Como Criar e Editar Cenas! Dicas do Scene and Structure do Jack Bickham #dicasparaescritores #nitroblog

O “Elements of Fiction Writing”  é uma série de livros extremamente úteis para escritores, cada livro focando em elementos essenciais da escrita. Estou lendo em ordem, e finalmente cheguei no Scene and Structure, de Jack Bickham, que apesar de pequeno, é um dos melhores e mais claros guias sobre Cena e Estrutura narrativa.

A idéia por trás da coleção Elements of Fiction Writing é passar os conceitos básicos da arte da escrita, acumulados pela experiência dos escritores. Assim como uma pessoa que for trabalhar com design gráfico deve aprender conceitos como “contraste”, “composição”, “paleta de cor, de tons”, etc. um escritor só tem a ganhar ao aprender conceitos básicos como cena, sequência, conflito, estímulo-resposta, internalização, etc. De posse dessas ferramentas técnicas, o foco do esforço do escritor fica mais ligado a parte de criação e arte.

O livro procura responder várias perguntas do ponto de vista de um escritor, como, por exemplo:

  • O que é uma cena?
  • Qual é o propósito de uma cena em uma narrativa?
  • Como uma cena se posiciona dentro de uma estrutura narrativa?
  • Qual é a estrutura de uma cena?
  • Como se conecta uma cena com outra?

Bickham responde essas e muitas outras perguntas em grande detalhe, e com exemplos práticos (que correspondem a uma grande parte do livro, e ajudam muito na compreensão). Os exemplos servem para ilustrar os princípios e técnicas discutidas ao longo do livro.

Fica a recomendação, o livro é muito bom para se compreender e usar o conceito de cenas e de sequências, entre outros.

Durante a leitura fiz algumas anotações, que vou postar logo abaixo. Espero que sejam úteis, mesmo sem os extensos exemplos que aparecem no livro. E isso é só algumas coisas que peguei do livro, uma pequena parte, que certamente vou colocar em vídeos posteriores do NitroDicas. :D

scene and structure cover jack bickham

ANOTAÇÕES DO SCENE AND STRUCTURE

Fatos sobre leitores:
* Eles, em sua maioria, são fascinados por mudanças significativas na vida dos personagens.
* Eles, em sua maioria, querem uma história que comece com tal mudança.
* Eles, em sua maioria, querem ter uma “pergunta de história” para se preocuparem. (será que o protagonista vai ser bem sucedido? vai sobreviver? vai conseguir o amor de sua vida? vai fugir? vai vencer a oposição? etc.)
* Eles, em sua maioria, rapidamente perdem a paciência com tudo que não estiver relacionado diretamente com a “pergunta da história”.

Plano para estruturar uma trama de história:

1. Considere todos os materiais que você imaginou. Identifique, na sua história, os momentos em que as cenas importantes acontecem. Elimine tudo que não contribua para o impacto emocional e o entendimento dessas cenas importantes.

2. Pense sobre o que motiva o seu personagem, o que o incomoda, o que poderá causar a maior reação emocional nele e que tipo de vida anterior ele teve que o levou a reagir dessa forma. Planeje cenas que ataquem diretamente essa motivação, esses pontos fracos do seu personagem.

3. Identifique ou crie uma situação dramática ou evento que irá colocar o seu personagem em um momento significante e ameaçador de mudança.

4. Planeje a sua narrativa para abrir com esse evento significante de mudança.

5. Decida qual é a intenção ou objetivo que seu personagem mais importante terá para resolver a nova situação que se encontra, depois da mudança significativa na cena inicial da narrativa. Esse objetivo se transformará na “pergunta da história” , que surgirá na mente do leitor.

6. Imagine como será a jornada do protagonista para alcançar o seu objetivo principal.

7. Imagine quando e como a pergunta da história será resolvida.

8. Com o ponto de partida e de chegada planejados (ou esboçados), desenvolva as narrativas paralelas que acontecerão no meio, lembrando que elas devem sempre orbitar em torno da pergunta principal da história.

A narrativa contemporânea é rápida, ágil e direto ao ponto. Sua unidade básica é o estímulo – resposta, as frases que compõe as cenas se alternam (ou deveriam se alternar) entre estímulo e resposta.

Estímulo + Internalização + Resposta geram o fluxo narrativo e tornam plausível para o leitor, mantendo a suspensão de descrença necessária para se imergir em uma história. A alternância de Estímulo+Internalização+Resposta gera a “ilusão de realidade”.

Exemplo:
“Pedro viu a onça em cima da árvore” (estímulo)
“Ele engoliu seco e pensou “vou morrer agora!” (internalização)
“Ele sacou sua pistola e deu um tiro.” (resposta).

Quando a narrativa mostra “respostas” sem ligá-las a um “estímulo” claro, o leitor fica confuso e quebra a suspensão de descrença.

Exemplo:
“Ele engoliu seco.” (internalização)
“Ele sacou sua pistola e deu um tiro.” (resposta)
“Pedro viu a onça em cima da árvore” (estímulo)

Em cada simples construção de narrativa em termos de causas e efeitos ou melhor, estímulos e respostas, deve se manter os seguintes princícios em mente:

1. Estímulos precisam ser externos, ou seja ação, diálogo, algo que pode ser testemunhado como se estivesse sendo feito em um palco de teatro.

2. Respostas também são externas, da mesma maneira que os estímulos.

3. Internalizações, como próprio nome diz, são internas, são as emoções, os pensamentos, as sensações, que o personagem ponto de vista da cena sente em relação ao estímulo.

4. Para cada estímulo você precisa mostrar uma resposta.

5. Para cada resposta desejada (ou para cada ação do personagem), você precisa criar e mostrar para o leitor um estímulo ou uma motivação internalizada. (decisão feita a partir dos pensamentos do personagem ponto de vista).

6. Uma resposta deve se seguir diretamente a um estímulo.

7. Se a resposta a um estímulo não parece lógica na superfície, você precisa explicar posteriormente ou dar bases lógicas para a resposta antes dela acontecer.

8. O Padrão Básico é Estímulo – Resposta ou Estímulo – Internalização – Resposta.

9. Você trabalha a Internalização quando for necessário transformar uma transação (estímulo – resposta) da narrativa em algo compreensível e com credibilidade.

Veja na sua própria escrita. Cheque cuidadosamente para ter certeza que você está mostrando as causas para os efeitos desejados, e está mostrando os efeitos de causas que já apareceram em momentos anteriores da narrativa.

Olhe também, para suas menores transações de estímulo-resposta:

Para cada estímulo, você mostra uma resposta?

Para cada resposta, você mostrou um estímulo externo e imediato?

Em transações complexas, em momentos complexos da narrativa, você passou informação para o seu leitor por meio de uma internalização explicativa?

Internalização é o monólogo interior, os pensamentos, emoções e reações internas do seu personagem POV (o que tem o Ponto de Vista narrativo da cena).

O PADRÃO DE UMA CENA

Existem tradicionalmente dois tipos de elementos narrativos básicos, as Cenas e as Sequências.

CENAS são os momentos EXTERNOS em que o protagonista está ativo na trama, onde ele age no mundo em sua volta em busca de um objetivo. O foco de uma Cena está na interação do personagem com o mundo ao seu redor. Podem e devem conter internalizações curtas, mas o foco está nos eventos externos.

SEQUÊNCIAS é a reação INTERNA ao que aconteceu em uma Cena, uma reação interior, ou uma verbalização de um processo interior de reação, entendimento, reflexão e criação de um novo objetivo. É o momento narrativo que o personagem reage ou digere psicológicamente o que aconteceu na Cena. É uma internalização extensa.

As Sequências são bons momentos para se colocar um flashback (uma cena que se passa no passado) ou um backflash (uma frase que alude rapidamente a eventos no passado).

Sequências podem (e devem) conter eventos externos, mas estes são curtos ou servem apenas de base para a sequência (por exemplo, uma sequência clássica é o protagonista confessando seu drama interno para um amigo íntimo, a conversa é uma ação externa mas o foco narrativo está nas reações emocionais e posteriormente racionais do protagonista ao que acontece nas cenas anteriores).

A prosa contemporânea mistura esses dois momentos em configurações complexas, com cenas e sequências se alternando rapidamente. Porém, a título didático, é interessante notar esses dois momentos, o momento do foco nas Açôes Externas e o momento do foco nas Reações Internas dos protagonistas de uma narrativa.,

Além da Cena e Sequência, temos CENAS DE PREPARAÇÃO (partes de Cenas onde se prepara o conflito, criando o background necessário para que o impacto emocional do desastre ou complicação no final da cena seja enfatizado) e TRANSIÇÕES (parágrafos que estabelecem transições de tempo e espaço entre as Cenas e Sequências, normalmente feitos em sumários narrativos.

ESTRUTURA DE UMA CENA

Uma cena normalmente é estruturada da seguinte forma:

1) Declaração do Objetivo da Cena
Essa declaração é normalmente feita pelo personagem mais envolvido no conflito da cena.
Exemplo: A cena começa com um personagem gritando “eu vou te matar!”, claramente mostrando o objetivo principal do conflito central da cena. Existem milhares de formas de mostrar ou declarar o objetivo de uma cena.

2) Introdução e desenvolvimento do conflito central da Cena.
Esse é o coração de uma cena. Enquanto houver conflito, a cena mantém o interesse do leitor e mantém sua tensão. No momento em que o conflito é resolvido, a cena se encerra. O conflito deve ser mantido em uma crescente de dificuldades para o protagonista, uma crescente de complicações.

3) Falha, complicação final, desastre, uma vitória parcial, ou outra variação que leva a trama adiante.

É o que acontece com o personagem em sua tentativa de atingir o seu objetivo na cena.

Ao criar cenas é importante considerar os objetivos dos personagens envolvidos em uma cena, os ângulos do conflito (os diversos interesses envolvidos no conflito de uma cena), e a natureza da complicação que fechará a cena, e a direção que essa complicação dará para a narrativa.

Ao editar cenas, observe os seguintes pontos:

1) O objetivo das cenas devem estar relacionados com a questão principal da narrativa.

2) O conflito de uma cena tem que estar relacionado com o objetivo do protagonista nessa determinada cena. Se o objetivo do protagonista em uma cena muda, o conflito deve mudar de acordo.

3) O conflito em uma cena deve ser com outra pessoa, ou outro elemento externo. Conflitos internos acontecem em sequências ou são apenas pontilhados em uma cena por meio de internalizações curtas. Quando essas internalizações aumentam de tamanho, uma sequência se inicia dentro de uma cena, o que torna a narrativa mais lenta (mas que pode aumentar o realismo psicológico, caso seja necessário).

4) Cenas não podem ser planejadas isoladamente, elas devem estar integradas com suas sequências e com toda a narrativa.

5) O melhor é manter um Ponto de Vista por cena, para evitar confusões na leitura. Como toda regra de narrativa, existem exemplos de grandes mestres da literatura que quebram essa dica, mas eles assim o fazem com algum objetivo específico e contextualizado na narrativa.

ERROS COMUNS EM CENAS

Uma cena com muitos personagens envolvidos, tende a diminuir o conflito. O melhor conflito é entre duas pessoas, ou, se houver muitos personagens em uma cena, usar de artifícios para centrar o conflito entre dois personagens mais importantes para a cena.

1) Circularidade do conflito.
O conflito tem que ser resolvido, de uma forma ou de outra, de preferência, causando complicações para o protagonista. Se o conflito chega a um impasse e a narrativa fica apenas repetindo o conflito, a trama para e a cena perde o seu sentido dentro da narrativa.

2) Perder o foco da cena.
Um conflito por cena é o ideal.

3) Antagonista sem motivação em relação ao conflito principal da cena.

4) Discórdia sem base lógica dentro da narrativa, o famoso “discordar por discordar”.

5) Desastres ou complicações do final da cena que são “forçadas”, ou causadas por algo que não tem relação direta com a cena.

ESTRUTURA DE UMA SEQUÊNCIA

Uma Sequência tem a seguinte estrutura (mas não necessáriamente todos esses elementos):

1) Reação emocional e física ao que aconteceu na cena.

2) Reação racional, dilema, busca de um novo objetivo, de uma solução para superar o desastre ou complicação causada pela cena.

3) Criação de um novo objetivo, cuja busca irá gerar uma nova cena.

Uma sequência começa para o seu personagem POV no momento em que uma cena termina. Atingido pelo desastre ou complicação do final da cena, o personagem reage emocionalmente, seguido mais tarde por um período de reflexão, que pode, cedo ou tarde, se transformar em uma nova decisão, em um novo objetivo que o levará a uma nova cena.

Uma sequência se estrutura em

EMOÇÃO – PENSAMENTO – DECISÃO – AÇÃO

Cenas são excitantes, cheias de conflito, ação, diálogo, ou seja, de leitura rápida. Mais cenas deixam o livro de leitura mais rápida e excitante, porém as sequências são necessárias para dar mais profundidade psicológica aos personagens e aumentar a plausabilidade da história.

Sequências, por outro lado, são reflexivas, psicológicas, emocionais, podem ou não conter memórias, considerações, ter sumários narrativos expositivos etc. As sequências tornam a leitura mais lenta, mas servem para aprofundar na caracterização e dão mais realismo psicológico para a história.

O segredo é equilibrar Sequências e Cenas dentro da proposta da narrativa. Narrativas de ação, por exemplo, tentem a ter mais cenas do que sequências, e as sequências, quando aparecem, são curtíssimas, servindo apenas para que o protagonista tome fôlego para uma nova cena.

Romances mais literários (por exemplo, livros da Clarice Lispector), costumam possuir mais sequências do que cenas, muitas vezes porque o foco narrativo está na exploração da psicologia dos personagens.

Cada escritor deve dosar cenas e sequências em suas narrativas. Se a história está rápida demais, aumente as sequências. Se está arrastada e lenta, diminua as sequências e crie mais cenas.

VARIAÇÕES DE CENAS E SEQUÊNCIAS

Os escritores tendem a variar e a elaborar estruturas complexas com esses elementos, por exemplo combinando duas cenas e suas sequências em uma unidade narrativa, criando cenas que acabam sem que o conflito principal esteja resolvido, colocando mini-sequências dentro de uma cena, criando uma narrativa externa (o que acontece do lado de fora do personagem) e uma narrativa interna (o que acontece do lado de dentro do personagem), etc.

Quanto mais terrível for o desastre no final de uma cena, mais desenvolvida terá que ser sua sequência; pois o personagem terá que fazer uma jornada psicológica mais profunda, para se recuperar da gravidade do desastre, se reestruturar e criar um novo objetivo.

ALGUMAS DICAS ADICIONAIS

1. Tenha certeza que o objetivo da cena seja claramente relevante para a narrativa e esteja ligado à pergunta principal levantada pela história (a pergunta da história, por exemplo, no Senhor dos Anéis, é “Será que Sauron será derrotado?” e as cenas da saga, de um modo ou de outro se ligam a essa pergunta).

2. Declare por meio da narrativa, a relevância da cena descrita. Quanto mais claro melhor!

3. Tenha certeza que você passou para o leitor as motivações do personagem antagonista de uma cena, ou faça que o antagonista declare sua motivação (ou demonstre) logo no começo de uma cena. Observe esse padrão em filmes e livros, e veja como diferentes autores lidam com o antagonismo em suas cenas.

4. Busque sempre novos ângulos em um conflito de uma cena, novas formas de complicar e aumentar a tensão de uma cena.

5. Reflita e trabalhe a complicação ou desastre que encerrará a cena, buscando surpreender o leitor ao mesmo tempo que se mantém coerência narrativa. Faça uma lista de várias formas de complicações diferentes para encerrar uma cena e escolha a que vai causar mais dificuldades para o protagonista. Provavelmente será a que vai causar mais surpresa para o leitor.

6. Diálogo é uma ferramenta para criar conflitos em sua narrativa. Conflitos e como seus personagens reagem a eles é uma ferramenta de caracterização. Use-os!

7. Lembre-se, ao construir o conflito dentro de uma cena e planejar o seu desastre, de que as pessoas não são completamente racionais, especialmente em situações de estresse. Faça o seu antagonista perder o auto-controle ou fazer algo que seria loucura em outras circunstâncias. Pense sobre esse personagem que você construiu e se sua loucura parece estar “dentro do personagem”, se está contexualizada na cena, e depois pense se ele pode cometer algum erro estúpido. Os personagens de sua história, mesmo nas cenas mais difíceis, não devem ser robôs racionais (a não ser que isso seja a definição do personagem). Seres humanos são incoerentes, imprevisíveis, principalmente em situações de conflito.

8. Ao revisar uma cena, sempre pense em como você pode aumentar o seu impacto na narrativa, pense se ela está desenvolvendo personagem, avançando a trama ou compondo e reforçando o tom e o tema da narrativa. Uma cena deve sempre trabalhar um ou mais desses elementos.

9. Nunca deixe seus personagens relaxarem em uma cena, mantenha sempre a tensão, a ansiedade do resultado, o conflito que mantém o seu protagonista lutando, buscando, enfrentando, agindo dentro de uma cena.

TRANSIÇÕES

Transição é uma declaração direta ao leitor indicando uma mudança de tempo, lugar ou ponto de vista da narrativa, ligando uma cena a outra, ou uma cena a uma sequência. Por exemplo “três horas mais tarde, na delegacia do Delegado Gordon…”. Transições podem ser simples ou complexas, podem intercalar cenas ou acontecer dentro de uma cena, ligando dois momentos diferentes.

CENAS DE PREPARAÇÃO (SETUP SCENES)

São cenas que não possuem conflito e que servem apenas para caracterizar, e criar um background para o conflito principal de uma cena futura. Um exemplo clássico é a série de mini-cenas de um casal de namorados passeando em vários lugares, trocando juras de amor e carinhos, que serve para aumentar o impacto emocional de uma cena de separação, que acontecerá mais tarde. Uma dica com Cenas de Preparação é que devem ser curtas, ou conter mini-conflitos não tão relevantes assim e que sirvam apenas para caracterizar ou reforçar tom e tema da narrativa.

DIVISÃO DE CAPÍTULOS

O melhor lugar para encerrar um capítulo é no final de uma cena, no desastre ou complicação que encerra a cena.

Outra opção é encerrar um capítulo no final de uma sequência, onde o personagem conseguiu criar um novo objetivo que dará prosseguimento a trama.

Não existe nenhum padrão para o tamanho de capítulos. Alguns escritores gostam de capítulos curtos, para serem lidos em uma sessão de leitura de 20 minutos. Outros preferem capítulos mais longos. O importante é manter um senso de narrativa, os capítulos devem dar o ritmo e manter o leitor querendo ler mais.

Use o espaço entre os parágrafos como transições, para introduzir um novo ponto de vista, para introduzir uma passagem de tempo, etc.

DICA MAIS IMPORTANTE DE TODAS

Escreva, escreva e escreva mais. Todas essas regras, dicas e conceitos básicos devem ser experimentados, postos em prática. Ao escrever a Primeira Versão de um texto, não se preocupe com essas dicas. Escreva livremente. No momento da reescrita, da edição, de usar o modo editor da mente, esse é o momento de aplicar as dicas, os conceitos básicos de narrativa, para deixar mais claro, mais dinâmico e chegar mais próximo da proposta do seu subconsciente no momento da criação.

Escritores mais experientes, depois de dominar esses conceitos básicos de cena, sequência, transições, arcos de personagem, cenas de preparação etc. costumam quebrar, alterar, inverter, criar novas configurações complexas, etc. Não existe regra alguma que não é quebrada por este ou outro escritor de maneira bem sucedida. Cada narrativa é um universo próprio e possui necessidades próprias.

E mais uma vez, o segredo é LER,LER,LER, ESCREVER, ESCREVER, ESCREVER, REESCREVER, REESCREVER, REESCREVER! :)

Onde Comprar o Livro

Elements of Fiction Writing - Scene & Structure by Jack Bickham Elements of Fiction Writing – Scene & Structure

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12 comentários

  1. Gostei muito mesmo das suas dicas: abordam o principal, sem rodeios e com exemplos. Obrigada , pois seu. Blog tem me ajudado
    bastante.

  2. Olá Marcus!

    Eu adorei o seu comentário, é muito pertinente, o conflito entre o editor e o criador existe em todos os escritores. Eu mesmo passei anos com essa disputa diminuindo a minha produtividade.

    O que me tirou disso foi o conceito do “good enough”, o “bom o suficiente”. Escreva e reescreva até chegar no “bom o suficiente” e passe para o próximo texto. É mais gratificante do que ficar martelando e polindo além do razoável.

    Outra experiência que mudou minha vida de escritor foi o Nanowrimo, o desafio anual de escrever 50 mil palavras em um mês, que força a liberar e soltar o lado criador. É uma experiência fantástica, que recomendo para todos, é uma redescoberta do desejo e do prazer da escrita.

    Se você se sente muito “travado” por causa dos conhecimentos técnicos, tire umas férias disso e escreva por um mês sem parar, sem editar, direto, “escrita livre total”, sem auto-censura. Se liberte, crie uma história louca, siga o personagem para onde ele for, sem se preocupar com cenas, ponto de vista, etc. Vá pelo prazer.

    Depois de um dia, uma semana, um mês etc. escrevendo assim, você vai ver que o lado criador é muito forte (na verdade ele é mais forte do que o lado editor, pois é libido pura), e, acredito, sentirá a diferença entre usar o criador e o editor. Para mim são como duas partes diferentes de minha alma, e sentir essa diferença ajuda a colocar um de lado e entrar o outro.

    O editor tem que ser durão mesmo, mas tem que agir na sua hora e não na hora de criar. Eu estou escrevendo assim nos últimos três anos e minha produtividade aumentou muito. :) É muito subjetivo mas espero que te ajude!

    Um forte abraço! :D

  3. Eu sei, Tio Nitro.

    Eu vejo fanaticamente tudo que você publica desde a época que você fazia o Nitrocast (que foi uma grande inspiração para as minhas sessões de RPG). Sou quase um cyberstalker. É claro que, atualmente, quase não entro mais no NitroDungeon. Quando você criou esse outro blog, eu migrei. E meus interesses já tinham mudado também. Eu me lembro disso tudo que você disse, só fui um pouco desatento.

    Eu li alguma coisa do Aristóteles, acho que foi A Poética, que eu pensei que fosse sobre poesia, mas, na verdade, era um livro sobre teatro e tal. Isso foi quando eu estava vidrado nos roteiros (e no método de trabalho) do Aaron Sorkin, e ele o citou em uma entrevista.

    Na escola, eu aprendi – ou melhor, não aprendi – uma estrutura bem básica: situação inicial, ação modificadora, ação perturbadora, etc. Só que nesse tempo (de rebeldia) eu não acreditava muito nisso e escrevia mais livremente (meus textos eram péssimos, mas pelo menos eu conseguia me fixar em um único projeto até o fim). Depois eu comecei aceitar que aquilo era trabalho e procurei melhorar. Só que eu era muito mais seguro antigamente, agora (depois de aprender zilhões de métodos e estruturas diferentes) eu estou tendo mais dificuldades de escrever. Talvez seja isso do lado editor e o lado criador estarem funcionando ao mesmo tempo.

    É a questão do perfeccionismo (o que me aproximou muito dos trabalhos do Tolkien). Tolkien era obcecado por melhorar os seus escritos (e daí demorou 12 anos para terminar o Senhor dos Anéis). Só que no ensaio Sobre Contos de Fada, ele me pareceu muito mais preocupado em criar um clima do que todo o resto. Eu até pensei que ele passaria por aquelas 31 funções do Conto Maravilhoso observadas pelo Vladimir Propp, mas nem isso. Entretendo, consciente ou inconsciente, os livros do Tolkien seguem quase o mesmo paradigma que depois foi descoberto, aprimorado, e adotado pela Disney (você já deve saber do Paradigma Disney).

    Peço desculpas se pareci invasivo (ou alguma coisa do tipo), eu sofro de uma espécie de timidez virtual. No mundo “real” eu consigo fazer os meus comentários ficarem mais digeríveis controlando o meu tom de voz. No cyberespaço, isso é mais difícil para mim. E me preocupo demais com isso (fico meio paranoico), o que só piora as coisas. (Acho que é o lado editor entrando em conflito com outro até mesmo quando vou fazer comentários em um blog). E quando eu comentei, eu só estava tentando descobrir o que você pensava – da maneira mais rápida possível.

    E é claro que eu concordo com tudo isso sobre que você disse sobre conhecimento e atalhos. Acho que não poderia existir um escritor como o Ryoki Inoue, nosso conterrâneo, se não fosse assim. Um cara que escreve mais de mil e cem livros é uma prova viva de que escrever é muito mais trabalho pesado do que inspiração.

    Eu só queria ter 1% da produtividade dele. Acontece que ultimamente eu peguei a mania feia de descartar histórias. Não sei como me livrar disso. Existe alguma técnica mais eficaz para separar o lado criador do lado editor?

    P.S: E me desculpe por esse momento autoanálise, espero poder retribuir de alguma forma no futuro.

  4. Olá Marcus!

    Essas dicas são para serem usadas na reescrita e edição de textos, e não na hora da criação. Fiz um vídeo sobre o modo Criador e o modo Editor.

    O Tolkien certamente conhecia muito sobre composição literária, estrutura narrativa, entre todos os demais conhecimentos que envolvem a estrutura narrativa. Esses conhecimentos de composição, cenas, etc. são antigos (vem de Aristóteles), e os manuais de guias para escritores de hoje são simplificações e atualizações desses conhecimentos.

    Tolkien (e muitos dos autores clássicos) dominavam completamente esses conceitos de composição. É uma falha horrenda da nossa pobre educação brasileira que não aborda esses tipos de conceitos.

    Bloqueio de escritor surge quando o lado criador e o lado editor estão funcionando ao mesmo tempo. Sabendo ou não dos conceitos básicos, você pode travar quando não solta o seu lado criador e pega para editar em um outro momento. Eu sou um nerd horrendo, acredito no poder do conhecimento para ajudar e iluminar, poupar tempo com dicas e insights que muitos escritores levam a vida inteira para descobrirem.

    Mas cada um é cada um, escrever é totalmente subjetivo e cada escritor deve descobrir seu próprio caminho. Muito obrigado pelo comentário!

  5. Bom, como eu sei que você é um cara comprometido com o aperfeiçoamento. Vou fazer algumas sugestões que talvez você goste:

    * O livro do Flavio de Campos, que é um professor de roteiro e consultor da Rede Globo, Roteiro de Cinema e Televisão – A arte e a técnica de imaginar, perceber e narrar uma história. Possuí muitas dicas interessantes, embora você já saiba da maioria delas.

    * Esta dica do Chuck Palahniuk, autor do livro Clube da Luta, pareceu interessante para mim: There are three types of speech – I don’t know if this is TRUE, but I heard it in a seminar and it made sense. The three types are: Descriptive, Instructive, and Expressive. Descriptive: “The sun rose high…” Instructive: “Walk, don’t run…” Expressive: “Ouch!” Most fiction writers will only use one – at most, two – of these forms. So use all three. Mix them up. It’s how people talk.

    * O site gringo Feminist Frequency faz observações interessantíssimas sobre o papel das mulheres nas obras de ficção. Acho que todo ficcionista que deseja criar histórias para um público amplo deveria dar uma navegada nesse site. Comece assistindo ao vídeo Women in Refrigerators (Tropes vs. Women), depois veja o The Bechdel Test for Women in Movies e o Damsel in Distress: Part 3 – Tropes vs Women in Video Games .

    E por enquanto é isso.
    Em breve, eu retorno para te encher mais um pouco, já que resolvi me pronunciar (eu acompanho o seu blog há muito tempo, muito tempo mesmo, e me arrependo de não ter feito contato antes – mas antes tarde do que nunca, né?). Valeu, Tio Nitro! Você é doidimais.

  6. Como sempre, dicas excelentes.
    Obrigado por, mais uma vez, compartilhar isso conosco.
    Mas é importante lembrar que não é bom ficar muito obcecado com essas coisas. Pode gerar um bloqueio criativo. E, além de tudo, é muito improvável que o J. R. R. Tolkien sabia de tudo isso quando escreveu o Senhor dos Anéis. Acredito que esse conhecimento ainda nem havia sido desenvolvido na época dele (porque, do jeito que ele era perfeccionista, nunca terminaria o trabalho se soubesse que era possível controlar a narrativa dessa maneira). Tenho a impressão de que os autores do passado se focavam em outros aspectos, que eram muito mais discutidos antigamente. Por exemplo: a atmosfera da história, o cenário, o vocabulário, etc.

    Também acho complicado misturar as coisas. Essas dicas parecem não concordar com aquelas outras sobre cenas proativas e reativas. (Ou, quem sabe, eu só estou falando besteira – como sempre – e pagando mico na internet). Mas acho que isso não importa muito. O que importa mesmo é que eu estou ansioso para ler a Marca da Caveira e a toda a Trilogia Legião.

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