Diário do Romance “Marca da Caveira” – Trilogia Legião Vol.1 – Começando a Segunda Versão! #nitroblog

Um dos motivos que criei o Nitroblog foi para manter uma disciplina de escrita diária,para compartilhar minhas leituras e reflexões sobre a arte de escrever e de ler, e o meu fascínio pelas narrativas em qualquer forma que ela se apresente (seja quadrinhos, filmes, livros, músicas, etc.).

Mas, em meio ao ritmo frenético da escrita e do meu trabalho de professor, deixei para trás um dos meus objetivos com esse blog: compartilhar o dia a dia do meu trabalho de escritor. O meu objetivo, além de trocar idéias com os leitores do blog, é usar o blog para manter a disciplina e o foco necessário para escrever todos os dias.

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Bem, finalmente venci algum tipo de resistência interna e vou começar a postar mais sobre os desenvolvimentos do meu romance “A Marca da Caveira”, o primeiro volume da Trilogia Legião, uma trilogia de romances de fantasia para o cenário Legião da Editora Redbox (a mesma que publica o RPG Old Dragon).

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No último ano trabalhei junto com o Antônio “Mr. Pop” Sarego e Fabiano Neme na criação do cenário da trilogia e do RPG, e no segundo semestre do ano passado (2013), escrevi a primeira versão do primeiro volume da trilogia, o romance “Marca da Caveira”.

A JORNADA DA PRIMEIRA VERSÃO DO “MARCA DA CAVEIRA”

Primeira Versão do Marca da Caveira!
Primeira Versão do Marca da Caveira!

Esse é o meu primeiro livro com uma narrativa mais longa. Antes desse livro, todos os meus outros trabalhos como escritor foram alguns roteiros para desenhos animados e filmes, quadrinhos, histórias curtas e contos, além de noveletas (histórias de 30 mil palavras ou pouco mais de 100 páginas). A Primeira Versão do Marca está com 120.000 palavras, o que dá em torno de 500 páginas (a 250 palavras por página, o que é a página padrão do mundo editorial). E como se trata de uma narrativa mais longa, mais épica (e parte de uma trilogia), tive que planejar bem o livro antes de começar a escrever.

O planejamento levou cerca de dois meses, principalmente gastos na criação dos personagens, das culturas descritas no livro e na história do cenário, focando especificamente nos acontecimentos da narrativa. Eu como que queria que os conflitos da narrativa surgissem a partir dos personagens, ao invés de criar uma trama e encaixar personagens em cima, fiquei um bom tempo escrevendo mini contos com os personagens e os entrevistando ( o que é uma ótima técnica).

Com os personagens principais e a idéia da trama central, comecei o planejamento das cenas, das linhas narrativas e dos eventos centrais da história.

Para a minha surpresa, quando comecei a escrever a história, usei muito pouco do planejamento das cenas! Ao sentir a história por dentro, pelo ponto de vista dos personagens, várias cenas foram mudando, novas linhas narrativas surgindo e outras desaparecendo, mesmo mantendo alguns dos eventos importantes do planejamento. Apesar dessa mudança toda, considero que o trabalho de planejamento me ajudou muito, pois serviu como um primeiro teste do cenário e dos personagens.

A escrita da primeira versão (ou primeiro rascunho, que é outra forma de traduzir o termo First Draft) é ao mesmo tempo fascinante e aterrorizante. Você enfrenta a tela branca do computador (ou do programa Scrivener , que é o que eu uso) e tem que o encher de palavras, criando a história do zero, na hora, na bucha.

Em um romance longo (mais de 100 mil palavras), minha energia e entusiasmo varia durante toda a escrita; tem dias que escrevo facilmente, tudo flui de maneira natural, outros dias cada palavra parece sair das mãos como dentes sendo arrancados. Como eu uso uma sinopse do livro inteiro e uma lista de cenas, isso ajuda a progredir naqueles dias onde a energia está mais baixa, e evita o temido “bloqueio de escritor”. Mesmo assim, como uma história é uma coisa viva, muita coisa muda na hora da escrita, jogando a narrativa em encruzilhadas e fazendo a gente repensar cenas, motivações, e até mesmo arcos narrativos inteiros. É uma montanha russa emocional, mas se fosse fácil não teria graça, não é mesmo?

Se uma história curta é uma corrida de cem metros, um romance é como uma maratona de quarenta quilômetros. É uma prova de resistência, de perseverança e disciplina. O que me ajudou no Marca foi usar a tradicional técnica americana dos Drafts ou Versões; escrever a Primeira Versão direto, até o final, sem editar, sem ajeitar, sem limpar nada. Ir até o fim da história, se preocupando apenas em colocar a história no papel, focando na trama e nos seus elementos essenciais, o Começo, o Meio e o Fim.

A técnica da Primeira Versão é a mesma usada no NaNoWrimo, o esforço coletivo online de escritores e aspirantes para escrever um romance de 50 mil palavras no mês de Novembro. Eu participei pela primeira vez no ano passado (2013) com o objetivo de escrever a segunda parte do Marca (eu já estava com 60 mil palavras antes do NaNoWrimo). E como a loucura e a comunidade do NaNoWriMo me ajudaram! Recomendo a todos os aspirantes a escritores participarem, é um trem de doido e nesse ano vou participar novamente!

Com o condicionamento de muitos anos escrevendo, editando e revisando parágrafo a parágrafo, usar essa técnica da Primeira Versão foi muito estranho no início. Quando escrevemos direto, no pau, estamos usando o modo Criador do cérebro, o lado direito, o lado criativo. E o nosso lado criativo precisa de espaço para criar, precisa de liberdade para agir. E é desse lado que vem as melhores idéias, as quebras de expectativas, as viradas de roteiro surpreendentes, os detalhes e desenvolvimentos mais legais dos personagens. O modo criador da mente, o  nosso lado visionário, é o que dá a alma para tudo que escrevemos, o que dá aquele toque pessoal, aquele “je ne sais quoi”. E a Primeira Versão é a hora e a vez do lado Criador do cérebro.

Depois dos primeiros dias de escrita, fui me acostumando a soltar esse lado criador, mantendo apenas um esqueleto de cenas bem flexível, que eu mudava a cada evolução da narrativa. Mantive alguns eventos importantes que aconteceriam no meio e no final da história, principalmente para saber como estava o desenvolvimento da escrita, mas muita coisa mudou em comparação com a minha sinopse inicial.

Ter bem claro esses eventos importantes da narrativa (os desastres principais da história, fechando os atos) foi vital para saber exatamente em que ponto da história eu estava à medida que escrevia. Isso aliviou a minha ansiedade, focou os meus esforços e ajudou muito na disciplina da escrita, principalmente naqueles dias em que a energia criativa está mais baixa.

Um outro método que usei foi o de estabelecer metas de palavras diárias e semanais, também inspirado no NaNoWrimo. As metas evitam que o modo Editor da mente, o lado esquerdo e racional do cérebro, interferisse na criação e causasse o temido Bloqueio de Escritor. Comecei com 1000 palavras diárias e consegui chegar até 3.500 palavras diárias (alguns dias, quando a minha criatividade estava em alta, consegui até mais palavras!).

O Bloqueio do Escritor surge quando o Modo Criador e o Modo Editor entram em conflito ou estão funcionando ao mesmo tempo. O Editor questiona tudo e mina a auto-confiança necessária para criar. Ele terá a sua vez, na Segunda, Terceira e quanto mais versões forem necessárias para a obra chegar ao seu formato final, mas não na Primeira Versão de um texto (e nem quando você precisar introduzir novas partes do texto nas versões posteriores).

Agora, depois de terminada a Primeira Versão do Marca, segui o conselho de muitos escritores profissionais (incluindo o Stephen King) e deixei o livro “descansar” por umas seis semanas. Essa é uma dica muito legal: entre a Primeira e a Segunda Versão, você se afasta do livro para dar aquele distanciamento necessário para a reescrita e edição.

Na semana passada fiz a primeira leitura completa da Primeira Versão do Marca, e fiquei surpreso com passagens que eu nem me lembrava de ter escrito, e de ver elementos e características dos personagens que passaram desapercebido na hora da escrita. Agora estou entusiasmado para encarar a Segunda Versão do Marca, e vou me esforçar em postar aqui no blog o desenvolvimento desses trabalhos.

Escrever é uma arte mágica, as palavras mostram tanto o que está no nosso consciente como revelam o que está no nosso inconsciente, nas profundezas da mente. Essa busca da essência vital de uma narrativa, da fotografia da alma do escritor é o que mais me fascina na escrita.

Espero que tenham gostado desse primeiro Diário da Marca. Eu curto muito ler o processo criativo de outros escritores, me inspira a continuar escrevendo e espero poder inspirar e ajudar quem está nessa jornada de escrever literatura no Brasil. E vamos escrever porque escrever é doidimais! :)

22 comentários em “Diário do Romance “Marca da Caveira” – Trilogia Legião Vol.1 – Começando a Segunda Versão! #nitroblog

  1. Incrível como seu texto soou intimista.
    Como escritor também tenho minhas “cartas nas mangas” e “pulos do gato” que me ajudam bastante a potencializar a energia criativa quando sinto que ela está baixa. Uma delas, por exemplo, é guardar um léxico de palavras chaves geralmente relacionadas ao tema do livro (no meu caso, Fantasia) e quando eu sentir forçando demais para escrever uma simples frase sequer, dou uma lida rápida nesse léxico e como que magicamente a parte Criadora do meu cérebro ganha um tranco.

    Muito interessante isso.

  2. Vivo de escrever a uns 25 anos. Mas não tenho a coragem do Newton: fico nas crônicas, roteiros, anúncios, discursos, aulas, dinâmicas, programas de tv. 500 páginas? Isso deixo pro Newton, Vinícios e cia. De qualquer modo, acabo comprando (e lendo) os livros. É um tipo de co-autoria, não?

  3. Muito bom, Tio Nitro. Eu ainda me vejo muito às voltas com o eterno embate entre o Criador e o Editor que residem em mim – de fato, este último é ardiloso e repleto de argumentos sedutores.

    Como você, ao acompanhar o processo de outros colegas escritores busco sempre identificar e atacar meus pontos fracos e esse seu texto me deu bons insights. Só posso agradecer.

    Ah, sim, só mais uma coisa: dificilmente eu deixaria passar um livro intitulado “Os Cachorros Samurais”. :P


    T. K. Pereira – Escriba Encapuzado
    contato@escribaencapuzado.com.br
    _________________________________
    http://www.escribaencapuzado.com.br
    https://www.facebook.com/escribaencapuzado

  4. As dicas estão ajudando muito. Estou usando a meta diária das 1000 palavras e está sendo um desafio entre trabalho e universidade. Mas estou entusiasmado! =D

  5. cara muito bom, estou escrevendo meu primeiro romance também, suas dicas vão me ajudar, gostaria de saber onde encontro teu livro, e se vc tem contato em outras redes sociais como o fb e outras, no meu caso eu escrevo e ilustro, amo fantasia e quero criar algo meu, e esse ano decidi deixar o medo de lado e encarar o papel!

  6. Vixi, tenho medo dos seus blogs, estou amarrado no segundo capítulo do meu livro (CRIADOR E EDITOR em um combate mortal) e toda vez caio aqui no seu dungeon, perco a noção do tempo, ainda bem que o Paulo Gonçalves está me ajudando, ele te manda um abraço, somos eus fãs mestre!!!
    SUCESSO!!!

  7. Eu realmente estou num empenho para conseguir formar uma rotina de escrita. Já tentei centenas de vezes e nunca consegui sozinho, hoje procuro orientações daqueles que sabem mais do que eu e com toda certeza você é de grande ajuda! Continue este trabalho magnifico Nitrão!

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