Prince of Nothing #1 The Darkness that Comes Before – Guerra Santa e Niilismo na Fantasia Brutal!

Um dos aspectos que não é muito explorado pelos autores de fantasia medieval é a visão religiosa do mundo, ecoando os períodos de fervor e delírio religioso durante a baixa Idade Média. O autor canadense R.Scott Bakker, neste fantástico livro de estréia, cria um universo original e claramente baseado na filosofia contemporânea, principalmente nas obras de Friedrich Nietzsche entre outros baluartes do pensamento moderno. O Niilismo é o tema básico da obra, desenvolvido de forma maestral pelo autor.

Darkness that Comes Before

Esse aspecto filosófico imbui “The Darkness that Comes Before” com temas mais profundos e complexos do que se encontra normalmente em romances de fantasia. Nihilismo, angústia existencial, questionamentos sobre a realidade, iluminação, a manipulação constante que acontece na linguagem humana, entre outros temas emergem de um cenário complexo e detalhado.

“The Darkness that Comes Before” é o primeiro livro da trilogia Prince of Nothing, que narra os eventos do “Segundo Apocalipse”, contando a história da emergência de uma fugira messiânica, Anasûrimbor Kellhus, um guerreiro monástico iluminado, com poderes de predição e persuasão praticamente sobrenaturais, porém não mágicos, vindos do seu treinamento como um Dûnyain.

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É um livro de leitura mais pesada, dentro do mesmo clima denso da série Malazan. Fãs da obra de Steven Erikson irão adorar Prince of Nothing, porém leitores que curtem um ritmo mais rápido de narrativa podem travar no livro, principalmente no começo.

Trama: Uma história complexa, com uma miríade de personagens mostrando o início de uma Guerra Santa entre dois povos divididos por suas crenças. Como esse é o primeiro livro de uma trilogia, vários elementos são colocados, os diversos grupos políticos são definidos. Kellus, o futuro messias, unifica as narrativas díspares na terceira parte do livro, tirando a sensação de estar perdido na história.

Prosa: R. Scott Bakker escreve muito bem, com uma prosa elegante e ao mesmo tempo direta, sem muitos floreios. Excelentes descrições, diálogos não desperdiçados, ritmo de narrativa e o uso de palavras não muito comuns dão um tom exótico para a narrativa. Apesar das diversas mudanças de pontos de vista na história, não me senti perdido durante a narrativa.

Caracterização: Um dos pontos fortes do livro. Os personagens são muito vivos, muito reais, e sua caracterização arrebenta com os clichês tradicionais da fantasia. O personagem que mais gostei foi o bárbaro Cnaiür urs Skiötha, um chefe tribal que poderia facilmente cair no clichê do bárbaro forte e furioso, porém, por causa do modo como ele é caracterizado, por sua história de vida e o modo como interage com Kellhus, se transforma em um personagem real, vivo. Outros personagens são bem caracterizados, apesar da figura feminina ser mostrada de uma maneira muito negativa, o cenário é extremamente brutal e machista, análogo ao período da idade do cobre (Babilônia, Egito, etc.).

Magia: Existem vários escolas de magia no mundo da trilogia, e um aspecto interessante é a raridade da magia e o modo como os Poucos (o termo usado para os feiticeiros), mantém uma enorme influência política justamente pela raridade de suas habilidades. As escolas de magia se diferem não só pelo modo como realizam magia mas por suas visões do mundo, de maneira análoga às escolas de filosofia e de pensamento, um detalhe que dá mais realismo na narrativa.

Ação: As cenas de ação são bem escritas, brutais e gráficas. Cenas de combate campal dão o tom épico para a narrativa.

Tom: Existe uma ambiguidade moral na narrativa, com graduações de maldade e crueldade, porém sem nenhuma distinção clara entre o bem e o mal. As questões morais levantadas por uma guerra santa, o problema do fanatismo e o modo como o fervor religioso deshumaniza quem é tomado por ele também são abordados. O livro tem cenas de violência, sexo explícito, estrupro, abuso de crianças e outros elementos que compõe os horrores da guerra.

Apesar de um começo meio lento, mas necessário para construir um cenário exótico e complexo, “The Darkness That Comes Before” é muito bom! Fica a recomendação, principalmente para os fãs da série Malazan!

Prince of Nothing: The Darkness That Came Before (Amazon Kindle)

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6 comentários

  1. Perfeito! Lembro de ter encomendado esse livro pela Cultura e depois de um tempo (de demora que eu já estava estranhando) a livraria me informou que estava esgotado. Desde então nem procurei mais. Agora quero mais do que nunca ler. Ótimo artigo como sempre, conterrâneo :D

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