Resenha: Perdido Street Station, de China Miéville – Uma Odisséia Vaporpunk Alucinante! #nitroblog

“Você tem que ler o China Miéville, Nitro, você TEM QUE LER!”. Véio, para todos os lados da Internerd que eu fuçava, atrás de dicas de fantasia contemporânea doidimais, esse nome se repetia como um mantra alucinado na boca de um cultista insano de Cthulhu. Com todos os monstros sagrados da literatura nerd repetindo a mesma coisa, com Neil Gaiman, Clive Barker, e trocentos outros falando que o carequinha (o China raspa o cabelo, o cara é bem estilão punk-véio, com piercings, malhado e com cara de durão) é foda e coisa e tal, eu acabei tacando ele na minha lista eternamente crescente de leitura.

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Resolvi pular o romance de estréia King Rat , que é mais uma história sobrenatural contemporânea em Londres e partir logo para a piração total que é a trilogia Bas-Lag, a série de três livros que se passa em mundo ultra-bizarraço (e coloca duas toneladas de bizarro nisso) que tem a maior coleção de gêneros literários que terminam em PUNK que eu já vi. Bas-Lag, o nome do mundo mistureba, é STEAM-PUNK, BIO-PUNK, MAGIA-PUNK, NOIR-PUNK e quase DIESELPUNK,e, não conta para ninguém, bem CYBER-PUNK se você considerar que o CYBER aqui é analógico, véééééio! Analógico!

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O maior mistério que me instigou a ler o Perdido foi saber como é que, com tanta mistureba, o China conseguiu criar uma história coesa, como ele conseguiu reunir tanta coisa em um único romance (um tijolaço de 800 páginas, pesou até no meu Kindle) e ainda assim contar uma história com pé e cabeça. Sim, porque ele foi bem sucedido, Perdido Street Station foi nomeada para o prêmio Nebula e Hugo de melhor romance de 2002 ( esses são os oscars da Fantasia e da Ficção Científica). O livro também ganhou o prêmio August Derleth da British Fantasy o prêmio Arthur C. Clarke, Premio Ignotus Award in 2002; em outras palavras, o livro é uma Meryl Streep em forma de literatura especulativa. Como prêmios nunca são garantia de nada, fui ver qualé a da mistureba do Miélville, e tomei uma tijolada de criatividade e literatura de alta qualidade na cara, uma tijolada tão forte que tô tonto até agora!

Vou tentar fazer um resumão rápido sem dar spoilers, para não estragar a viagem halucinatória pela melagópolis steampunk de Nova Corbuzon. Perdido tem uma legião de fãs pela internet, como se pode ver pela fan art que coloquei nesse artigo, todas vindas do Deviant Art. É só pelas imagens, TODAS DO MESMO CENÁRIO, dá para sacar a bizarrice da coisa (já é a décima vez que escrevo a palavra bizarro e seus derivados nesse post, hahahahaha!).

Isaac Dan der Grimnebulin, (noime doidimais!) um dos trocentos protagonistas da história, mas que serve como um atrator caótico para a trama é um cientísta excêntrico morando na cidade de Nova Crobuzon (massa demais esse nome, aliás, o China tem muito a manha em criar nomes estranhos e familiares ao mesmo tempo, deve ter jogado muito, mas muito RPG em sua adolescência em Manchester, a mesma terra do Joy Division, cujo som post-punk doidimais sombrio tum-tum-tum serve muito bem como trilha para Perdido Street Station).

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O Isaac, que é praticamente um nerd véio, um pesquisador de meia idade e gordinho (bondade minha, ele é gordo mesmo!) expulso da universidade de Nova Crobuzon por causa das suas teorias malucas, tem uma namorada chamada Lin que é um Khepri, a primeira de trocentas raças piradaças que povoam o mundo doidera de Bas-Lag. E o que é um Khepri? Véio, os Khepris são uma raça bizarríssima, onde as fêmeas possuem corpos femininos humanos e cabeças que são um escaravelho completo, com patas,casco, asinhas (que servem como orgãos eróticos quando fazem sexo, sim, tem cenas de sexo entre-espécies, no livro!) e tudo o mais para dar aquele toque de estranheza no leitor. Já os machos dos Kephris são escaravelhos gigantes com pouca consciência, quase animais, e que só se relacionam com as fêmeas para cruzarem, o que faz dos Khepri uma raça de cultura completamente feminina.

A história começa bem de leve, com Lin, que é uma artista plástica especializada em esculturas feitas com a gosma que todos os Khepris soltam de suas mandíbulas (e que se solidifica e que eles usam para criar suas casas) recebe a missão de de criar uma estátua do chefão do crime de New Crobuzon, um monstrengo estilo Jaba-the-hut com o corpo feito de partes, membros, cabeças, e olhos de cada uma das infinitas raças que habitam a cidade. Já Isaac, que está imerso em sua pesquisa da Crisis Engine, um sistema que mistura magia e as leis da ciência para criar um sistema de moto-continuo, recebe a visita de Yagharek, um Garuda (uma raça de um povo estilo guerreiros-do-deserto, composta por humanóides alados com características de aves de rapina) que busca o pesquisador obeso para restaurar sua capacidade de voar.

Essa é a Lin, e eu me apaixonei por ela! :)
Essa é a Lin, e eu me apaixonei por ela! :)

Os dois se envolvem em uma trama que mistura tráfico de drogas feitas de sonhos, alguns dos monstros mais assustadores que já vi na literatura, inteligências artificiais movidas a vapor, gangues de homens cactus hiperviolentos, grupos de aventureiros mercenários quase psicopatas, politicagem com níveis de corrupção e sordidez quase no nível brasileiro (falo quase porque, véio, o nosso país tem a manha quando o tema é corrupção, nussa sinhura!), e muitas cenas de ação e pancadaria massavéio doidimais!

Mais uma Lin!
Mais uma Lin!

China cria uma aventura vapor-punk-sobrenatural-noir, cheia de horror, perseguições, conspirações, traições, reviravoltas, usando as tramas para construir e descrever a complexa realidade da cidade-estado de Nova Crobuzon. Que é, na verdade, o protagonista principal do romance. Só para ter uma idéia de como tanto Nova Crobuzon quanto o mundo de Bas-lag é detalhado e bizarro, dê uma olhada na entrada de Bas-Lag na Wikipedia!

Mapa da Nova Crobuzon

Nova Crobuzon (não quero nem imagina o que foi a Velha Crobuzon!) é uma metrópolis em expansão, apesar de decadente e com partes caindo aos pedaços, povoada principalmente por humanos e por uma mistureba bizarra de outras raças sentientes e dos Refeitos, os criminosos e vítimas do sistema, condenados a terem seus corpos alterados em um misto de engenharia genética feita por magia (bem horrendo, pessoas com membros de cachorros, cabeça de animais, braços extras, etc. misturada com membros artificiais de tecnologia vaporpunk (pistões, bronze, cobre, etc.). Tudo para explorar o tema da natureza e do significado da consciência, da sentiência e da racionalidade, e de como a experiência contemporânea do real é framentada pelo reconhecimento da infinidade de pontos de vista diferentes, todos legítimos. Fantasia pós-moderna que encheria de orgulho o Tio Phillip K. Dick! :D

Grande parte das oitocentas páginas é gasta na familiarização do leitor com esse pesadelo vaporpunk de inspiração vitoriana (Charles Dickens no ácido!), descrevendo com maestria seus numerosos bairros, espécies, culturas. E ele narra muito bem o cotidiano, como quando descreve a milícia do governo opressor da cidade massacrar uma greve de um povo-anfíbio, como os Deep Ones do Tio Lovecraft, que são trabalhadores das docas e que usam sua habilidade de moldar a água para cooordenar as centenas de barcos e navios que chegam na cidade. E para ter uma idéia da imaginação do China, nessa cena, que se passa em paralelo as várias tramas do romance, a milícia chega em zepelins e usam águas-vivas gigantescas como armas contra os grevistas! E isso não é nada comparado com o que te aguarda espalhado pelas páginas de Perdido Street Station.

Algumas das trocentas raças de Bas-Lag
Algumas das trocentas raças de Bas-Lag

Tanto esforço descritivo poderia ficar muito pesado, muito “infodump” (blocos de informação despejada no leitor sem estar bem integrada com a trama), mas aí vem o segredo do China, o lance é caprichar na prosa, ter uma prosa tão bem feita, tão poética e ao mesmo tempo clara, bem escrita, com ritmo, com voz, com equilíbrio entre simplicidade e complexidade, que dá prazer de ler. É a regrinha básica dos “infodumps”, quando eles aparecem, misture bem dentro da trama, dentro do drama da narrativa e capriche na escrita, porque sem a ação das cenas dramáticas o leitor vai ficar em cima do modo como as descrições serão narradas.

À medida que lia Perdido Street Station, a Nova Crobuzon surgia completamente cinematográfica e real na minha mente, um visual apocalíptico meio Blade Runner, meio o visual do filme Ladrão dos Sonhos (fantásicos, assistam que não viu esse filme francês), meio filme Brazil do Terry GIllian, um conglomerado de arquiteturas de ruínas misturadas com prédios de concreto gigantescos, interligados por pontes, entre outros de arquitetura mais orgânica e alienígena, com um infinito de trilhas de trem suspensas que entrelaçam a cidade em uma teia de aço e que se confluem na infame Estação Perdido. A cidade é um personagem vivo da narrativa, tão vivo quanto o elenco variado (e põe variado nisso) do livro. Além da trama que é muito boa, o livro serve como a introdução a um universo repleto de possibilidades.

Perdido Street Station ao vivo e à cores!
Perdido Street Station ao vivo e à cores!

Ou seja, é a criação dos sonhos de um mestre de RPG que tem MUITO a manha de literatura.

O China cria algo novo a partir de um caldeirão de influências impressionante (e que compõe a minha lista de autores favoritos). Lovecraft para todos os lados, Moorcock, a sexualidade bizarra do Clive Barker, os toques góticos e a prosa poética de um Mervin Peake, a sensibilidade e a crítica social herdeira de Dickens, pirações a lá Borges e Ítalo Calvino , camadas e mais camas de texturas urbanas reminiscentes de um William Gibson (técnica que veio do fodásico William S. Burroughs, que também é uma influência no livro, principalmente na criação visual dos Khepri, ressoando os escaravelhos falantes do Naked Lunch), paranóia Kafkiana, Ballard para todos os lados, etc. E tudo amarrado com um trabalho de linguagem e uma sensibilidade do pulp de qualidade de um Robert H. Howard.

Mais uma Lin com o Yagharek!
Mais uma Lin com o Yagharek!

Além disso tudo, o disgramado ainda cria personagens realistas, sejam eles com cabeça de escaravelho, homens-pássaros, aranhas interdimensionais imortais e de inteligência a milhares de anos luz da humanidade, etc., bem trabalhados e interessantes.

Bem já viu que eu gostei pra caralho desse livro. Não só gostei, recomendo para todos os que ralam na escrita de especulação; é uma aula de criação de mundo e uma terapia para arrancar as merdas de limites que impomos na nossa criatividade. Véio, o cara criou uma raça de homens cactus super-doidimais, com cultura própria, religião, etc! E ficou bom pra caralho! :)

Mais um livro de leitura obrigatória para fãs de literatura nerd. Perdido Street Station será publicado no Brasil nesse ano, pela editora Boitempo, que já lançou outro livro do autor, A Cidade & A Cidade que você pode se informar aqui. O tradutor é o Fábio Fernandes, que escreveu um post muito informativo sobre o China Miéville, que se não fizer você ficar a fim de ler tudo do cara, nada mais fará! :)

Ufa! Como enrolei para fazer essa resenha. Já estou no meio da leitura do The Buried Giant, do Kazuo Ishiguro, que passei na frente da minha leitura do primeiro volume de O Tempo e o Vento do Érico Veríssimo por que fiquei curioso em como um autor tão badalado no mundo a chamada “alta literatura” abordou os temas clássicos da literatura de fantasia. Kazuo é o autor de vários romances aclamados pela crítica, o mais famoso deles é o Remains of the Day _ que virou o filme Vestígios do Dia com o Anthony Hopkins e a Emma Thompson, que também é muito bom.

Terminando o primeiro volume do O Tempo e o Vento, volto para a Bas-Lag do China Miéville com The Scar, o segundo volume da trilogia (e que parece ser uma história de piratas dentro desse universo bizarroso!).

E é isso aí, e vamos ler porque ler é doidimais!

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ANOTAÇÕES FEITAS DURANTE A LEITURA:

Vocabulário mais denso, mas sem pesar a prosa.

Descrição de pontos de vistas alienígenas, diferentes dos humanos, bem feitas.

História começa pequena e vai crescendo.

Mensagem de Tolerância interracial, de tolerância sexual, de diversidade

Mensagem de diversidade

Discurso indireto, pensamentos indicados por marcadores

Casal protagonista de arte e ciência

O terceiro é das terras selvagens

Começando uma cena, entrando em flashback e encerrando a cena no flashback

Força do texto, como é viver a realidade como um Kepri

Descrições feitas com listas de palavras, como poemas, uma técnica poética

Um circo dentro de outro circo, o circo do bizarro, e o próprio livro é um circo do bizarro.

Começar uma cena com a leitura de um jornal

Usar memórias para desenvolver personagens e construir mundos.

Mergulhos nas almas dos personagens.

Personagens diferentes mas se se sentem reais, que passam realidade psicológica para o leitor.

Temas de diversidade cultural, sexual, o ponto de vista da minoria.

A dança dos pontos de vista.

Amoralidade e a complexidade de uma sociedade em um pesadelo industrial.

Abordagem complexa das questões morais e éticas, personagens egoístas forçados a agirem além de seus desejos mesquinhos.

Tom trágico nas narrativas, China não faz “fan service”, não segue a trama onde o leitor quer que ela siga. Ele é bem cruel com o leitor, gostei!

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2 comentários

  1. Comecei a ler agora no Kindle e vi que tem 800 páginas. Procurei uma resenha no google pra tentar explicar o livro pra minha esposa e caí aqui, no grande Nitroblog. Já vi que acertei em cheio, já que suas recomendações nunca falham. Doidimais!

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