No meio da leitura dos livros de contos do Rubem Fonseca Amálgama (2013), Feliz Ano Novo (1975), O Buraco na Parede (1995), O Cobrador (1979) e Pequenas Criaturas (2002), dos quais vou fazer uma resenha inteira usando a experiência de ler em sequência, deu uma paradinha para aproveitar que a minha esposa escritora resolveu ler Macunaíma, para ler uma das obras primas do Modernismo Brasileiro, a saga do herói sem caráter de Mário de Andrade. Ter um parceiro de leitura, uma pessoa que lê o mesmo livro que você está lendo, é muito legal, dá para comentar a experiência durante a leitura, com os dois coabitando o mesmo espaço imaginário. E não tem espaço imaginário mais brasileiro do que o de Macunaíma!

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Macunaíma foi escrito em 1928, pelo monstro intelectual Mário de Andrade, infelizmente mais citado do que lido atualmente. É considerado um dos mais importantes exemplares do Modernismo brasileiro e reflete essa tentativa de se criar uma cultura brasileira, antropofágica, de criação livre, de ruptura estética com o passado, e no caso de Macunaíma, isso se traduziu em uma espécie de indianismo moderno.

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O resultado é um purê brasileiro, como se Andrade tivesse jogado em um liquidificador de criação poética as lendas e mitologia indígenas, a espiritualidade e cultura afro-brasileira, o desenvolvimento urbano esquizofrênico de São Paulo e Rio, que já eram modelos de urbanização descontrolada na época, a espiritualidade católica, a herança portuguesa, a mineiridade e a vida dos sertões, a miscigenação e hedonismo presente na nossa mistura de raças, os aforismos, os ditados populares, a volúpia, sensualidade, a sacanagem e tudo o mais que compunha o cenário brasileiro da colonização até os anos vinte.

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Essa colagem de inspirações de milhares de fontes é feita, em Macunaíma, dentro de uma visão poética. Nas outras resenhas do livro que li, muitos resenhistas reclamam do texto, de ser muito obscuro, de difícil leitura, mas, ao meu ver, Macunaíma deve ser lido e abordado como poesia, e não como prosa. O mais interessante é a confissão de Mário de Andrade nos prefácios publicados na edição da editora Nova Fronteira (de 2013)  . Ele compara a sua obra aos repentes dos cantadores do nordeste, que incorporam em suas cantigas lendas, histórias, mitos, causos, alterando e fantasiando para incorporar nas canções.

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E Macunaíma, encarado como poesia, mostra toda sua força quando lido em voz alta. É fantástico! O texto de Andrade segue a tradição oral, são causos e mais causos contados em diversos registros, seja com linguagem popular, linguagem simulando a indígena, registros emulando textos de intelectuais brasileiros e portugueses, registros emulando a linguagem urbana, etc. Ele segue a lógica dos contos de fada, de histórias contadas por uma criança, a lógica da narrativa mitológica, a lógica dos sonhos, e exige uma leitura diferente, relaxada, gostosa, curtida. Não andianta interligar tudo em uma relação de causa e efeito, em algum tipo de racionalidade. Cada capítulo, cada parágrafo, cada frase são como versos, feitos para criar alusões, sensações, para rir, para chorar, para divertir, para fazer sonhar. E refletir.

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Notei também o alto grau de compressão poética, ou seja, cada frase, cada parágrafo, capítulo, estão repletos de alusões, símbolos, jogos poéticos com as palavras, ressonância de temas, seguindo uma sequência narrativa mais próxima às canções, a dos causos, e até dos hinos religiosos, como Andrade esclarece em seu prefácio) do que a prosa tradicional em si.

O livro é repleto de jogos de linguagem. Por exemplo a frase característica da personagem é “Ai, que preguiça!”. Como na língua indígena o som “aique” significa “preguiça”, Macunaíma seria duplamente preguiçoso.

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E é ser divertidíssimo, cheio de rimas que me levaram de volta à infância “Zé Prequeté, tira bicho do pé pra comer com café!”, passagens muito engraçadas, considero Macunaíma algo como um Ulysses brasuca, ou em termos nerds, o nosso Silmarilion (uai, tem até uma saga envolvendo a pedra “muiraquitã” a versão tupiniquim das silmarils!).

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Recomendo a leitura, nem que lenda, capítulo por capítulo, como poesia, lendo em voz alta, sentindo os ritmos das frases, as alusões, o colorido das descrições, a criatividade da ortografia (cuspe é guspe, por exemplo). E além de tudo, Macunaíma expande o vocabulário de qualquer leitor, e inspira a criatividade de qualquer escritor. É, além de tudo, um manifesto a favor da liberdade de expressão literária e de criação poética. Mário de Andrade grita, a cada frase, “seja livre! Seja livre para criar o que quiser!”. :)

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P.S.: O filme de 1969 dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, é só inspirado pelo livro, com algumas cenas representadas e muitas alterações. Eu sou fã do filme, um dos nossos melhores filmes surrealistas brasileiros, divertido, em uma estática nova, uma espécie de comédia misturada com cinema novo, surrealismo, chanchada, e cinema de crítica social, piradaço, halucinógeno e só tem fera, mas a narrativa foge bastante do livro. Recomendo os dois! :)

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BONUS STAGE DA RESENHA – PALÁVRAS DO MÁRIO MACUNAÍMA DE ANDRADE!

Esses são alguns textos escritos pelo Mário e que explodiram a minha cabeça e expandiram a minha leitura do Macunaíma!

2º PREFÁCIO – MÁRIO DE ANDRADE SOBRE MACUNAÍMA

27 de Março de 1928 – Prefácio da Segunda Edição do Romance

Este livro de pura brincadeira escrito na primeira redação em seis dias ininterruptos de rede, cigarros e cigarras na chacra de Pio Lourenço perto do ninho da luz que é Araraquara, afinal resolvi dar sem mais preocupação. Já estava me enquizilando… Jamais não tive tanto como diante dele a impossibilidade de ajuizar dos valores possíveis duma obra minha.

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Não sei ter humildades falsas não e se publico um livro é porque acredito no valor dele. O que reconheço é que muitas vezes publico uma coisa ruim em si, por outros valores que podem resultar dela. É o caso por exemplo do poder de ensaios de língua brasileira, tão díspares entre si, tão péssimos alguns. Não me amolo que sejam péssimos e mesmo que minha obra toda tenha a transitoriedade precária da minha vida. O que me interessa mesmo é dar pra mim o destino que as minhas possibilidades me davam. E que tenho sido útil: as preocupações, as tentativas, as amizades e até as repulsas (dinâmicas?) que tenho despertado provam bem. Principalmente disso vem o orgulho tamanho que possuo e me impede completamente qualquer manifestação de vaidade. Eu não me contentei em desejar a felicidade, me fiz feliz.

Ora este livro que não passou dum jeito pensativo e gozado de descansar umas férias, relumeante de pesquisas e intenções, muitas das quais só se tornavam conscientes no nascer da escrita, me parece que vale um bocado como sintoma de cultura nacional.

Me parece que os melhores elementos duma cultura nacional aparecem nele. Possui psicologia própria e maneira de expressão própria. Possui uma filosofia aplicada entre otimismo ao excesso e pessimismo ao excesso dum país bem onde o praceano considera a Providência como sendo brasileira e o homem da terra pita o conceito da pachorra mais que fumo. Possui aceitação sem timidez nem vanglória da entidade nacional e a concebe tão permanente e unida que o país aparece desgeograficado no clima na flora na fauna no homem, na lenda, na tradição histórica até quanto isso possa divertir ou concluir um dado sem repugnar pelo absurdo.

Falar em “pagos” e “querências” em relação às terras do Uraricoera é bom. Além disso possui colaboração estrangeira e aproveitamento dos outros, complacente, sem temor, e sobretudo sem o exclusivismo de todo ser bem nascido pras idéias comunistas. O próprio herói do livro que tirei do alemão de Koch-Grünberg, nem se pode falar que é do Brasil. É tão ou mais venezuelano como da gente e desconhece a estupidez dos limites pra parar na “terra dos ingleses” como ele chama a Guiana Inglesa. Essa circunstância do herói do livro não ser absolutamente brasileiro me agrada como o quê. Me alarga o peito bem, coisa que antigamente os homens expressavam pelo “me enche os olhos de lágrimas”.

Agora: não quero que imaginem que pretendi fazer deste livro uma expressão de cultura nacional brasileira. Deus me livre. É agora, depois dele feito, que me parece descobrir nele um sintoma de cultura nossa. Lenda, história, tradição, psicologia, ciência, objetividade nacional, coopeeração acomodada de elementos estrangeiros passam aí. Por isso que malicio nele o fenômeno complexo que o torna sintomático.

Quanto às intenções que bordaram o esquerzo, tive intenções por demais. Só não quero é que tomem Macunaíma e outros personagens como símbolos. É certo que não tive intenção de sintetizar o brasileiro em Macunaíma nem o estrangeiro no gigante Piaimã. Apesar de todas as referências figuradas que a gente possa perceber entre Macunaíma e o homem brasileiro, Venceslau Pietro Pietra e o homem estrangeiro, tem duas omissões voluntárias que tiram por completo o conceito simbólico dos dois: a simbologia é episódica, aparece por intermitência quando calha pra tirar efeito cômico e não tem antítese. Venceslau Pietro Pietra e Macunaíma nem são antagônicos, nem se completam e muito menos a luta entre os dois tem qualquer valor sociológico.

Se Macunaíma consegue retomar a muiraquitã é porque eu carecia de fazer ele morrer no Norte. E é impossível de se ver na morte do gigante qualquer aparência de simbologia. As próprias alusões, sem continuidade ao elemento estrangeiro que o gigante faz nascer, concorrem pra minha observação do sintoma cultural do livro: é uma complacência gozada, uma acomodação aceita tão conscientemente que a própria mulher dele é uma caapora e a filha vira estrela.

Me repugnaria bem que se enxergasse em Macunaíma a intenção minha dele ser o herói nacional. É o herói desta brincadeira, isso sim, e os valores nacionais que o animam são apenas o jeito dele possuir o “Sein” de Keyserling a significação imprescindível a meu ver, que desperta empatia. Uma significação não precisa de ser total pra ser profunda. E é por meio de “Sein” (ver o prefácio do tradutor em Le Monde qui Naît) que a arte pode ser aceita dentro da vida. Ele é que fez da arte e da vida um sistema de vasos comunicantes, equilibrando o líquido que agora não turtuveio em chamar de lágrima.

Outro problema do livro que careço explicar é da imoralidade. Palavra que seria falso concluir pela imoralidade e pela porcariada mesmo que está aqui dentro, que me comprazo com isso. Quando muito admito que concluam que me comprazo… com o brasileiro.

Uma coisa fácil de constatar é a constância da porcaria e da imoralidade nas lendas de primitivos em geral e nos livros religiosos. Não só aceitei mas acentuei isso. Não vou me desculpar falando que as flores do mal dão horror do mal não. Até que despertam muito a curiosidade… Minha intenção aí foi verificar uma constância brasileira que não sou o primeiro a verificar, debicá-la numa caçoada complacente que a satiriza sem tomar um pitium moralizante. Macunaíma afinal afrouxou e num esforço… de herói, se acaba ver peixe, pela… boca. Mas me repugnava servir de mendoim pra piazotes e velhotes. Empreguei todos os calmantes possíveis: a perífrase, as palavras indígenas, o cômico, e um estilo poético inspirado diretamente dos livros religiosos. Creio que assim pude restabelecer a paz entre os homens de boa vontade.

E resta a circunstância da falta de caráter do herói. Falta de caráter no duplo sentido de indivíduo sem caráter moral e sem característico. Está certo. Sem esse pessimismo eu não seria amigo sincero dos meus patrícios. É a sátira dura do livro. Heroísmo de arroubo é fácil de ter. Porém o galho mais alto dum pau gigante que eu saiba não é lugar propício pra gente dormir sossegado.

Como se vê não é o preconceito contra a moral nem vergonha de parecer moralista na roda inda decadente que me leva a certas complacências.

Nas épocas de transição social como a de agora é duro o compromisso com o que tem de vir e quase ninguém não sabe. Eu não sei. Não desejo a volta do passado e por isso já não posso tirar dele uma fábula normativa. Por outro lado o jeito de Jeremias me parece ineficiente. O presente é uma neblina vasta. Hesitar é sinal de fraqueza, eu sei. Mas comigo não se trata de hesitação. Se trata duma verdadeira impossibilidade, a pior de todas, a de nem saber o nome das incógnitas. Dirão que a culpa é minha, que não arregimentei o espírito na cultura legítima. Está certo. Mas isso dizem os pesados de Maritain, dizem os que espigaram de Spengler, os que pensam por Wells ou por Lenine e viva Einstein!

Mas resta pros decididos como eu que a neblina da época está matando o consolo maternal dos museus. Entre a certeza decidida que eletrocuta e a fé franca que se recusa a julgar, nasci pra esta. Ou o tempo nasceu por mim… Pode ser que os outros sejam mais nobres. Mais calmos certamente que não. Mas não tenho medo de ser mais trágico.

Escrito por Mário de Andrade, para a 2ª edição de Macunaíma, em
27 de Março de 1928

SOBRE AS ALEGORIAS E SÍMBOLOS EM MACUNAÍMA

Essa é de um texto do Mário (escrito aqui em Belzonte!) em 1943 para a revista literária Mensagem, sobre a alegoria da criação ou do fracasso da criação de uma civilização tropical. Posto aqui o trecho publicado no livro.

NOTAS DIÁRIAS
Especial para Mensagem

[…]
…a observação de Sérgio Milliet me obrigou a esta releitura dos três capítulos finais de Macunaíma…

Francamente às vezes até me chateia, mais freqüentemente me assusta, a versidade de intençõezinhas, de subentendidos, de alusões, de símbolos que dispersei no livro. Talvez eu devesse escrever no livro, pelo menos ensaio, Ao lado de Macunaíma, comentando tudo o que botei nele. Até sem querer!

De uma das alegorias não me lembrava, porém a leitura de hoje fez ela me ressaltar bem viva na lembrança. Talvez a recordação chegasse tão viva agora porque, tendo imaginado retomar a composição do meu romance Café, o problema de formarmos, de querermos formar uma cultura e civilização de base cristã-européia, que seria por assim dizer a tese do romance, esteja me preocupando muito.

Já me esquecera da alegoria que pusera sobre isso no Macunaíma… Mas agora tudo se relembrou em mim vividamente, ao ler a frase: “Era malvadeza da vingarenta (a velha Vei, a Sol) só por causa do herói não ter se amulherado com uma das filhas da luz”, isto é, as grandes civilizações tropicais, China, Índia, Peru, México, Egito, filhas do calor.

A alegoria está desenvolvida no capítulo intitulado Vei, a Sol. Macunaíma aceita se casar com uma das filhas solares, mas nem bem a futura sogra se afasta, não se amola mais com a promessa, e sai à procura de mulher. E se amulhera com uma portuguesa, o Portugal que nos herdou os princípios cristãos-europeus. E por isso, aqui no acabar do livro, no capítulo final, Vei se vinga do herói e o quer matar. Ela é que faz aparecer a Uiara que destroça Macunaíma. Foi vingança da região quente solar. Macunaíma não se realiza, não consegue adquirir um caráter. E vai pro céu, viver o “brilho inútil das estrelas”.

…pra completar a nota acima: um dos elementos sorridentemente amargos da alegoria é o custo, a hesitação de Macunaíma, quando deseja se jogar nos braços da Uiara enganosa, com que Vei, a Sol, o pretende matar. Estou me referindo à imagem da água estar fria, forçadamente fria naquele clima do Uraricoera e naquela hora alta do dia.

A água destrança as suas ondinhas de “ouro e prata” (alusão à cantiga-de-roda ibérica da Senhora dona Sancha) e aparece a uiara falsa. Macunaíma sente um desejo enorme de ir brincar com ela, talvez a fecundasse, talvez nascesse um novo filho-guaraná, como dos seus amores com Ci… Mas põe o dedão do pé e tem medo do frio, isto é, se arreceia de uma civilização, de uma cultura de clima moderado europeu.

E Macunaíma, como num pressentimento, retira o dedão, não se atira n’água. O herói se salva essa primeira vez. E a água mexida pelo dedão do herói se entrança de novo num tecido de ouro e prata, escondendo a visagem da Uiara-dona-Sancha. A qual é dona Sancha pra ser européia, pois Vei, em vez de se utilizar duma das suas filhas, europeíza o seu instrumento de vingança. Ela percebe que, sem o europeísmo a que se acostumou, Macunaíma não se enganava. Vei não desanima e pra enfim vencer acaba se servindo de um argumento exatamente tropical. Pega num chicote de calor e dá uma lambada no herói. Este não resiste mais. Se atira na água fria, preferindo os braços da iara ilusória. E vai ser devorado pelos bichos da água, botos, piranhas.

Ainda consegue voltar à praia, mas é um frangalho de homem. Como agora? sem uma perna, sem isto e mais aquilo, e sem principalmente a muiraquitã que lhe dá razão-de-ser, poderá se organizar, se reorganizar numa vida legítima e funcional?… Não tem mais possibilidade disso. Desiste de ir viver com Delmiro Gouveia, o grande criador. Desiste de ir pra Marajó, único lugar do Brasil em que ficaram traços duma civilização superior. Lhe falta o amuleto nacional, não conseguirá mais vencer nada. Então ele prefere ir brilhar do brilho inútil das estrelas.

MÁRIO “Ai que Preguiça!” DE ANDRADE
(O cara é foda mesmo vééééio! E vamos ler porque ler é doidimais!!!)

ONDE COMPRAR:

Macunaíma por Mario de Andrade Macunaíma

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E agora de volta para o Rubão. Já estou lendo o premiado “O Cobrador”, é bão dimais, bão dimais da conta vééééi! ;)

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