Viver é muito perigoso, mas a vida fica menos perigosa depois que se lê uma coisa preciosa dessas que é o Grande Sertão Veredas.  Eu tinha enrolado, enrolado, enrolado por muito tempo essa leitura, começado, interrompido, esquecido, voltado até que, com a minha escrivinhação dos últimos tempos, com a feitura da escrita, a moldação das frases, o desespero de escolher a palavra certa, me veio aquela vontade doida, aquela obrigação mineira de ler o texto fundador da imensidão das Gerais, de um sertão que não se existe mais. E que encontro maravilhoso com a prosa do Tio João, que encontro maravilhoso!

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Acho que toda a celebração merecida que Grande Sertão Veredas recebeu, toda essa montanha de fortuna crítica criada ao redor dessa obra, acaba por espantar os leitores de hoje. Acredito que tem muita gente, principalmente daqui das minhas Gerais, que deve pensar que Grande Sertão é difícil de entender, que é obra erudita, que é chata, de prosa arrastada, etc. O que é uma pena, principalmente para os mineiros.

Sim, a linguagem é estranha mas estranhamente familiar. Eu mesmo, depois de algumas páginas, comecei a sentir um clareamento, é incrível, é como se o linguajar dos jagunços, aquele jeito de falar cantado estava gravado no meu DNA de mineiro. Esse era o jeito que meu avô falava, o jeito que minha avó falava (misturando trejeitos do português de Portugal vindo dos meus bisavôs), e não sei como, pela mágica do Tio João, fui entendendo cada vez mais.

globo__Bruna Lombardi e Tony Ramos tratada bc__gallefull

Bem, de volta ao livro, essa não é uma resenha normal, como vocês estão vendo, e sim um convite para a leitura do Grande Sertão.  A obra é belíssima, tem de tudo, épica, cheia de causas e causos, personagens inesquecíveis, um clima impressionante, tiradas filosóficas eternas por todos os lados, beleza poética nas metáforas e símiles e uma voz literária inimitável.

Não sei se é obra para se ler na maturidade ou na mocidade, mas é obrigatória, acredito, para qualquer escritor brasileiro. O Tio João é um mestre absoluto em todas essas técnicas de escrita que eu já abordei aqui no blog e nos vídeos.

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A narrativa é feita em primeira pessoa, pela boca e alma de Riobaldo, usando de todos os trejeitos, vocabulário e sintaxe que o Tio João garimpou por décadas pelo sertão. Em termos de técnicas narrativas, o Tio João alterna entre descrições poéticas com metáforas e símiles  maravilhosas e pingado sertão, cenas de ação jagunça em que entramos dentro da pele do Riobaldo, monólogos interiores bem colocados, dissertações filosóficas organicamente trançadas na narrativa.

Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor… ( Grande Sertão Veredas, 2001, p. 76).

A sequência dos eventos segue a sequência psicológica, através do fluir das memórias, bem ao modo dos contadores de histórias de minas gerais. O tema da luta entre o bem e o mal, do regional e o universal, do amor de homem com mulher e homem com homem, o conflito entre o mundo do sertão que se definha e as regras da cidade que se avizinha, tudo interligado com a trama e com os personagens. Um aula de escrita atrás da outra, uma aula de liberdade literária e rigor de artesão de palavras.

As cenas são construídas naturalmente, a prosa segue como um rio das Minas Gerais,  ora rápido, ora devagar, com tangentes que surgem de repente e desaparecem depois. Transições de tempo e espaço são feitas usando poesia pura que respira sertão, não consegui tirar da cabeça minhas caminhadas pela Serra do Cipó, o mato do cerrado mineiro, a confusão de plantas e bichinhos miúdos.  Descrições vívidas, que misturam o descrito com o sentido, e que revelam os conflitos internos dos personagens, a religiosidade que impregna tudo, até hoje, no sertão, e muitas outras coisas.

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Uma outra surpresa é o modo contemporâneo e maduro que é descrito o amor homosexual entre Riobaldo e Diadorin. Fiquei muito impressionado com a sensibilidade do autor,  descrevendo a relação com todas as nuances ,complexidades, sofrimentos e recalques, sem separar a vida emocional dos personagens da realidade brutal do universo da narrativa.

Concordo completamente com o mestre Antônio Cândido que “na extraordinária obra-prima Grande Sertão: Veredas há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício”. Então fica aqui, repito, o convite à leitura desse trem de doido da literatura brasileira.

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Depois do prazer que foi esse reencontro com o que de melhor temos na literatura brasileira , e do efeito benéfico que senti na minha escrita, resolvi dar uma mergulhada na literatura brasileira. Minha próxima leitura, que já estou devendo faz tempo, será Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, do Prof. Ítalo Moriconi. :)

E vamos que vamos porque ler é doidimais! :D

Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…” – ciente me respondeu (Grande Sertão Veredas, 2001, p. 74).

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