O Tempo e o Vento Vol.2 : O Retrato – ÉRICO VERÍSSIMO | Reflexões do horror do século XX pelo sábio de Porto Alegre

Olha que prosa maravilhosa! :D

“Começou a andar lentamente rumo do portão do cemitério. Havia pouco, num artigo que não chegara a publicar e nem mesmo a terminar, esboçara um paralelo entre o horror antigo e o horror moderno. O antigo era o das histórias que a velha Laurinda costumava contar em torno de casas assombradas, cemitérios noturnos, bruxas e almas do outro mundo. Era também o horror gótico dos contos de Poe, Hoffmann e Villiers de l’Isle-Adam: o coração humano a pulsar de medo em face da Morte e do Desconhecido. O horror moderno era o pavor da Vida e do Conhecido, o horror social causado pela violência e crueldade do homem contra o homem.

Depois da Primeira Guerra Mundial o medo da fome, do desemprego, da miséria e o medo do próprio medo haviam preparado o caminho para o Estado Totalitário. Este por sua vez industrializara e racionalizara o medo a fim de fortalecer-se, sobreviver e ampliar suas conquistas geográficas e psicológicas. Com a colaboração da ciência, da arte e da literatura convenientemente dirigidas, criara o Horror Moderno, cujos aspectos mais dramáticos eram o mito do Estado e do Líder; os ministérios de propaganda; a polícia secreta com seus refinados métodos de tortura; a militarização da infância e da juventude; os campos de concentração; as tropas de assalto; o orgulho racial; a exaltação fanática do nacionalismo e a glorificação da guerra como o esporte dos povos másculos. O Estado Totalitário elevara a delação à categoria de virtude cívica. Seu mais monstruoso feito, porém — e essa proeza ultrapassava o sonho mais alucinante dos alquimistas da Antiguidade —, fora o de transformar a pessoa humana num mero número, o que tornara possível encarar o massacre de milhões de homens e mulheres como uma simples operação de aritmética elementar. O Deus Estado subvertera os Mandamentos: “Denuncia teu pai e tua mãe se eles murmurarem o que quer que seja contra o Estado”. “Matarás com alegria sempre que isso for necessário aos interesses do Partido.” “Darás falso testemunho contra teu próximo, se essa mentira puder ser útil à Causa.”

O pior de tudo é que o Horror Moderno, sob seus múltiplos e sedutores disfarces, exercia poderoso fascínio sobre a juventude. “Deixai vir a mim os pequeninos”, dizia o Chefe, “que eu os transformarei em robôs para servirem o Estado.” O Horror Moderno oferecia aos jovens máquinas e armas vertiginosas e mortíferas. Era um belo horror de formas aerodinâmicas que lhes proporcionava uniformes, bandeiras, hinos, tambores, clarins, paradas — um horror organizado, eficiente, metálico, mecânico, simétrico e rítmico. Preconizava os métodos e a moral do gângster, glorificava a violência, libertava, enfim, o animal de presa que dorme no fundo de cada menino. Oferecia aos moços um Pai na figura do Führer, do Duce, do Líder e, se por um lado exigia deles uma disciplina de aço e uma obediência cega, por outro, sempre que lhes dava a oportunidade de usar as máquinas e as armas em competições esportivas, expurgos, pogroms, torturas e expedições punitivas, propiciava-lhes como prêmio a suprema volúpia de se sentirem temidos e de se afirmarem por meio da brutalidade e da destruição. Ninguém simbolizara melhor os efeitos do Horror Moderno no espírito da juventude do que Vittorio Mussolini ao afirmar que para ele a coisa mais bela do mundo era ver abrirem-se como rosas de fogo as bombas que de seu avião deixava cair em solo africano, reduzindo os abissínios a pedaços.” | O Tempo e o Vento Vol.2 : O Retrato – ÉRICO VERÍSSIMO

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