Nitrodicas 18: Técnicas Narrativas para escrever Cenas! #dicasparaescritores #nitroblog #video

Nesse NitroDicas para Escritores Iniciantes, abordo as técnicas de MOSTRAR ao invés de CONTAR, na construção de Cenas na narrativa. Falo sobre a alternância entre Clipes Públicos e Clipes Privados para criar a imersão na cena.

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Nitrodicas 18: Técnicas Narrativas para escrever Cenas

O SEGREDO DE MOSTRAR A NARRATIVA

Um dos temas mais repetidos nessas minhas Nitrodicas é a diferença entre MOSTRAR e CONTAR uma narrativa, em inglês o SHOW versus TELL. Os leitores contemporâneos, influenciados pelas narrativas visuais do cinema, se interessam mais por narrativas que MOSTRAM mais do que CONTAM o que acontece, procurando experenciar as emoções da narrativa por dentro do ponto de vista de seus protagonistas.

Toda narrativa é uma mistura de técnicas de MOSTRAR com técnicas de CONTAR, e ultimamente, as narrativas tem pendido mais para MOSTRAR os acontecimentos, pois é a maneira mais rápida de provocar uma experiência emocional poderosa no leitor.

Exemplo de MOSTRAR:

Um relâmpago de dor cruzou suas costas. Ela se virou e a criatura estava na sua frente, lambendo o sangue que escorria de suas garras. “Vou morrer!”, ela pensou, enquanto tentava tirar a água benta de sua bolsa.

Exemplo de CONTAR:

A criatura a tinha atacado, rasgando suas costas, mas fugiu, depois que ela jogou a água benta em seu rosto.

No vídeo anterior eu falei sobre as técnicas de CONTAR, o sumário narrativo, a exposição e a descrição estática. Nesse Nitrodicas vou falar sobre as técnicas de MOSTRAR, ou as técnicas de como escrever CENAS NARRATIVAS. Defino CENA como uma sequência narrativa MOSTRADA, que avança a trama, desenvolve personagem e reforça o tema da narrativa.

Existem três princípios básicos para todas as CENAS:

1) Cenas devem ser COMPREENSÍVEIS.

Na vida real tudo acontece ao mesmo tempo mas na narrativa, por causa do modo como funciona a linguagem, você terá que focar em um personagem e depois em outro personagem em sequência, para que a ação faça sentido para o leitor.

2) Cenas devem ser EMOTIVAS

Você precisa criar a ilusão que o seu leitor é o seu personagem PONTO DE VISTA,a ilusão que seu leitor entrou na pele do seu personagem PONTO DE VISTA, ou do seu personagem focal (se você trabalha com ponto de vista narrativo onisciente).

3) Cenas devem ser PLAUSÍVEIS (ter CREDIBILIDADE)

Você precisa fazer com que o leitor acredite nos princípios de causa e efeito que estão em operação no mundo da história, no seu universo narrativo, ao mesmo tempo que você deve evitar a previsibilidade.

Como podemos ver em diálogos, ao escrever o escritor foca , sequencialmente, em cada um dos personagens envolvidos em uma cena, dando a cada um dos personagens parágrafos nos cais eles agem, sentem, pensam e olham.

CLIPES

O termo CLIP se refere ao parágrafo ou ao grupo de parágrados focados no ponto de vista de um único personagem. O clipe é uma unidade narrativa, e pode conter qualquer tipo de mistura de ação, diálogo, emoção interior, monólogo interior e descrição. Cada clipe é focado em um único personagem, seja o personagem Ponto de Vista (que experiencia a história sendo narrada) ou seja focado em um personagem (ou outros personagens) que não são o personagem ponto de vista.

Exemplos de Clipes:

Clipe só de diálogo:

_ Eu não vou mais fazer parte dos X-Men. _ disse Wolverine.

Clipe que combina ação com diálogo e monólogo interior:

Wolverine cambaleou para fora da Sala de Perigo junto com Colossus. “Ele quase arrancou minha mandíbula” pensou, sacudindo a cabeça.

_ Você bateu muito forte Colossus! Qual é o problema, véio?

Clipe que combina descrição, com ação e diálogo:

Wolverine se olhou no espelho. Seus cabelos estavam enormes, lhe dando a aparência de um urso. “Caraca, tenho que cortar essa juba, tô feio pra caralho!” pensou.

_ Colossus, me passa essa tesoura de adamantium.

Clipes podem ter quantos parágrafos forem necessários ou serem feitos apenas com uma pequena frase, o importante é lembrar que um Clipe foca em apenas um personagem (ou um grupo específico de personagens considerados como uma unidade, como, por exemplo “os soldados desceram as montanhas em fileiras gigantescas”.

Seguindo essa definição, a maioria das cenas de uma narrativa contém dezenas de clipes, porque a maioria das cenas possuem dois ou mais personagens interagindo entre si dezenas de vezes.

O importante é lembrar que um clipe se foca em um único personagem. Quando você muda o foco de um personagem para outro personagem, um clipe se encerrou e outro começou. Essa é uma idéia crucial para escrever cenas focadas, cenas COMPREENSÍVEIS, EMOTIVAS E PLAUSÍVEIS.

OS DOIS TIPOS DE CLIPES

Escritores usam dois diferentes tipos de Clipes, dependendo se eles focam o clipe no personagem Ponto de Vista ou no personagem que não é o Ponto de Vista da narrativa (os coadjuvantes).

O Personagem Ponto de Vista é por onde o leitor enxerga a narrativa. No Personagem POV o leitor tem acesso a suas emoções, sensações, e pensamentos privados. Ou seja o leitor vê o personagem POV POR DENTRO.

O Personagem Fora do Ponto de Vista Narrativo, é o personagem (ou são os personagens) que o leitor vê de fora, ou seja, vê apenas sua imagem pública. O leitor só tem acesso aos pensamentos, emoções e sensações de um Personagem Fora do Ponto de Vista Narrativo se esse personagem expressar ou exteriorizar esses pensamentos, emoções e sensações, ou por inferência de acordo com sua linguagem corporal. Ou seja, o leitor vê o Personagem Fora do Ponto de Vista POR FORA.

Assim, temos dois tipos básicos de clipes:

CLIPE PRIVADO:

Esse é o tipo de clipe que foca em um personagem POV e tem acesso aos pensamentos e emoções privadas desse personagem. Em um CLIPE PRIVADO o leitor vê o mundo através do Ponto de Vista do personagem, através de seus olhos, experimentando o mundo de dentro de seu corpo. O leitor vê as AÇÕES, DIÁLOGOS, EMOÇÕES E MONÓLOGOS INTERIORES de maneira privada, ou seja, de DENTRO do personagem.

CLIPE PÚBLICO:

Esse é o tipo de clipe que foca em um personagem de fora do ponto de vista e tem acesso somente ao que é publicamente visível deste personagem. O leitor vê as ações, os diálogos e as descrições desse personagem de maneira pública, ou seja DO LADO DE FORA desse personagem Não-POV. O leitor pode ser capaz de adivinhar os pensamentos e emoções dos personagens Não-POV através de suas expressões faciais, palavras, ações ou linguagem corporal; mas o leitor nunca terá certeza sobre o que se passa na mente desse personagem Não-POV.

A alternância de Clipes Privados e Clipes Públicos cria a ilusão narrativa do modo como o próprio leitor experimenta o mundo. Em resumo, vemos o que se passa ao nosso redor, interagimos, nos comunicamos ao mesmo tempo que temos experiências interiores, pensamentos, emoções e sensações privadas em nossa mente. Nos tentamos entender as outras pessoas através de suas ações, palavras, expressão facial e linguagem corporal, mas nunca temos certeza do que se passa no mundo interior das pessoas.

Os Clipes Privados mostram ao leitor o que está acontecendo dentro da mente do Personagem Ponto de Vista, suas emoções, sensações físicas e psicológicas, suas ações, falas, etc. O Clipe Público mostra ao leitor o que o Personagem Ponto de Vista observa ao seu redor, o que os outros personagens estão fazendo.

ESCREVENDO CLIPES PÚBLICOS

Um clipe público mostra ao leitor tudo que o Personagem POV pode ver, escutar, cheirar, sentir gosto ou tocar. Se o leitor sabe claramente quem é o personagem POV que está percebendo o mundo exterior em um determinado clipe, pode-se colocar o que ele está percebendo diretamente, sem precisar de usar verbos como “ele viu, escutou, sentiu” etc.

Em um Clipe Público, você usa qualquer combinação desses três elementos da trama: Ação, Diálogo e Descrição.

Exemplo de Clipe Público

Nesse exemplo, o personagem POV é Wolverine, que está junto com outros mutantes no salão principal do Instituto Xavier. O clipe mostra o que Wolverine vê, é um clipe público porque o que é narrado poderia ser visto e experimentado da mesma forma por outro personagem ao lado de Wolverine, ou seja, os pensamentos e emoções privadas de Wolverine não interferem na descrição do que acontece:

O Sentinela arrancou o teto do Instituto Xavier. Uma chuva de telhas, cimento, suportes de madeira e poeira caiu sobre todos os mutantes que estavam agrupados no salão principal.

_ Alvos identificados. Mutantes. Rendam-se ou morram! _ berrou o sentinela com sua voz metálica.

ELEMENTOS DOS CLIPES PÚBLICOS

  • Ação
  • Diálogo
  • Descrição

ESCREVENDO CLIPES PRIVADOS

Nos Clipes Privados você vai mostrar para o leitor o que o personagem POV (Ponto de Vista) faz, diz, sente ou pensa.

Exemplo de Clipe Privado:

Wolverine sentiu um arrepio percorrer sua coluna de adamantium.

“Droga, tenho que fazer algo”,pensou, enquanto suas garras emergiram das costas de seus punhos.

_ Colossus, arremesso especial, agora!

Sem esperar a reação do gigante russo, Wolverine correu e saltou na direção de seu parceiro.

O modo como se escreve os clipes privados depende muito do Ponto de Vista Narrativo que se escolheu. Os mais comuns são os de Primeira Pessoa (Eu fiz isso, Eu pensei aquilo), o Terceira Pessoa Subjetivo (Wolverine fez isso, Wolverine pensou aquilo), e o Terceira Pessoa Onisciente (Wolverine pensou isso, Colossos pensou aquilo, etc. nesse caso o autor diferencia qual momento da narrativa ele foca em qual personagen, evitando confundir o leitor).

ELEMENTOS DOS CLIPES PRIVADOS

  • Ação
  • Diálogo
  • Emoção Interior
  • Monólogo Interior

ALTERNANDO CLIPES PÚBLICOS E PRIVADOS

Uma das formas de criar imersão, ou a ilusão da realidade, é alternar Clipes Públicos e Clipes Privados. Essa alternância simula a percepção=reação-percepção-reação que faz parte da vida real.

Abra um best-seller, e veja como se dá essa alternância entre Clipes Públicos e Clipes Privados. Filmes também mostram isso claramente. É claro que muitos autores, depois de dominarem essa técnica, a quebram, fragmentado essa alternância para criarem novos efeitos narrativos. Mas a alternância entre clipes públicos e privados é uma técnica muito eficiente para MOSTRAR aou invés de CONTAR as cenas de sua história.

No próximo NitroDicas vou abordar a relação de Causa e Efeito ao intercalar Clipes Privados e Clipes Públicos, para manter a fluência e a plausabilidade da narrativa. Apenas para adiantar, normalmente se mostra primeiro o que acontece com mais rapidez. Por exemplo, em um clipe privado, normalmente se mostra as emoções interiores primeiro (as sensações físicas e emocionais), depois ações instintivas, pensamentos reativos ou diálogos reativos, seguido de ações mais racionais, diálogo e por último, monólogo interior (as reflexões internas, memórias, etc.).

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nitrodicas 18

Escrito por Newton Nitro

prof.newtonrocha@gmail.com

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Um comentário

  1. Tenho dificuldades em descrever cenários (ou cenas?) para os meus jogadores de RPG poderem visualizarem o local em que estão, mesmo suas dicas sendo para escritores elas serão muito úteis!

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