Romance de 1992, “Romance Negro e outras histórias'” contém sete contos que envolvem investigações, mistérios, e muitos protagonistas escritores. É bem metanarrativo e com tiradas pósmoderninhas, como diz o meu amado orientador-guru Julio Jeha. O Rubão usou nesse livro muitos recursos formais posmoderninhos principalmente no melhor conto do livro “O Romance Negro”, que se tornou um dos meus contos favoritos do véio doido do Leblon.

Nesse conto detetivesco, o Rubão usa a estrutura do gênero do mistério para criar uma trama de morte do sujeito (mais pós-moderno impossível), ao mesmo tempo que lança torpedos contra a literatura mistério americana, inglesa e a francesa (que não existe, segundo o protagonista de Romance Negro), misturando referências literárias a Edgar Allan Poe, ao mito de Édipo, quanto a obras mais populares da literatura de crime (como Agatha Christie).

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É uma narrativa cruel como as outras do livro, questionando, como é de praxe do Rubão, os valores humanistas liberais do mundo moderno. Os personagens de Fonseca incomodam por parecerem tão cruéis, mas ao mesmo tempo tão humanos e tão honestos em relação aos seus desejos e necessidades. É como denunciassem a hipocrisia dos “homens e mulheres de bem”, como se dissessem “hei, vocês também querem o que nós queremos, mas não tem coragem de assumir o lado mais frio, cruel e mesquinho de suas psicologias”. É por isso que as histórias do Rubão são tão fodas, por trás da superfície narrativa, muitas vezes enganosamente simples, existe uma filosofia, um projeto literário, um desejo de rasgar o véu hipócrita da sociedade, de revelar o lado mais cru, mais sombrio, mais primal do homem.

“Romance Negro” é um daqueles textos que merecem ser relidos e analisados. Tem muita coisa empacotada ali, ironia (o nome Winner de um dos personagens representa o oposto do que acontece), paródia tanto de narrativas de mistério quanto de metanarrativas (um discurso que se vira para si mesmo, questionando a forma da produção da narrativa. ), pastiche e outras posmordernices. O Rubão até colocou na narrativa oscilação entre um conto fantástico (mais para o lado da loucura) e uma narrativa policial, foda, foda, foda!

Kafka, a bíblia do Rubão!
Kafka, a bíblia do Rubão!

Os demais contos são muito bons também, como a versão carioca “flaneur” Baudelariano (como Fonseca adora Baudelaire, véio!) em um estilo interessante meio conto/meio crônica (bem tipo pizza meio-a-meio) “A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro”.

Mais que recomendado! :)

CONTOS E ANOTAÇÕES DURANTE A LEITURA DO “ROMANCE NEGRO E OUTRAS HISTÓRIAS”

A Arte de Andar Nas ruas do Rio de Janeiro
Um escritor andando pelo Rio, uma prostituta que quer aprender a ler, um pastor em busca de um pacto com o diabo e muitos mendigos.

O protagonista é um flaneur no Rio. Fixação com o que é rejeitado pelos ricos, indo aos rejeitos sociais e históricos.

Narrativa em terceira pessoa próxima, mais discurso indireto do que direto, intercalando memórias com descrições do que encontra.

Temas dos vermes, ratos, insetos da cidade.

O conto mapeia o Rio, como uma versão tupiniquim da viagem sentimental de Laurence Sterne.

Conto narrado tempo presente, criando imediatismo.

Descrição do cotidiano de uma família de mendigos e as tensões raciais nas ruas do Rio.

Conto as vezes caindo em um discurso indireto de terceira pessoa omnisciente, naturalista mas sem julgamento moral. A caracterização dos mendigos foi ótima.

Labaredas das Trevas
A inveja de um escritor inglês em relação ao seu rival, análoga à história de Amadeus. O autor invejado é Stephen Crane, gostei porque descobri esse cara, Rubão dá ótimas dicas de leitura.

Olhar
Um olhar pode mudar a vida de um homem? Este conto responde a essa pergunta. Mais um escritor protagonista. Um conto sobre um escritor e suas trutas, e sua relação com a comida. Degeneração mental erudita.

A Santa de Schoneberg
Uma mulher voyeur que observa um homem de longe, que se desenvolve em uma narrativa labiríntica em Budapeste.

Diálogos à três. O ponto de vista narrativo muda, e as vezes entra em omnisciente.

É mais um conto sobre o olhar, com a obsessão do protagonista com um quadro e depois com uma carta.

Trama completamente imprevisível.

O Livro de Panegiricos
Um enfermeiro com motivos misteriosos cuida com frieza de um velho rico e agonizante. Existencialista e supreende com um rasgo de reflexão sobre o vazio da vida baseada em aparências.

Em “O Livro de Panegíricos” temos a volta do protagonista do conto “A Matéria do Sonho”, do livro Lúcia McCartney. É uma narrativa de desencanto e, estranhamente (para a obra de Fonseca) de aceitação.

A Recusa dos Carniceiros
Um conto que se passa no Brasil de 1830, narrando as discussões que levaram ao fim da pena de morte no nosso país.

Romance negro
Para mim, um dos melhores, se não o melhor conto de Rubem Fonseca. Mas sou suspeito porque o conto foi feito para mim, que tenho paixão por literatura de crime, pelos autores citados, e porque também sofro com a criação literária, sangrando no altar da página branca para tentar criar algo que preste para meus leitores. :)

Um escritor que esconde um mistério em sua vida, participa de uma discussão sobre o romance noir, o romance negro ou romance de crime. Bem metanarrativo, um conto de crime discutindo a literatura de crime. Fantástico.

E faz referência à um conto antigo do Feliz Ano Novo, mas não vou falar para manter o mistério.

Meu conto favorito do Fonseca, bem metanarrativo, intrincado, cheio de reviravoltas. E com comentários sobre a arte da escrita e reflexões sobre o Romance Negro, o Noir, as histórias de detetive.

CITAÇÕES DOIDIMAIS DO ROMANCE NEGRO, DE RUBEM FONSECA

“Toda literatura, vista de uma determinada perspectiva, pode ser considerada “de evasão”. Diferente, porém, da evasão sedativa ou alienante da música. Escritores e leitores, por saberem que não são eternos, evadem-se, nietzschianamente, da morte.

Quando se lê ficção ou poesia está-se fugindo dos estreitos limites da realidade dos sentidos para uma outra, a que já disseram ser a única realidade existente, a realidade da imaginação.

Vem à mente de Landers a história de um idiota que percorria todos os dias as ruas de uma aldeia de pescadores gritando “eu vi a sereia, eu vi a sereia!” e que um dia viu realmente a sereia e ficou mudo. O poeta é como esse bobo da aldeia? Se o confronto com a realidade ofuscar sua imaginação ele também ficará mudo?

Landers imagina Baudelaire, o grande sifilítico, vagando moribundo pelos bordéis de Bruxelas; Poe morrendo de delirium tremens em Baltimore.
Eles sabiam que as palavras eram suas inimigas.”

Rubem Fonseca – Romance Negro e Outras Histórias – “Romance Negro”

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