Tio Bicho, o Filósofo Existencialista de Santa Fé|Tempo e o Vento: Arquipélago Vol.2, ÉRICO VERÍSSIMO #citações

Uma das  jóias espalhadas em Tempo e o Vento: Arquipélago pelo sábio dos pampas. N.N.

“- Marta! grita Tio Bicho. – Outra cerveja!

A filha do confeiteiro traz nova garrafa. Roque torna a encher o copo e a beber. Depois, limpando com a língua a espuma que lhe ficou nos lábios. diz:

– Queres saber duma coisa? Quando eu dava balanço em minha própria pessoa, levando em conta apenas uma parte da realidade, chegava às conclusões mais pessimistas… Aqui está o Tio Bicho, feio, cabeçudo, cinqüentão… Quem sou eu? Um saco de fezes. Uma bostica de mosca na superfície da Terra. E a Teria? Uma bostica de mosca no Cosmos. Que é o tempinho da minha vida comparado com a Eternidade? Agora eu te pergunto, Floriano Cambará: qual é a conclusão a que se chega ao cabo dum raciocínio como esse? É a de que estamos encurralados, num beco sem saída. O remédio é cruzar os braços abjetamente ou meter uma bala na cabeça.
Floriano olha em silêncio para dentro de seu copo.

– Um dia pensei a sério no suicídio – continua Roque. – E sabes o que aconteceu? Quando compreendi que estava a meu alcance acabar com tudo, passei a ter mais respeito pela vida. A idéia da morte, menino. dá à existência mais realidade. mais solidez. Minha vida daí por diante ganhou como que uma quarta dimensão.

Tio Bicho parte um pedaço de pão, esfrega-o no molho amarelento que ficou no fundo do prato, e mete-o na boca.

– Estava eu numa encruzilhada terrível, nesses namoricos com a morte (no fundo eu sabia que não sairia casamento) quando os meus filósofos de coiss postaux me valeram. Quem me salvou mesmo foi um alemão. Não te direi o nome dele porque é inútil, não o conheces. Vocês romancistas em geral não estão familiarizados com a gente que pensa…

Bebe novo gole de cerveja, estrala os beiços e continua:

– Sim. concluí eu, ao cabo de sérias leituras e cogitações, posso ser uma porcaria e a Big Cadela me espreita, pronta a saltar sobre mim a qualquer instante… Mas acontece “(e é isto que deixa os psicólogos loucos da vida) que há um abismo entre as coisas que são abstratamente verdadeiras e as coisas que são existencialmente reais. Ora, acontece que, queira ou não queira, eu existo nesta hora e neste lugar. Que fazer então com a minha vida? Por que não opor à minha insignificância na ordem universal, à minha mortalidade, à minha impotência diante do Desconhecido uma espécie de.”. . de atitude arrogante … erguer meu penacho e lançar um desafio meio desesperado a isso a que convencionamos chamar Destino? A vida não tem sentido… mas vamos fazer de conta que tem. E daí? Bom, aí eu transformo minha necessidade em fonte de liberação e passo a ser, eu mesmo, a minha existência, a minha verdade e a minha liberdade.

Floriano encara o amigo.

– Mas essa idéia de que somos livres e os únicos responsáveis por nossa vida e destino não será uma fonte permanente de angústia?

– Claro que é.

– E não é a angústia o nosso grande problema?

– Homem, há um tipo de angústia do qual jamais nos livraremos, porque ele é inerente à nossa existência. É o preço que pagamos por nos darmos o luxo caríssimo de ter uma consciência, por sabermos que vamos morrer, e por termos um futuro. Assim sendo, o mais sábio é a gente habituar-se a uma coexistência pacífica com esse tipo de ansiedade existencial, fazendo o possível para que ele não tome nunca um caráter neurótico.

Quica Ventura levanta-se bruscamente, quase derribando uma cadeira, atira uma cédula em cima da mesa e sai do café pisando duro, sem se despedir de ninguém, seguido do perdigueiro sonolento. O soldado faz um sinal para Marta e pergunta-lhe: “Quanto le devo, moça?

– E tu achas que essa atitude é uma solução? – murmura Floriano, ao cabo dum curto silêncio.

Roque enfia o chapéu na cabeça e responde:

– Que solução? Não há solução. Como disse um desses herdamerdas europeus, estamos condenados a ser heróis.

Mete as mãos nos bolsos, vasculha-os e depois anuncia:

– Vais ter que pagar a despesa. Estou sem um vintém.”

in Tempo e o Vento: Arquipélago Vol.2, ÉRICO VERÍSSIMO

O Tempo e o Vento (1986) por Glauco Rodrigues
O Tempo e o Vento (1986) por Glauco Rodrigues

2 comentários em “Tio Bicho, o Filósofo Existencialista de Santa Fé|Tempo e o Vento: Arquipélago Vol.2, ÉRICO VERÍSSIMO #citações

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