Finalmente terminei de ler a série Gantz (ガンツ Gantsu), o hiperviolento pós-mangá de Hiroya Oku. Como muito dos mangás seinen da última década, eu considero Gantz um pós-mangá, ou seja, um mangá que procura re-trabalhar e desconstruir as espectativas dos fãs das narrativas tradicionais do mangá. Esse fenômeno de desconstução ativa está acontecendo desde a década de 80, mas ultimamente, em vários tipos de media, vejo obras e mais obras apresentando um espécie de diálogo com o que veio antes. Isso gera obras expremamente auto-referenciais e auto-críticas em relação ao gênero que estão procurando desconstruir. Gantz, eu acredito, é uma dessas obras.

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Gantz segue a tradição japonesa dos super-times de adolescentes ou jovens (se bem que até isso é criticado e retrabalhado na série) que são selecionados por um poder superior para lutar contra uma invasão alienígena. Esse tema, usado ad nauseum pelos mangás japoneses se transforma em uma história hiperviolenta e aterrorizante em Gantz. No mangá, qualquer tipo de pessoa é selecionada por misteriosas bolas negras de alta tecnologia para lutar contra alienígenas bizarros e ultraviolentos. A narrativa não faz nenhuma concessão, mortes acontecem de maneira aleatória, os alienígenas não segue razões racionais humanas, e nenhuma explicação é dada de maneira simples. O leitor é jogado sozinho em um mundo ultraviolento e misterioso, o impacto dos primeiro volumes é impressionante.

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Todos os arquétipos tradicionais desse tipo de narrativa aparecem de maneira mais realista ou mais cínica. Por exemplo, um jovem que sofre abuso dos valentões da escola, assim que ganha o poder de lutar contra os alienígenas, usa esse poder para matar todos os seus colegas envolvidos em sua humilhação, uma reação mais ligada ao nihilismo e egoísmo contemporâneo do que a romântica idéia de lutar contra o mal. A sexualidade é explícita, se aproximando mais do que é a realidade de um adolescente ou jovem na era hipersexualizada que vivemos.

O mangá é também uma boa introdução ao gênero do Seinen, o mangá adulto direcionado ao público masculino, e que é o que mais leio ultimamente.

Mesmo sendo um mangá focado em ação frenética e ultraviolenta, a narrativa aborda questões muito interessantes, como “o que nos torna humanos”? A morte é presente na narrativa, assim como o papel das memórias na formação da identidade. O confronto com os alienígenas coloca os humanos em uma perspectiva ateísta e provocadora, a carnificina torna os humanos em criaturas insignificantes, entidades bio-orgânicas desenvolvidas por meio da evolução natural, e nada diferentes dos alienígenas, buscando sobreviver a todas as custas em um universo que é completamente indiferente a nossa existência. O sentido da vida tem que ser criado artificialmente, pois não existe nada fora da experiência humana que tenha uma razão de existir. Assim como as bolas negras do Gantz, o universo simplesmente existe, sem nenhuma verdade superior por trás. Essa visão é o que eleva Gantz acima das centenas de narrativas semelhantes. Ele força o leitor a encarar de frente o absurdo da existência humana, tão frágil, temporária e sem sentido maior. Se Nietzsche escrevesse um mangá, e fosse viciado em media ultraviolenta, provavelmente sairia algo como Gantz!

Recomendo ler o mangá, pois as versões em anime e em live action, como sempre, são muito mais superficiais e fazem muitas concessões a censura. O mangá é a expressão mais completa da mente enlouquecida de Hiroya Oku!

Gantz no Site Manga Reader (Série Completa)



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