Testando Jogos no Laboratório de Jogos 2014 e reflexões sobre a Postura do Ator e do Autor! E Fotos! #nitrodungeon

Nos dias 18,19 e 20 de Abril de 2014, aconteceu, aqui em Belo Horizonte, o segundo Laboratório de Jogos, um evento doidimais organizado por um monte de gente interessada em criação de jogos e apoiado pela Secular Games e a loja de Jogos Kobold’s Den.

Para ter uma idéia de como foi o evento, dê uma olhada na programação )! Vai lá e dá uma lida! Impressionante não? E a dos jogos que foram testados no evento? Doidimais!

A idéia do Laboratório de Jogos surgiu de uma necessidade de reunir criadores de jogos de RPG independente, card games, jogos de tabuleiros, jogos de criação e contação de histórias e até mesmo LARPS (RPGs que se jogam em pé, interpretando personagens e situações como se fosse um teatro improvisado e interativo).

Eu participei ativamente do evento do ano passado, e curti muito a energia e as discussões sobre design de games que aconteceram. Nesse ano, como estou focando mais na minha produção de escrita de ficção, decidi participar dos playtests (jogos de teste) dos jogos inéditos trazidos pelos participantes.

Nesse ano, como no ano passado, a programação do Laboratório de Jogos se dividiu entre jogos de teste e demonstração na parte da manhã (e que tiveram entrada gratuita!) e com discussões, workshops e labtalks (palestras) na parte da tarde e noite, todas relacionadas com criação de jogos.

DSC02776

 

A energia do evento estava em alta, dava para ver a inspiração e a vontade de criar brilhando nos olhos de todo mundo que participou.

O evento também reuniu muita gente que eu só conhecia pela internet, e deu para rever muito da galera que veio no ano passado.

Como disse nas minhas impressões do evento do ano passado, o Laboratório de Jogos é inspirador, passa aquela sensação de estar vivendo um momento único, aquele clima de agitação cultural, de energia criativa.

Já que eu não participei das atividades da parte da tarde, nesse post vou colocar as minhas impressões do jogo que testei na sexta-feira de manhã. No próximo post eu falarei um pouco do jogo que testei no sábado.

SEXTA DE MANHÃ

O JOGO – AS CRÔNICAS PÉRFIDAS DE RICKART WICK
De: Julio Matos
Sistema: Apocalypse Engine Hack
Horário: Dia 18 – 09:00 às 13:00
Jogadores: 4 jogadores

Resumo: O Jogo é um Hack da Apocalypse Engine focado em histórias de intriga e subversão de valores. Nele você vai colocar seu personagem a prova de tudo que ama, para servir a um Nobre de moral duvidosa. Cumprindo as apostas de seu Patrono, você verá crescer o Rancor em seu coração liberando pérfidos movimentos em uma espiral de decadência!

DSC02741

 

 

Cheguei no Laboratório de Jogos mais cedo, para conferir o lugar. O Laboratório de Jogos 2014 aconteceu no Soleá, um restaurante espanhol-gitano de inspiração flamenca, e o lugar é sensacional! A decoração é toda dentro de um clima flamenco, com bandeiras, quadros com gitanos e gitanas, tudo dando um clima inspirador de taberna renascentista.

O lugar foi enchendo aos poucos na manhã de sexta, e procurei um jogo para testar. Quando descobri que o Julio Matos, um dos criadores (junto com Fabiano Saccol) do ótimo UED (United Defense Force, que eu joguei uma partida que pode ser vista nesse link ).

“As Crônicas Pérfidas de Rickart Wick” é um jogo que usa uma variação do sistema de regras do famoso Apocalypse World ( tem uma resenha/reporte do Rocha nesse link que é muito boa!) , que por sua vez foi a base do Dungeon World (publicado pela Secular Games , saiba mais nesse link: http://www.secular-games.com/dungeon-world/ . Como eu nunca joguei Apocalypse World e apenas li as regras do Dungeon World, estava curioso de como um jogo inspirado nessas regras funcionava na prática.

O jogo começou com o set-up, a criação do cenário da aventura. De cara curti demais, como eu já estava na pilha de conspiração renascentista depois de assistir três temporadas da fodásica série The Borgias  e o cenário da aventura era muito semelhante, se passando na Gênova da renascença.

Seguindo as regras do “Crônicas”, criamos os personagens, com seu segredos, desejos, histórico, possessões e seus valores mais importantes. A idéia básica do jogo é que esses personagem tem uma dívida com uma pessoa importante, um Patrono, e esse Patrono forçará o personagem a realizar tarefas desagradáveis, que gerarão rancor e um eventual conflito (ou não) com o Patrono ou com os outros personagens.

O setup foi muito legal, cheio de clima renascentista. Minha personagem foi a Lucrécia Orsini, uma cafetina dona de uma casa de prostituição e que tem uma filha bastarda com seu patrono, um poderoso banqueiro de Gênova. Os demais personagens também eram muito interessantes; um mercenário germano do norte, um relojoeiro assassino e um místico muçulmano sufi.

O jogo rolou numa boa, até que um conflito entre o meu personagem e outro personagem me mostrou que eu não tinha entendido bem as regras.

O que aconteceu, eu acho, é que o “Crônicas” pede uma certa distância do jogador com o seu personagem, para dar espaço para as regras interferirem e direcionarem o resultado dos conflitos.

Como eu estava jogando dentro da postura de ator, totalmente imerso no meu personagem, achei estranho ter que parar a ação no meio da representação para alterar a própria representação, ou melhor, suspender a representação até que a invocação de uma das regras do jogo resolvesse o desenrolar da cena.

Imagino que se jogasse mais vezes eu internalizaria essas regras e a quebra da postura de ator não seria tão forte.

Esse fato me fez refletir sobre a postura do ator e do autor em jogos mais narrativos.

A postura do ator é quando representamos um personagem de dentro, imersos na alma do personagem e vendo a cena de seu ponto de vista.

A postura de autor é quando vemos a cena, o personagem, o cenário e a narrativa de fora do personagem, como se fôssemos o autor.

A maioria dos RPGs mistura a postura de autor e de ator em diversos momentos do jogo. Alguns RPGS, como Mouse Guard por exemplo, separam bem os dois momentos de postura de autor e de autor.

Outros jogos, como Larps e Lives, são feitos quase sempre dentro da postura de ator, com a postura de autor aparecendo na parte de setup das situações a serem experienciadas no larp.

E ainda existem jogos que propõe uma situação híbrida, e jogos que propõe uma postura de ator que não seja completamente imersiva.

Achei interessante conversar sobre isso, que é um aspecto que muitas vezes passa batido quando se desenvolve jogos de RPG.

Quando a Postura de Ator e a Postura de Autor entram em conflito; por exemplo, quando em meio a uma representação de personagem a naturalidade da cena é interrompida por regras que alterarão o comportamento do personagem, isso pode causar, em alguns jogadores, um momento desagradável.

É o famoso “o meu personagem não agiria assim”, que surge depois que uma regra interrompe um momento de Postura de Ator.

A postura de Ator tem sua própria dinâmica, que muitas vezes não combina com a postura de Autor.

Imaginei que seria legal ter jogos que foquem apenas em uma das duas posturas, o que os tornariam mais coerentes e menos propensos a problemas. Ou que os momentos de usar uma ou outra postura fosse bem diferenciados, com as regras levando em conta as diferentes características dessas posturas.

Um jogo de postura de autor não se preocuparia com momentos de atuação e sim focaria na criação de uma narrativa. Poderia usar mecânicas de edição, de reviravolta de trama, de arco de personagem, de colocação e criação de cenas extras na narrativa, etc.

Um jogo de postura de ator não se preocuparia com mecânicas de narrativas e sim focaria no setup e libertaria os jogadores para representar seus personagens, com regras fossem minimamente intrusivas para deixar a imersão conseguir todo o seu potencial.

Bem, acho que deu para dar uma idéia de como é o clima do Laboratório de Jogos. Toda essa discussão sobre posturas de ator e autor surgiram no feedback após o teste do “Crônicas”. E imagino que o mesmo aconteceu com os diversos outros jogos testados no evento.

No próximo post, eu vou colocar a minha experiência com o segundo jogo que testei, o Heróis Modernos, do criador João Mariano.

Conheçam mais o trabalho do Julio Matos no link do seu jogo UED RPG .

E vamos criar jogos de RPG porquê RPG é DOIDIMAIS VÉÉÉÉI!

FOTOS DO EVENTO

DSC02734 DSC02735 DSC02736 DSC02737 DSC02738 DSC02739
DSC02743 DSC02744 DSC02745 DSC02746 DSC02747 DSC02748 DSC02749 DSC02750 DSC02751 DSC02752 DSC02753 DSC02754 DSC02759 DSC02760 DSC02761 DSC02762 DSC02763 DSC02764 DSC02765 DSC02771 DSC02773 DSC02775
DSC02780 DSC02781 DSC02783

Anúncios

2 comentários

  1. Muito boa resenha do playtest, Nitro. Queria só dizer que eu não me importava nada de ter criado o UED mas o mérito é todo do Júlio Matos e do Fabiano Saccol, eh eh.

Deixe um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s