Tempo e o Vento: Arquipélago Vol.2 |A Odisséia Brasileira e o Aceitar das Contradições da Alma Humana #resenha

E chego ao fim da saga gaúcha, a Odisséia Brasileira do Tempo e o Vento, marcado pelas palavras, emocionado pelo poder dramático da saga, impressionado pela maestria literária e pela técnica de Veríssimo. E já com saudade, aquele misto de saudade, aquela saudade feita de alegria e tristeza por ter lido um livro daqueles que marcam a vida da gente.

Nesse volume, que começa no meio da pancadaria da revolução de 23, Érico Veríssimo volta a narrativa de guerra, com descrições de fazer inveja ao Bernard Cornwell. Rodrigo Cambará finalmente tem seu teste de fogo, que ansiava por toda sua vida. As discussões filosóficas da inteligentsia de Santa Fé chegam nos problemas e complexidades das posições de esquerda e de direita, dentro da peculiar realidade brasileira.

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As reflexões sobre a existência ganham um foco ainda maior nesse volume. As passagens de Florisberto, especialmente em suas conversas com Tio Bicho, são as mais filosóficas e cheias de metalinguagem de toda a trilogia, uma espécie de sumário temático, uma confissão pessoal das conclusões de Érico Veríssimo em relação à vida e sua relação com a tarefa do escritor, em seu dilema de tentar representar uma realidade que não é verbal, de usar a artificialidade da linguagem para falar do que não possui essência de linguagem. É como um segundo livro, mais reflexivo e psicológico, bem ao modo dos romances existencialistas que ganhariam popularidade durante a década de 70, dentro de sua narrativa histórica, emotiva, mitológica do Dr. Rodrigo Cambará.

Em uma estrutura que me lembrrou muitas narrativas clássicas, como o clássico do Orson Wells, Cidadão Kane ou o Em Busca do Tempo Perdido de Proust (que preciso reler urgentemente!), a narrativa em Arquipélago se passa por cenas, ou “ilhas”, da vida de Rodrigo Cambará, e de outros personagens coadjuvantes importantes, como seu filho Florisberto. Cada uma dessas narrativas fechadas aborda algum aspecto da psicologia de Rodrigo; seu confronto com a própria mortalidade, perda de entes queridos, a transformação de suas idéias, os altos e baixos de sua carreira política, em um entrelaçamento de correntes narrativas impressionante, perfeição formal de um escritor no auge de suas habilidades. A partir de agora, se alguém me perguntar como pode desenvolver a escrita já vou mandar logo na lata “leia a trilogia O TEMPO E O VENTO, com olhos de escritor e vá tomando aulas com o sábio gaúcho”.

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O final é impressionante, um exemplo de maestria narrativa, um mergulho nas almas de Rodrigo e seu filho Floriano, e uma espécie de redenção pela escrita, uma aceitação final das contradições inevitáveis da existência humana. Me tocou de mais a luta de Floriano para “acabar de nascer”, quem não quer “acabar de nascer”, por mais doloroso que isso seja? Ser livre, verdadeira e completamente livre? Doa o que doer?

Vou carregar essa trilogia para sempre na alma, como o tempo que me persegue e o vento que me rodeia. E um dia, eu juro, ainda quero por os pés nos pampas gaúchos.

Salve Érico Veríssimo! Salve o Rio Grande do Sul! :)
ANOTAÇÕES DE ARQUIPÉLAGO VOL. 2

Técnica narrativa ponto de vista bi ciente no confronto final entre floriano e rodrigo entrando na cabeça dos dois ao mesmo tempo

Floriano – técnicas Narrativas – alternando monólogos interiores com descrições em terceira pessoa

As partes de Floriano são bem Proustianas, bem psicológicas.

Músicas do tempo e o vento – adagio de cordas de chopin, boi barroso, noturnos de chopim, operas la traviata, dom Giovanni, dom quixote

A trilogia inteira foca o ponto de vista da elite, imagino como seria a história do ponto de vista dos caboclos e caboclas, dos carés.

Essa turma guerreira do sul são os vikings brasileiros

Frase : “o Brasil é muito mais forte do que os brasileiros”

Técnica narrativa : recortes de cenas habituais, entrelaçadas, imagens postas lado a lado, como poesia, belíssimo

Stênio: o judeu com uma visão radical e marxista da vida, onde absolutamente tudo é motivado por luta de classes.

Maria Valéria : filosofia espartana sulista

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