talvez fosse da mesma região que a minha avó, já que as duas conheciam a mesma história. Desse modo, entenderia a minha necessidade de cumprir as promessas feitas, de providenciar um Xangô, uma Nana, uma Oxum, os Ibêjis e, principalmente, o pingente que representaria a Taiwo, para que eu pudesse ficar com a alma completa, a alma que nós duas dividíamos antes de ela morrer.

Estávamos na varanda quando a Nega Florinda chegou, e como a sinhazinha adorava ouvir suas histórias, foi pedir à sinhá que deixasse a Nega Florinda contar uma história só, mesmo ela não estando por perto. Com a negativa da sinhá, a sinhazinha Maria Clara se trancou no quarto, chorando, e eu aproveitei para seguir a Nega Florinda até a praia.

Antes, procurei pelo Eufrásio, o capataz, ou pelos homens que trabalhavam com ele, e não vi ninguém por perto. Na praia, apenas alguns pretos da senzala grande cuidavam dos barcos de pesca, ocupados com as próprias vidas, não dando importância ao que eu fazia da minha. Mesmo assim, pedi que entrássemos um pouco pelo palmeiral, para o caso de alguém aparecer de repente. A Nega Florinda disse que já sabia que eu precisava falar com ela e que podia ajudar. Contei como eu tinha chegado até ali e ela disse que isso já era um sinal de que os voduns e os orixás estavam comigo, mesmo que no momento eu não pudesse cultuá-los como mereciam, pois se eu tinha sobrevivido era porque havia uma importante missão a cumprir. Ela também era jeje, capturada em Ardra mais de sessenta anos antes, vivendo como liberta havia mais de trinta.

No Daomé, tinha chegado a ser voduno (Voduno ou vodúnsi: nome dado às sacerdotisas jejes no culto de Dãnh-gbi, a Grande Serpente), como a minha avó antes de ser expulsa da corte de Abomé. Disse também que devia conhecer quase todos os voduns que a minha avó conhecia e que poderia até me falar deles, mas não adiantaria muito porque eles eram de África e ainda não estavam assentados no Brasil, tinham ficado por lá. Alguns assentamentos já estavam sendo providenciados, mas aquela não era a minha missão porque, do contrário, eu já teria recebido um sinal.

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Muito menos era a missão dela, que, embora continuasse acreditando neles, na ajuda deles, sabia que não podiam fazer muita coisa por nós. No Brasil, o culto aos orixás era forte demais até para o grande poder que os voduns possuíam. Ela também disse que eu poderia me valer dos orixás para cultuar alguns voduns, porque, na Bahia, Mawu, Khebiosô, Legba, Anyi-ewo, Loko, Hoho, Saponan e Wu eram cultuados como Olorum, Xangô, tlegbá, Oxum, Iroco, Ibêjis, Xaponã e Olokum.

Na Bahia, os orixás já tinham tomado conta das cabeças dos pretos e o culto deles vinha de muito tempo, praticado por quase todos os africanos que, por muitos e muitos anos, iam Parar naquelas terras. Nossos voduns nunca teriam força para ganhar um pouco de espaço ou atenção, e para eles estava destinado um lugar não muito longe dali, do qual, por enquanto, ela nada podia falar.
A Nega Florinda foi embora prometendo me ajudar, primeiro com o pingente da Taiwo, depois com a estátua dos Ibêjis, as maiores urgências. As outras coisas chegariam cada qual a seu tempo, como tinha que ser naquele lugar onde fingíamos cultuar os santos dos brancos.”

de “Nega Florinda”, em Um Defeito de Cor (2006) – Ana Maria Gonçalves

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Ana Maria Gonçalves nasceu em 1970, na cidade Ibiá-MG. Publicitária por formação, residiu em São Paulo por treze anos até se cansar do ritmo intenso da cidade e da profissão. Em viagem à Bahia, encantou-se com a Ilha de Itaparica, onde fixou residência por cinco anos e descobriu sua veia de ficcionista, passando a se dedicar integralmente à literatura. Atualmente, reside em New Orleans, no estado americano da Louisiana.

Em 2002, estreou como escritora com a publicação de Ao lado e à margem do que sentes por mim – “livro terno, íntimo, vivido e escrito em Itaparica”, segundo o depoimento de Millor Fernandes. O livro teve circulação restrita, apesar da primorosa edição artesanal. Mas é em 2006 que a autora se torna conhecida no meio literário com o lançamento de Um defeito de cor, épico de 952 páginas. O romance narra a trajetória de Kehinde, uma escrava nascida no Benin (atual Daomé), desde o instante em que é capturada, aos 8 anos, até seu retorno à África como mulher livre, porém sem o filho, vendido como escravo pelo próprio pai a fim de saldar uma dívida de jogo. O texto dialoga com o modelo pós-moderno da metaficção historiográfica e traz para a narrativa parte da trajetória de vida do poeta Luís Gama, também ele vendido como escravo, embora nascido livre.

Um Defeito de Cor conquistou o importante o Prêmio Casa de Las Américas de 2007 como melhor romance de literatura brasileira.

Ana Maria Gonçalves vem participando de inúmeros eventos literários no Brasil e no exterior. Atualmente, prepara seu novo romance, que aborda o universo das Minas Gerais no tempo da colônia.

Onde Comprar:

http://www.livrariacultura.com.br/p/um-defeito-de-cor-1407629

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