The Monarchies of God (As Monarquias de Deus, Editora Solaris, 2010, 700 páginas) é uma série de fantasia épica militarista e brutal escrita pelo irlandês Paul Kearney entre 1995 a 2002, inicialmente em cinco volumes, e depois editadas em dois volumes.

hawkwood_and_the_kings Os livros originais são:

Hawkwood’s Voyage (1995)
The Heretic Kings (1996)

Esses são os dois primeiros livros reunídos no Monarchies of God Vol.1

Monarchies of God Vol.2 reúne os  seguintes livros:

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The Iron Wars (1999)
The Second Empire (2000)
Ships from the West (2002)

Cheguei até Paul Kearney como muitos  outros leitores, pela recomendação de Steven “Malazan” Erikson, que disse que a série As Monarquias de Deus tinha sido uma das melhores sagas de fantasia dos anos 90, e que merecia maior atenção do público pela qualidade de sua narrativa.

A recomendação de um dos mestres da fantasia contemporânea corresponde ao que encontrei nas Monarquias de Deus: uma obra cheia de batalhas épicas, brutal, com mortes inesperadas de progatonistas bem ao estilo cruel do George R.R. Martin, uma abordagem realista da religião no período da baixa idade média, conflitos entre religião versus magia versus ciência, e uma prosa engajante, rápida e eficiente.

A série se passa no continente de Normannia, que lembra a Europa do período renascentista.
O continente é dominado por cinco reinos poderosos: Hebrion, Astarac, Perigraine, Almark e Torunna, além de outros ducados e principalidades, como Candelaria, Tulm e Finmark.

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A república de Fimbria, também conhecida como os Eleitorados Fimbrianos fica entre os cinco maiores reinos de Normania, e  representa claramente o Império Romano do cenário.

Fímbria dominou o continente até perder seu império em uma guerra civil gerada por conflitos religiosos há quatrocentos anos antes do início da narrativa. O antigo império se manteve como a República de Fímbria, e se tornou isolacionista, porém respeitado por ter os exércitos mais poderosos do continente.

As Cinco Monarquias de Deus (Hebrion,Astarac, Perigraine, Almark e Torunna) se unem pela religião Ramusiana, uma religião monoteísta criada a partir do mensageiro de Deus, o Abençoado Santo Ramusio; em uma descrição que lembra o Cristianismo medieval. A Igreja Ramusiana tem até uma cidade sagrada, Aekir (análoga a Jerusalém) e Charibon, o centro de poder da Igreja (análoga a Roma).

Os Ramusianos se opõem fanaticamente aos Merduks, um grupo religioso, cultural e étnico que ocupam as terras do leste da Normannia, os Sete Sultanatos (em uma clara analogia aos reinos árabes e a religião muçulmana). Os Merduks seguem os ensinamentos do Profeta Ahrimuz, e seguem uma fé monoteísta, análoga a fé muçulmana.

A existência, em todas as nações, de um povo geneticamente propenso à magia, os Dewomer, que são cícliclamente perseguidos em inquisições violentas feitas pelas igrejas.

E por trás disso tudo, uma conspiração mística que prenuncia o apocalipse, o início da Era do Lobo. Doidimais vééééi!

Conspirações, perseguição religiosa contra os usuários de magia, uma viagem de descobrimento de um novo continente, transmorfos e o começo do uso da pólvora, guerras navais e cercos militares, esse primeiro volume tem de tudo para agradar quem curte fantasia militarista brutal. Paul Kearney é um ótimo escritor, infelizmente ainda desconhecido do grande público (mas quem sabe, ultimamente, e principalmente por causa da recomendação do Stephen “Malazan”, a fama de Kearney está aumentando).

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Técnicas Narrativas nas Monarquias de Deus, Vol 1

O que mais me impressionou foi a capacidade de síntese narrativa do Kearney. Ele consegue, sem detrimento da trama e do desenvolvimento de personagens, conduzir diversas narrativas paralelas em poucas páginas (dentro do padrão da fantasia épica).

São muitos personagens, muitos pontos de vista, muitos arcos narrativos mas conduzidos com muito controle de cena e um ritmo empolgante. E, acredito, ele consegue isso com economia e revisão, penso que quando Kearney estava escrevendo, ele deve ter reduzido a narrativa ao seu essencial, sem desperdiçar nenhuma cena, e usando de cortes cinematográficos para focar a trama e manter o ritmo narrativo.

A quantidade enorme de personagens sempre corre o risco de diminuir o impacto individual de cada história, mas Kearney consegue um bom equilíbrio nesse sentido.

A narrativa é feita em  Terceira Pessoa Limitada, mas com o uso de pensamentos indiretos, ao invés de diretos, talvez por facilitar a síntese e por causa da grande quantidade de personagens.

A saga aborda de maneira realista o tema da intolerância religiosa, a definição de heresia, as crueldades da inquisição, motivações pessoais ditando a moralidade, o cinismo religioso e a natureza da fé verdadeira.

A descrição das cenas engajam todos os sentidos, Kearney usa metáforas e símiles esporadicamente, favorecendo a economia de linguarem.

Na construção do cenário, Kearney usou da queda do Império Romano e a criação dos Reinados europeus de base, além dos Sultanatos do período das Cruzadas, aproveitando todas as complexidades e peculiaridades daquele momento histórico para dar mais realismo na sua saga.

Uso de estruturas literárias diferentes,  como o formato de um diário de navegação em uma das partes da saga.

A narrativa pula de cena em cena, seguindo um formato cinematográfico, mas o autor mantém domínio da cronologia dos acontecimentos, e centra cada parte em um único ponto de vista narrativo.

Caracterização rápida dos múltiplos personagens, é a difícil escolha entre caracterização e trama. Em uma história épica, com muitos personagens, é necessário caracterizar um personagem rapidamente, colocando sua personalidade, passado, motivações, frustrações, virtudes e defeitos em poucas frases e ações. Kearney demonstra habilidade com essa técnica, usando de detalhes peculiares em seus personagens para diferenciá-los.

Descrição dos efeitos sociais da magia e da presença de magos entre reinos que seguem uma religião monoteísta. Magia faz a diferença nos conflitos, mas tem um custo alto (magos gastam vitalidade, anos de vida para realizar suas magias).

Magia limitada pela capacidade intelectual e de concentração do mago.

Conspirações baseadas na diversidade de interesses, mesmo dentro de uma organização ou instituição supostamente homogênea, dando realismo para a narrativa e complexidade moral.

Conclusão:

Monarchies of God Vol. 1 vai agradar muito os fãs de fantasia militarista e brutal épica. Vinte personagens POV, uma narrativa que se passa em dois continentes, muita politicagem, combate, estratégia, moralidade complexa e realista. Um detalhe que pode incomodar é a caracterização das personagens femininas, que ficam limitadas a papéis mais secundários, além da violência explícita e muitas passagens bem sombrias.

Eu adorei, fica recomendado! :) Ainda vou ler o volume 02 e posto a resenha aqui. :)

Próximas Leituras:

Writing Fantasy Heroes: Powerful Advice from the Pros (350 pgs)

Descobri esse guia para escritores recentemente e resolvi ler imediatamente! É uma coleção de textos com reflexões sobre criação de personagens de fantasia feitas pelos melhores escritores contemporâneos. Olha só a lista de autores:  Glen Cook (Companhia Negra), Paul Kearney (Monarquias de Deus), Orson Scott Card (O Jogo do Exterminador),  Brandon Sanderson (Mistborn), Ian C. Esslemont (Malazan) entre outros, e com a introdução escrita pelo fodásico Steven “Malazan” Erikson!

Barba Ensopada de Sangue – Daniel Galera (400 pgs)

Já tinha um tempo que esse livro tão elogiado (e premiado, 3º lugar no Prêmio Jabuti, mais uns trocentos outros prêmios) estava na minha lista de leitura. Será meu primeiro contato com a escrita do Daniel Galera, e estou muito animado, naquela tensão-pré-livro que faz parte dos viciados em histórias! :) E depois volto às Monarquias de Deus Vol. 2!!! :)

E vamos ler porque ler é doidimais! :)

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