Depois de detonar os limites morais da literatura de fantasia com sua fantástica e ultra-sombria trilogia Prince of Nothing, R.Scott Bakker retorna a um dos cenários mais brutais e nihilistas que já li com a saga Aspect-Emperor.

Imagine um cruzamento insano entre a narrativa bíblica messiânica, o clima apocalíptico do tempo das Cruzadas, a estranheza das civilizações da era do bronze (como a Babilônia e a Pérsia), um cenário tão detalhado quanto o da saga Duna, junto com uma versão ultra-sombria e pervertida dos arquétipos das raças não-humanas sedimentados na saga do Senhor dos Anéis. Se você conseguiu imaginar uma coisa monstruosa assim, você já tem uma idéia do universo criado por R. Scott Baker para suas trilogias Prince of Nothing e Aspect-Emperor.

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Essa é uma saga que praticamente cria uma variação do gênero da fantasia brutal ou brutal-sombria (a minha tradução para o Grimm Fantasy ou Grimmdark Fantasy; eu uso a palavra brutal como tradução de grimm porque acho mais doidimais do que “cruel”!) : o gênero fantasia brutal-death-metal!

Então estejam avisados quem for ler. Quando Bakker entra nas trevas, ele entra com os dois pés juntos, e a história chega a pender para o horror. O que eu adorei, é claro!

E o melhor, tudo narrado com maestria, com eu já tinha citado na minha resenha da saga Prince of Nothing. E em The Judging Eye, a prosa de Bakker continua com sua poética, ritmo e cuidado literário, e melhorando em termos de síntese e de ritmo de narrativa.

A saga se passa vinte anos depois do final do The Thousandfold Thought. Muita coisa mudou, e uma nova e monstruosa cruzada é organizada contra vilões que estão entre os mais horrendos dentre as minhas leituras de fantasia contemporânea. Como sempre, a grande força de Bakker está na caracterização profunda dos personagens, o que, apesar de deixar a trama mais lenta, torna a história muito mais interessante e psicologicamente realista, algo como um tratado sobre a alma humana.

Bakker tem formação acadêmica em filosofia e segue teorias muito peculiares a respeito da linguagem e da mente humana. O modo como ele mescla esses temas com a estrutura narrativa de uma cruzada religiosa com toques de “salvação do mundo” dá profunidade e originalidade aos seus livros. Em The Judgning Eye não é diferente.

A história se passa vinte anos depois do final da primeira trilogia, e os personagens recorrentes estão transfigurados em novas configurações, mostrando arcos de personagem tão profundos que causam até vertigem.

O mundo de Bakker é muito sombrio, não existe heróis aqui, apenas graus e mais graus de cinza. A história se divide em quatro narrativas, a busca motivada por vingança de um mago poderoso mais depressivo com uma relação incestuosa com sua filha bruxa, a ascenção de uma criança-psicopata, um dos monstruosos filhos do messias, a saga de vingança de uma sacerdotisa de uma deusa maníaca-depressiva que decidiu enviar seu próprio messias para acabar com a cruzada sagrada e o amadurecimento de um príncipe de um reino massacrado pelo mesmo messias que lidera uma cruzada fanática para salvar o mundo de um segundo Apocalipse. É o que falei, fantasia death-metal! E tudo na narrativa é dúbio, nada é o que parece ser, dentro da escola dos “planos dentro de planos” da saga Duna (que é um dos textos que Bakker dialoga em seus livros).

Gostei muito dos paralelos intertextuais que o Bakker fez com outras narrativas, como referências bíblicas, uma sombria e ultraviolenta releitura da jornada em Moria no Senhor dos Anéis e uma visão degenerada e original de uma raça não-humana análoga aos elfos (que , no universo de Bakker são criaturas completamente alienígenas, com uma visão de mundo radicalmente diferente dos humanos).

Como a Série Malazan, é um livro (e uma série) que eu recomendaria apenas para leitores mais veteranos, e que curtem uma prosa mais poética, repleta de símiles e metáforas interessantes, com muita exploração psicológica dos personagens, elementos que contribuem para o tom filosófico e sombrio da narrativa.

Fica a recomendação. Vou seguir a leitura com o Aspect Emperor #2 – The White Luck Warrior e ficar no aguardo do livro final, que deve sair este ano ainda.

E torcer para que apareçam mais livros nesse estilo! :)

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