Resenha: Watchmen, de Alan Moore – Ressonância, Observações e a Violência Moral dos Super Heróis! #nitroblog

De tempos em tempos gosto de reler obras que me impactaram. E nenhuma saga de quadrinhos me impactou mais do que Watchmen. O trem de doido meu! :)

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Para quem for ler o texto abaixo, essa não é uma resenha, é mais uma zona, uma bagunça, uma mistureba de pensamentos e observações dessa obra prima dos quadrinhos.  Mas se alguém quiser uma resenha, lá vai: é FODÁSICO, LEIA AGORA, PARA TUDO E LEIA AGORA, Pronto.

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Para quem não conhece os quadrinhos e apenas assistiu o filme, bem, faço o apelo para a leitura. Apesar de ter gostado do filme, não achei que a história se traduziu bem para a mídia do cinema. E as alterações feitas no roteiro, por causa da diferença das mídias, tiraram muito das diversas camadas de significação da série de Moore e Gibbons. Assim, a dica é LEIA OS QUADRINHOS. Se você gostou do filme, vai gostar muito mais dos quadrinhos; e se achou o filme fraco, eu garanto que os quadrinhos irão te surpreender com a profundidade dos temas abordados (além de que a trama principal , o mistério por trás das mortes dos super heróis, nos quadrinhos é muito mais “explodidora de cabeças” do que a do filme.

Nessa minha releitura, a primeira depois de muitos anos, a primeira coisa que chama a atenção é como todos os personagens são falhos, possuem deficiências psicológicas e fraquezas morais evidentes. É uma desconstrução dos personagens puros e simpáticos do passado., que representavam o que os leitores gostariam de ser. Alan Moore detona com essa estrutura, revelando a violência moral dos super-heróis, mostrando-os como seres que impõe seus próprios códigos morais na sociedade, sem questionar a coerência desses códigos morais ou se a sociedade aceitará de maneira submissa essa imposição.

Watchmen questiona o propósito e a história dos gênero de super heróis, como eles são compreendidos pelos leitores de quadrinhos, e o que significa, filosoficamente, o papel tradicionalmente exercido pelos super-heróis. É uma sátira subversiva, cheia de alusões, feita em muitas camadas de significados. Ao mesmo tempo que sintetiza e comenta sobre o gênero de super-heróis, a obra testa e amplia os limites da narrativa heróica.

Os super-heróis de Moore, em Watchmen, vêem o mundo de cima para baixo, vêem a sociedade como inferiores, como vitimas de forças que não conseguem conter, e esse ponto de vista acaba degenerando suas próprias moralidades. E com as mesmas falhas que todos nós temos, seus personagens se tornam instáveis. E essa instabilidade cria o realismo psicológico que se sente ao ler.

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E isso é lendo Watchmen hoje, quando li, ainda adolescente e acostumado com os quadrinhos da Marvel e da DC da época, que apesar de estarem em evolução, o impacto dessa narrativa foi tremendo em minha vida. Pela primeira vez li quadrinhos com a mesma profundidade psicológica dos romances clássicos da literatura universal (que lia um atrás do outro daquela coleção de livros vermelhos que a Editora Abril lançou nos anos 80).

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Outra coisa que observei, nessa releitura feita do alto dos meus quarenta e três anos, é a mudança da minha visão do Rorschach. Quando li pela primeira vez, nos anos 80, Rorschach era o meu herói favorito, eu até achava que era o herói principal da história, com um arco trágico. Hoje vejo que o personagem é uma crítica de Moore à clássica “fantasia de poder”, impondo violentamente sua moralidade peculiar e pervertida no mundo ao seu redor. Mas, diferente do Batman (que segue a mesma linha), as falhas evidentes de Rorschach ( sua infância violenta, seus acessos de fúria, sua misoginia, e sua visão sem sutileza da realidade, simbolizada pela máscara preto-e-branca que veste, a máscara que é sua face) revelam o seu fascismo, sua postura autoritária e intolerante frente ao que não se encaixa em sua visão de mundo (ele frequentemente mata os que considera culpados).

Ele nunca questiona suas próprias ações, ele nunca duvida se suas vítimas são realmente culpadas ou inocentes, nem de onde vem o direito de tirar suas vidas, reagindo com sociopatia e violência contra uma sociedade que rejeita suas idéias. Rorschach satiriza a narrativa básica dos super-heróis, de que uma vez que você denomina alguém como sendo um vilão, um inimigo, o mal, isso lhe dá o direito de espancar esse alguém. Essa sátira ressoa por toda a série, com diversas variações dessa crítica se espalhando pelos demais personagens.

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Ressonância foi o aspecto que mais me impressionou nessa releitura. Ressonância, para quem não tem familiariade com esse conceito literário, é a repetição de temas, frases, símbolos, analogias, alusões, e as interligações entre diversos elementos de uma narrativa. É uma técnica muito efetiva para aumentar o que chamamos de “valor literário” de uma obra, e mergulhando o leitor no mar de símbolos da narrativa, mesmo que ele não tenha consciência da técnica.

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Em termos de ressonância, Watchmen é uma aula dada por um mestre da técnica. Tudo na narrativa está interligado, repetindo temas, símbolos, referências, as diversas narrativas dialogando entre si, oferecendo variações dos mesmos temas, pontos de vistas diferentes mas análogos. Nas anotações que fiz dessa releitura, o que mais apareceu foi essas ressonâncias. E se eu já idolatrava o Moore antes, agora eu tenho medo da inteligência do cara, véééi! :)

Retornando a minha observação sobre Rorschach, os demais personagens apresentam outros aspectos dessa crítica à imposição forçada de moralidade na sociedade, tão característica do arquétipo do super-herói. A idéia de subjulgar o outro pelo bem do outro é abordada de várias formas, seja nos planos megalomaníacos do Ozymadias, na vida violenta e amoral do Comediante, na ingenuidade dos Minutemen, etc. E, ironicamente, o Dr. Manhattan, que seria capaz de realmente subjulgar toda a raça humana e leva-la a uma utopia, escolhe não interferir, por se considerar distante dos problemas humanos, que para ele são tão importantes quanto uma colônia de bactérias (mesmo com a pequena mudança de opinião no final da saga, o Dr. Manhattan decide abandonar não só a humanidade quanto o nosso universo.

Voltando à ressonância (veja como um comentariozinho besta sobre Watchmen vai ficando complicado como a série, hahahaha), Watchmen é uma obra que, como os melhores livros que já li, busca nos levar em uma jornada pela condição humana, nos conectar com o mundo real, com a complexidade dos dilemas humanos.

E para o meu horror, cheguei a conclusão de que, a visão de mundo exposta por Moore em Watchmen é devastadoramente amoral. Dentro dessa discussão de imposição de moralidade pelos super-heróis, o personagem que realmente compreende a natureza da moralidade humana, de que toda moralidade é imposta. Para o Comediante, a humanidade é violenta em sua natureza, e está condenada a repetir atos de violência. Todo o resto é uma imposição temporária de comportamento civilizado, a moralidade é um construto social maleável e sujeito à vontade dos mais poderosos. E o final, sem revelar muito para quem ainda não conhece a narrativa, reforça a idéia de que qualquer utopia fracassará, não por causa de alguma individualidade do espírito humano, mas por causa dos nossos instinos animais, que sempre ressurgirão e arrebentarão as correntes da moralidade.

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Rubem Fonseca aprovaria! :)

PRÓXIMA LEITURA DE QUADRINHOS
Embalado nessa releitura, comecei a reler AKIRA, outra obra prima da minha geração (me considero uma cria dos anos 80), onde tentarei descobrir os segredos de Katsushiro Otomo sensei! :) E vamos ler quadrinhos porque quadrinhos é doidimais vééééi! ;)

ANOTAÇÕES DA LEITURA DE WATCHMEN (PODE TER SPOILERS!)

Seguem algumas anotações que fiz durante a leitura, com técnicas narrativas, observações, todas bem desorganizadas, hahahahaha!

Cada personagem possui uma marca, os tema egípcios e os triângulos do Ozymandias, os cachorros do Rorschach, o smiley do comediante, os relógios do Dr. Manhattan, etc.

Pergunta, quem é o sobrevivente em cima do barco, no quadrinho de piratas? Será o Ozymadias, que cria una balsa com cadáveres (o seu plano para salvar o mundo? Será Rorschach, sozinho, delirante em sua visão preto-e-branco da sociedade? Será o Comediante, enlouquecido por suas descobertas?

Normalmente Alan estrutura um Ponto de Vista Narrativo por página, sempre com o final concluindo a mini narrativa ou cena.

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Estilo descrição por listas, ficou popular com Walt Whitman nos Eua e é muito usado na literatura, frases descritivas empilhadas umas atras das outras.

Rorschach pode também ser o sobrevivente dos quadrinhos de pirata, é em sua edição que se cria um paralelismo das duas narrativas. Rorsarch em uma espécie de jornada de vingança contra o mundo, o mundo sendo o pirata barba negra.

No quadrinho o sobrevivente ele sobrevive comendo raw shark – tubarão cru, que é análogo a Rorschach, e o detetive que captura o Rorschach explicita essa ligação. Nota feita ao ler a obra no original em inglês.

Max Shea o escritor é um análogo, um duplo do Alan Moore.

No momento exato do meio da serie, no volume 6, o é dedicado ao Rorschach que é um personagem marcado por uma mancha simétrica, criando ressonância com a divisão da série em duas partes iguais.

Metáfora de cachorros rodeando o Rorschach ele compara a cidade a um cão raivoso.

Cada quadrinhos usa imagens para reforçar o texto com imagens (como a máscara de gorila na cena de estupro da Sally Júpiter) ou contradizendo texto criando ironia como crítica social.

Ressonância : O texto é cheio de ressonância, imagens e sequencias se repetem criando paralelismo. Exemplo, o espancamento feito pelo Hodded Justice no Comediante tem paralelo visual com o espancamento feito pelo Ozymadias na morte do Comediante.

Diferentes registros: A linguagem dos personagens se diferenciam ajudando na caracterização. Cada quadrinho é aproveitado ao máximo para caracterizar, avançar a trama e criar textura, criar o cenário e o mundo e recorçar o tema.

Cada página tem uma estrutura fechada, como uma mini narrativa a encerrando com um gancho. Estrutura elíptica, repetindo os símbolos principais de cada edição. É uma estrutura narrativa de espirais.

Tudo interligado, como os mecanismos de um relógio. Dr. Manhattan sobre o monte Nodus Gordii, o nó gordio do Ozymadias, a solução do nó gordio, o universo como um relógio sem o criador do relógio (Alan e David são os Watchmakers desse universo).

Capítulo 5 do Rorschach, tem na capa os dois erres com um X de ossos embaixo, ligando Rorschach com cachorros, que faz parte das metáforas ligadas à ele, o X, um V (cinco) em cima de outro V (cinco) dos algarismos romanos. Além de ligar o V com o V de vingança, um personagem mais ou menos análogo a Rorschach em sua sociopatia e desejo de vingança contra a sociedade.

Coisa medonha! No centro , no meio exato do Capítulo 5 – V em número romanos, onde o Veidt (mais um V) bate no assassino que ele mesmo contratou para matá-lo, tem um ENORME V NO CENTRO DA PÁGINA. Medo, muito medo do Moore hahahaha!

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No volume 7 do Nite Owl, silhueta é de coruja, ele acorda de noite como uma coruja, foco nos olhos e ressoando com watchmen os observadores. Brincadeira com a banda DEVO até no visual.

Alan Moore usa da técnica poética de associações como ferramenta narrativa.

Narrativa do Dr. Manhattan paralela com a da Sally, quebra da bola de vidro junto com a quebra do castelo de vidro de marte.

No Before Watchmen, o castelo de vidro seria baseado em um relógio que o Dr. Manhattan ganhou quando criança.

O volume 10 começa com referências claras a Dr. Strangelove, filme do Kubrik. Transição de tempo feita através dos diálogos, deixa mais orgânico.

Metáfora visual, a nave do Nite Owl saindo do fundo das águas sujas ao mesmo tempo que ele e Rorschach reatam a amizade.

A história dos piratas, dois cavalos, dois cavaleiros, um o sobrevivente insano e sua vítima, espelha Rorsarch e Nite Owl saindo em sua investigação.

Nome da banda Pale Death, ressoando o tema da morte.

Volume 10, 10 é X, x da questão. Onde se revela o mistério principal, que a empresa piramide tem ligação direta com Veidt (o que é óbvio pela parafernália e simbolismo egípcio do Ozymadias (o nome do Ramses III)

Volume 11, Rorsarch cita que estão aproximando o Heart of Darkness citação à obra máxima de Joseph Conrad (recomendo a leitura!), com o Veidt sendo o general Kurtz.

Explicação do o porquê da presença da historia do sobrevivente (a HQ dos piratas que corre em paralelo com a narrativa), o tema da narrativa dos piratas é lucidez versus loucura, e Nite Owl pergunta como julgar se veidt está são ou louco, esse é o tema dos quadrinhos de pirata, a narrativa racionaliza a loucura do sobrevivente enquanto as imagens contradizem a loucura dele.

Confissão do Ozymadias feita e paradoxal perto da sequência dos quadrinhos, eventos de segundos enquanto a fala levaria mais tempo.

O sonho do Ozymadias é parecido com a história do sobrevivente.

Ressonância do final do arco do Nite Owl com o grafite do casal na parede.

Tudo ressoa entre si.

Reverse sort

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    At Midnight, All The Agents…

    September 1, 1986

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    Absent Friends

    October 1, 1986

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    November 1, 1986

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    Watchmaker

    December 1, 1986

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    February 1, 1987

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    March 1, 1987

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    April 1, 1987

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    May 1, 1987

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    A Stronger Loving World

    October 1, 1987

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