NitroDicas 16: Como Escrever Descrições – Elementos da Trama 8 #dicasparaescritores

Nesse NitroDicas, dicas e sugestões para escritores iniciantes, falo sobre Como Escrever Descrições, continuando a série sobre os Elementos da Trama.

Download do Texto do NitroDicas 16: Como Escrever Descrições – Elementos da Trama 8 (PDF)

nitrodicas 16

 

NITRODICAS 16 – DICAS PARA ESCREVER DESCRIÇÕES – ELEMENTOS DA TRAMA 8

Download do Texto do NitroDicas 16: Como Escrever Descrições – Elementos da Trama 8 (PDF)

A descrição (do latim descriptio, onis, figura, representação, de describere, escrever conforme o original, copiar, transcrever) é a enumeração das características próprias dos seres, coisas, cenários, ambientes, costumes, impressões etc. A visão, o tato, a audição, o olfato e o paladar constituem a base da descrição.

O estilo da descrição pode ser idealista se a fantasia do escritor embeleza o objeto descrito, ou realista quando busca o máximo de fidelidade na transposição.

TIPOS DE DESCRIÇÃO
Um texto descritivo pode ser apresentado de duas maneiras:

DESCRIÇÃO OBJETIVA
Quando se descreve os aspectos físicos e tangíveis de algo, como altura, largura, peso, cor etc, ou seja, a realidade concreta, como todo mundo vê o objeto.

DESCRIÇÃO SUBJETIVA
participação maior da emotividade de quem escreve, ou seja, tem foco nas impressões causadas pelo descritor nem sempre sendo comprovável por meio da observação.

Exemplo:

Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos, antipático, cabelo branco, curto e duro, como escova, barba e bigode do mesmo teor; muito macilento, com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho da pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre, perfeitamente de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios: viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até ao meio.

—Aluísio Azevedo, O Cortiço , Capítulo II

A descrição cria uma imagem na mente do leitor, como uma imagem em um filme.

DICAS PARA ESCREVER DESCRIÇÕES

1) Em POV limitado, mostre apenas o que o personagem pode ver, escutar, cheirar, sentir gosto ou tocar.

2) Use verbos e substantivos fortes. Se for usar um adjetivo, se pergunte se um substantivo forte poderia ser usado no lugar. Se for usar um advérbio, veja se pode colocar um verbo forte no lugar. Verbos e substantivos bem escolhidos e específicos deixam a prosa mais forte e viva.

Ex.:
O enorme homem desafiou Davi.
O gigante desafiou Davi (melhor)

Ela se moveu rapidamente até a sala.
Ela correu até a sala. (melhor)

3) Realce detalhes concretos e específicos que aludem implicitamente aos detalhes que você não está mostrando. Faça o seu leitor participar da história, conte com ele para preencher os detalhes que você aludiu. Observe os mestres da literatura usando esse tipo de técnica.

Ex.:
A oficina do ferreiro era enorme, com duas mesas, duas cadeiras quebradas, ferramentas espalhadas por todos os lados, poeira no chão (etc.etc.etc.). Tudo abandonado.

O martelo do ferreiro estava coberto de poeira e teias de aranha. Abandonado como o resto da oficina. (melhor)

4) Filtre as descrições pela mente e pelas emoções do personagem POV (se você tem um), de modo que sua VOZ apareça na narrativa.

“Quando a canção terminou, dos deuses só restava madeira carbonizada, e a paciência do rei tinha se esgotado. Pegou a rainha pelo braço e a levou de volta a Pedra do Dragão, deixando Luminífera onde estava. A mulher vermelha ficou um momento para trás, a fim de vigiar Devan e Bryen Farrung, que se ajoelharam e enrolaram a espada queimada e enegrecida no manto de couro do rei. A Espada Vermelha dos Heróis parece uma bela porcaria, Davos pensou.” George R. R. Martin, Fúria dos Reis, POV do Davos, o Cavaleiro das Cebolas.

Se for uma criança de POV, descreva usando o modo como uma criança vê o mundo. Se for um velho, da mesma forma. A prosa ganha força e aumenta a imersão. Infância, de Graciliano Ramos é uma obra-prima no uso dessa técnica.

5) Use as descrições dos outros personagens além do seu personagem POV para mostrar o que eles estão pensando e sentindo através da comunicação não-verbal. Use suas linguagens corporais, suas expressões faciais, seus tons de voz para dar insights ao seu leitor dos pensamentos e sentimentos desses personagens.

6) Se você estiver dentro do POV do seu personagen, muitas vezes, expressões como “ver”, “olhou”, etc, são desnecessárias.

Ex.:

Davos viu o rei dar um beijo na desgraçada da feiticeira vermelha. Maldita mulher!

O rei deu um beijo na desgraçada da feiticeira vermelha. Maldita mulher! (melhor)

DESCREVENDO OUTROS PERSONAGENS ALÉM DO PERSONAGEM POV

Como você não pode entrar na mente dos outros personagens além do seu personagem POV, você pode e deve usar a descrição para dar ao leitor uma visão da vida interior dos outros personagens, além de sua história pessoal, padrões de comportamento, personalidade, etc.

Algumas perguntas ajudam a descrever os demais personagens:

  • Como ele se veste?
  • Como ele é fisicamente?
  • Como ele se move?
  • Como ele fala?
  • Como ele olha?
  • Como ele cheira?
  • Como ele reage ao ser tocado?
  • Como ele interage fisicamente com os outros?
  • Qual é o tom da sua voz?
  • Ele tem tiques nervosos?
  • Ele tem hábitos?
  • Sua aparência é o oposto do que ele é realmente?
  • Sua aparência reflete o que ele é realmente?
  • Que tipo de passado ele evoca pela sua aparência?
  • Que tipo de passado ele supostamente evoca por sua aparência?
  • Ele representa algum arquétipo ou clichê?
  • Ele quebra algum arquétipo ou clichê?

DESCREVENDO O PERSONAGEM POV
Um dos recursos mais usados por escritores para descrever o Personagem POV é colocar uma cena onde o personagem se olha no espelho (ou seu reflexo em um lago, etc.). É tão usado que já virou uma espécie de clichê, ou seja, uma forma mais preguiçosa de escrever. Caso seja usado, deve-se cuidar para esconder ou retrabalhar essa cena para que não fique tão na cara. É claro que muitas vezes uma cena de POV se olhando em um espelho encaixa na história, mas com um pouco de criatividade, dá para fazer essa descrição de milhares de formas diferentes.

Você pode descrever o seu personagem POV pouco a pouco, não precisa ser de uma só vez, um detalhe ali, outro em outra hora.

Você pode deixar os outros personagens descreverem por meio de diálogo, tipo “Seus cabelos estão longos demais! Você tem que cortar essa juba!”, vinda de um outro personagem.

Você pode mostrar quem e como é o seu personagem POV pela reação dos demais personagens da história. “Eu nunca notei como seus olhos são verdes!”, por exemplo. Ou uma criança olhando para o seu personagem POV e chorando, o que mostra que ele é feito pra caramba!

Você pode fazer o personagem pensar e refletir como é a sua aparência por meio de um monólogo interior. Por exemplo “Eu sempre me achei feia. Todo mundo falava isso, menos minha mãe. Ela sempre dizia que minha pele azul era a herança de nossos belos antepassados, mas eu sempre odiei o modo como meus colegas de sala me chamavam de smurfete.”

USANDO SÍMILES E METÁFORAS PARA DAR VIDA ÀS DESCRIÇÕES

Símile é uma comparação de um termo com outro, através de um conectivo “como, assim como, que nem, qual, feito, etc.”

“Esta criança é forte como um touro.”

Metáfora é a figura de palavra em que um termo substitui outro em vista de uma relação de semelhança entre os elementos que esses termos designam. Essa semelhança é resultado da imaginação, da subjetividade de quem cria a metáfora.

A metáfora também pode ser entendida como uma comparação abreviada, em que o conectivo comparativo não está expresso, mas subentendido.

“Meu coração tombou na vida
tal qual uma estrela ferida
pela flecha de um caçador”.

Cecília Meireles

“Coração” com “Tal qual uma estrela”. Símile

“Para a florista,
as flores são como beijos
são como filhas,
são como fadas disfarçadas”.

Roseana Murray

“as flores são como beijos” – Símile

Se fosse “as flores são beijos” – Metáfora

A metáfora e a símile ajuda na descrição porque associa o que está sendo descrito com outras coisas que ele já conhece, ou que evocam uma sensação semelhante. Essas duas figuras de linguagem aumentam a subjetividade da prosa e a tornam mais imersiva. Como toda técnica narrativa, existe o risco do exagero de seu uso, o que pode causar o efeito inverso, tirar o leitor da narrativa por meio de uma símile ou uma metáfora mal feita ou esdrúxula.

Verbos também podem ser usados no sentido metafórico.

A vergonha queimava-lhe o rosto.
As suas palavras cortaram o silêncio.
O relógio pingava as horas, uma a uma, vagarosa mente.
Ela se levantou e fuzilou-me com o olhar.
Meu coração ruminava o ódio.

COMO CRIAR SÍMILES

Perguntas:

  • Isso parece com o quê?
  • Ao tocar é como o quê?
  • Gosto parecido com o quê?
  • Cheiro de quê?
  • Como um estranho reagiria ao ver,tocar,cheirar, isso?
  • Esse objeto,coisa,espaço,paisagem me faz pensar no quê?

OUTRAS FIGURAS DE LINGUAGEM

Antítese e Paradoxo

Antítese é a aproximação de ideias contrárias.

Ex.: Já estou cheio de me sentir vazio.

Paradoxo consiste na exposição de palavras contrárias.

Ex.: Ele não odeia, ama.

Na antítese, apresentam-se ideias contrárias em oposição.

No paradoxo, as ideias aparentam ser contraditórias, mas podem ter explicação que transcende os limites da expressão verbal.

Catacrese

É a figura de linguagem que consiste na utilização de uma palavra ou expressão que não descreve com exatidão o que se quer expressar, mas é adotada por não haver outra palavra apropriada – ou a palavra apropriada não ser de uso comum.

Ex.: Não deixe de colocar dois dentes de alho na comida.

Sinestesia

Consiste na fusão de impressões sensoriais diferentes.

Ex.: Aquela criança tem um olhar tão doce.

Disfemismo ou Cacofemismo

É uma figura de estilo (figura de linguagem) que consiste em empregar deliberadamente termos ou expressões depreciativas, sarcásticas ou chulas para fazer referência a um determinado tema, coisa ou pessoa, opondo-se assim, ao eufemismo. Expressões disfêmicas são freqüentemente usadas para criar situações de humor.

Ex.: Comer capim pela raiz.

Hipérbole

É a figura de linguagem que consiste no exagero.

Ex.: “Rios te correrão dos olhos, se chorares!”
Ex.: (…) E pro inferno ele foi pela primeira vez (…)

Metonímia ou Transnominação

Figura retórica que consiste no emprego de uma palavra por outra que a recorda.

Ex.: Lemos Machado de Assis por interesse. (Ninguém, na verdade, lê o autor, mas as obras dele em geral.)

Personificação ou Prosopopeia

É uma figura de estilo que consiste em atribuir a objetos inanimados ou seres irracionais sentimentos ou ações próprias dos seres humanos.

Ex.: (…) Eu vi a Estrela Polar / Chorando em cima do mar (…) 

Perífrase

Consiste no emprego de palavras para indicar o ser através de algumas de suas características ou qualidades.

Ex.: O rei dos animais (Leão) 
Ex.: Visitamos a cidade-luz (Paris) 

Ironia

Consiste em apresentar um termo em sentido oposto.

Ex.: Meu irmão é um santinho (malcriado).

Eufemismo

Consiste em suavizar um contexto.

Ex.: Você faltou com a verdade (Em lugar de mentiu).

__________________________

Download do Texto do NitroDicas 16: Como Escrever Descrições – Elementos da Trama 8 (PDF)

__________________________

REFERÊNCIAS

Wikipedia – Figuras de Linguagem
http://pt.wikipedia.org/wiki/Figura_de_linguagem

Novíssima Gramática – Domingos Paschoal Cegalla

Writing Fiction for Dummies – Peter Economy e Randy Ingermanson

_____________________

Escrito por Newton Nitro
prof.newtonrocha@gmail.com

Nitroblog
http://tionitroblog.wordpress.com

Anúncios

9 comentários

  1. Olá mais uma vez caro Newton Nitro.
    Antes de começar, eu quero deixar os meus mais sinceros agradecimentos pela sua iniciativa em compartilhar todas essas técnicas e dicas conosco. Acredite quando digo que sem os seus videos eu estaria muito longe de tornar a minha escrita o que ela é hoje. Não que eu seja um prodígio ou uma grande revelação no mundo literário, mas afirmo com orgulho que os meus textos estão excelentes se comparados a um ano atrás, quando eu decidi finalmente que eu escreveria algo digno de ser publicado. E por isso aceite os meus agradecimentos. Muito obrigado.
    Não querendo abusar muito da sua boa vontade, mas eu tenho algumas duvidas quanto a publicação com editoras.
    Primeiro, como eu faço para descobrir qual editora publica que tipo de livro. Pois não adianta enviar um livro de ficção para uma editora que só publica romance por exemplo.
    Segundo, como eu faço para enviar o meu manuscrito. Será que dá para enviar por email, ou isso depende de editora para editora. e no caso de depender, como eu descubro, será que eles dão esse tipo de informação por telefone.
    Terceiro, antes de enviar o meu manuscrito seria bom eu registra-lo, e como se faz esse registro, tem algum site especifico, é muito caro.
    Essas duvidas tem me atormentado demais, é que eu estou escrevendo um estória de ficção histórica, que retrata a atuação da FEB ( Força Expedicionária Brasileira ) durante a segunda guerra mundial. Ela tem saído melhor do que eu esperava, quando eu tive a ideia. E por isso quero tentar publica-la.
    Sem mais, e peço desculpa pelo comentário enorme, agradeço se tiver a gentileza de responder as minhas duvidas, ou pelo menos me passar o que você sabe sobre isso.
    Obrigado e até mais.
    Cesar Augusto Batista.

  2. Sim, sim.
    Esperamos que o Tio Nitro receba, em breve, um reconhecimento à altura de sua disposição para ensinar. Ele é um verdadeiro mestre (sem trocadilhos) da crítica literária, do mundo rpgístico, da língua estrangeira, etc.

    Que tal abrir uma oficina literária, ou algo parecido com isso?

  3. Olá Rubens! Obrigado pelo comentário!

    Cada livro exige um planejamento diferentes (e ainda tem livros que surgem inteiros na cabeça da gente!).

    Pesquisa é sempre muito bem vinda, o problema é se perder na pesquisa e nunca escrever o livro. Tem que colocar um limite, uma meta de tempo, tipo (vou pesquisar por três semanas somente e em seguida começar a primeira versão).

    Eu faço um caminho meio doido, eu faço um pouco de pesquisa e já começo a fazer um sumário narrativo do livro/conto. Estruturo as cenas do livro (ou pelo menos de 1/3 do livro) e parto para a primeira versão o mais rápido possível.

    Haverá outros momentos para você voltar a pesquisar, na hora de reescrever a segunda versão, pode ter certeza! :)

    Mas cada livro é um universo diferente, você tem que ver quais são as necessidades da história. O importante é escrever, em alguma hora você tem que escrever a famigerada e divertida primeira versão. Deixe a parte mais cerebral para a segunda, terceira, quarta, quinta versões.

    E também tenha cuidado para não cair na armadilha da reescrita eterna, escrever até ficar “bom o suficiente” e partir para o próximo conto/livro/crônica etc. porque é só terminando o que começamos é que melhoramos! (nú, rimou tudo!)

    Um grande abraço!

  4. Nitro, parabéns por mais um vídeo compartilhado.
    É nítida a sua paixão pela literatura e a sua boa vontade em compartilhar essas técnicas com o público.
    Vou ler os seus contos por aqui e estou ansioso por ler seus livros também.
    Tenho uma pergunta fora do contexto desse vídeo, se puder responder ou tratar disso em algum vídeo seria bem legal.
    Você acha legal fazer um planejamento, colhendo referências e informações antes de escrever a primeira versão do livro?
    Por exemplo pesquisando elementos que entrarão na trama para criar um universo verossímil, ainda que seja um mundo fantástico, anotando as ideias tidas com essa pesquisa.
    Ou o ideal é escrever a primeira versão por inspiração e só depois remodela-la com elementos pesquisados?
    Ou ainda, seria legal fazer uma pesquisa inicial só para ter um panorama onde ambientar o texto e depois uma outra pesquisa mais detalhada?
    Por exemplo, no caso de fazer uma história que se passa em outro país.
    Pergunto isso pois corre-se o risco de perde muito tempo pesquisando coisas que nem mesmo serão necessárias para a história, então qual a melhor forma de colher essa matéria prima para embasar o texto de uma forma mais prática e útil?

Deixe um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s