Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap.12–“Os Mortos também sonham!”[NitroDungeon – Necropia]

Necropia é um cenário de fantasia gótica onde os mortos controlaram o mundo e escravizaram todas as raças mortais. Mais informações nesse link. Já foram publicados os conto “Um Samurai em Necropia” na Revista D20 Saga 05, e a aventura “A Invasão de Necropia”, uma aventura para D&D 3.5 na D20 Saga 06.

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"The Fallen" por SmxDeadlyDesignz - Deviant Art

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Capítulo 12 – Os Mortos Também Sonham

Uma menina corria em direção a ele. Uma menina com seus quinze anos, de cabelos negros e vestida como os jovens cherzias, os filhos dos mortos criados pelos Modeladores da Carne com o sangue de seus pais nors. Ela era um retrato de sua bela mãe Shem, de rosto suave com olhos amendoados e lábios cor de rosa. Os mesmos lábios que sempre se abriam em um sorriso quando ele a visitava no esconderijo que ele mesmo construíra, nas Montanhas Negras, nos arredores de Yzael.

“Ariana, minha Ariana.”

Lágrimas negras escorriam de seus olhos ao ver sua filha correndo pelos campos acinzentados das montanhas. Ele queria abraçá-la, ele queria dizer para ela como ele a amava, como ele sentia sua falta.

Ele queria pedir perdão por não ter conseguido protegê-la.

“Ariana”

A menina o abraçou. Apesar de parecer fisicamente com sua mãe, ela herdara sua natureza imortal. Ela tinha a pele branco-acinzentada como Erynae, a Lua Falha no auge de seu ciclo. E seus olhos eram negros como os de todos os Nors.As pupilas brancas brilhavam quando ela olhava para ele e dizia:

__Eu te amo papai.

Ele a abraçou. De alguma forma ela tinha sobrevivido à sentença dos Magistratos. Ela era uma Midrash, uma abominação aos olhos dos mortos. O sangue vermelho de sua mãe mortal tinha sido misturado ao sangue negro de seu pai nor na sua criação. Ele se lembrava do rosto do corrupto Necromante do Sol Negro, quando ele fez a proposta. A esquelética criatura aceitara imediatamente, fascinada com o ouro e as Amratis Negras que ele tinha oferecido. Nada de perguntas, o necromante não quis saber porque um Nor de uma família tradicional queria um filho com uma Shem. E ele nem mesmo saberia explicar, ele fora movido por um misto de raiva, orgulho e vingança, depois de ver a escrava por quem se apaixonara morrer pelas mãos de sua odiada irmã.

Uma fumaça começou a envolver o seu corpo. Ele ainda segurava sua filha nos braços, mas algo estava errado. A delicada pele da jovem estava queimando. Ele se afastou. Sua filha olhava para as chamas assustada. O fogo, a única coisa capaz de aterrorizar os mortos, consumia sua carne morta como um enorme verme faminto. A garota começou a gritar, enquanto ele se afastava, horrorizado. Estava acontecendo tudo de novo.

“Papai, porque você me abandonou…”

As chamas iam consumindo todo o corpo da menina. Ele se forçava a olhar, enquanto lágrimas de sangue negro escorriam por sua face, lágrimas que ele tinha segurado no dia da execução de sua filha. Ele não tinha chorado, não com sua odiada irmã presente. Valshea tinha contado aos Magistrados o que ele tinha feito, ela contara que ele tinha escondido uma Midrash por mais de quinze anos dos olhos do Pogrom, as leis dos mortos. E ela tinha feito isso apenas para pegar o seu lugar de capitão dos Degoladores de Yzael, ao melhor estilo dos mortos: trair antes de ser traído. E ele não pode fazer nada, a não ser observar a destruição de sua filha.

“Sir Deiphobus, porque você me abandonou…”

O rosto de Ariana mudara. Quem agora estava queimando era Sati, sua devarim. Ele tentou se mover, mas correntes explodiram do chão sob os seus pés e se enroscaram em seus braços e pernas, imobilizando-o. E ele podia ouvir uma gargalhada familiar, vindo de todos os lados. Era a voz de sua irmã,

__SATI!__ gritou Sir Deiphobus levantando de sua cripta. A pesada tampa de pedra que ficava sobre o seu caixão caiu para o lado, marcando com uma série de rachaduras o chão de mármore negro. Neko, o Necrofagi, já estava ao seu lado, com a língua de fora e emitindo grunhidos de satisfação. Deiphobus olhou para a esquerda de seu quarto, no tapete onde tinha colocado Sati. Estava vazio.

Valshea tinha alguma coisa haver com isso, ele tinha certeza.

__VALSHEA! VEROOOOOTIKA! ONDE ESTA VOCÊ SUA VAGABUNDA!__ gritou Deiphobus enquanto se levantava de seu caixão. Ele ainda estava fraco, e suas feridas ainda não tinham sido totalmente regeneradas pelo viriath, o coma auto-induzido dos mortos. O viriath era melhor se fosse feito de madrugada, quando as energias de Ktonor, o buraco negro dos céus de Ereth, estavam mais ativas. E havia vários dias que ele não tinha passado pelo repouso do viriath, assim, o torpor que sentia servia apenas para aumentar a sua irritação.

Deiphobus saiu pelos corredores da mansão e foi direto ao quarto onde ficava a cripta de Valshea. Ele estava sem camisa e suas as enormes cicatrizes refletiam o brilho frio das amratis púpuras dos candelabros. Neko caminhava ao seu lado. O Necrofagi parecia refletir o humor de seu mestre, e emitia ruídos guturais por entre suas enormes presas de metal. Batendo violentamente na enorme porta de metal da cripta de Valshea, decorada com uma orgia canibal, o cavaleiro Matadeus gritou:

__Sai daí sua vagabunda ou eu vou derrubar essa porta! ONDE ESTÁ A MINHA DEVARIM!

Deiphobus continuou esmurrando a porta de metal, parando apenas quando ela começou a se abrir.

__Onde está ela? Fala, degraçada, ONDE ESTÁ A MINHA DEVARIN!__ gritou Deiphobus, empurrando Valshea, que estava com minúscula roupa de couro negro, com ganchos e anzóis saindo e entrando de seu corpo escultural. Ela estava com os braços e o peito molhados de sangue.

__O que você pensa que está fazendo?__ gritou Valshea.

Deiphobus olhou para a enorme cripta de Valshea. Haviam dois cadáveres completamente esfacelados em uma plataforma circular onde ficava o enorme caixão de Valshea. Deiphobus sentiu seu sangue negro gelar em suas veias. Porém, nenhum dos cadáveres era de Sati. Valshea havia pegado dois dos Shems que ele tinha trazido de sua caçada para se divertir com seu namorado, Katsuchiyo, o neonor que fora a estrela da final do campeonato nacional de Necrobol no ano passado. Katsuchiyo estava no fundo da câmara, calado como sempre, olhando fixamente para Deiphobus. Estava também banhado de sangue, e segurava uma enorme katana com seu braço direito. Deiphobus sabia que Katsuchiyo podia atingir seu pescoço mesmo estando naquela distância, o que o fez arrepender pelo fato de não ter pego a Mutiladora, sua fiel espada.

O neonor era ágil, ainda mais usando o corpo de Caronte, o antigo capitão dos Mutiladores de Messalina. Katsuchiyo, por sua vitória honrosa no Necrobol, tinha recebido a honra de se tornar um nor, ou melhor um neonor, já que não era um filho dos mortos, como Valshea e Deiphobus. E os Magistratos acharam por bem transplantar sua cabeça mortal para o corpo de Caronte. Isso tinha feito do ex-samurai um adversário páreo para um Matadeus experiente como Deiphobus.

__Vejo que você está se divertindo, não é neonor? Eu vejo nos seus olhos que você desaprova os vícios de minha irmãzinha…

Katsuchiyo se moveu um centímetro, e imediatamente Neko parou em sua frente, rosnando ameaçadoramente.

__TIRE ESSA COISA DO MEU QUARTO!__ gritou Valshea apontando para o Necrofagi.

Deiphobus se virou para ela e respondeu:

__Escuta aqui, sua mimada! Eu nem acabo de repor os nossos estoques de escravos e você já começa com suas manias. Onde está Sati? E pense bem antes de falar, pois se você fez alguma coisa com ela, eu juro que eu esmago a sua cabeça ao mesmo tempo que o Neko detona o seu namoradinho!

__Neko? Quem é Neko?__ perguntou Valshea.

__É o nome que a Sati deu para o meu Necrofagi.

Valshea sorriu ironicamente:

__Onde já se viu, dar nome para um Necrofagi…Era só o que faltava…

Deiphobus perdeu a paciência:

__FALA! ONDE ESTÁ A MINHA DEVARIM!

Valshea olhou para ele e disse cinicamente:

__Hei! Espere aí! Eu não tenho nada haver com essa história. Foi você que veio com esse papo de que ela tinha salvo a sua vida, e que ela era sua devarim, e que tinha que dormir na sua cripta, etc.

__Mas ela não está no meu quarto.

Valshea, olhou para ele e disse:

__A velha Odda disse ter visto a escrava saindo pela porta da frente. Eu acho que me esqueci de trancar, depois que voltei para a mansão… Bem, Odda me falou o que acontecera e eu enviei um morcego mensageiro para os Guardas Ósseos reportando uma escrava fugida, com a descrição da pirralha e tudo mais. Achei que não devia perturbar o seu viriath, meu irmão. Afinal, você precisava se recuperar depois de ter ajudado a repor as nossas reservas de escravos e de ter livrado a minha pele. Falando nisso, eu já te agradeci irmãozinho?

Os olhos negros de Sir Deiphobus brilhavam de ódio. Valshea sabia deixá-lo furioso. Sati não sobreviveria muito tempo nas ruas de Yzael, e a desgraçada sabia disso.

__Eu vou atrás dela.__ disse Deiphobus bruscamente, completando.__Neko, venha comigo!

O Necrofagi correu para o lado de seu mestre. Porém, Valshea segurou Deiphobus pelos ombros antes que ele saísse:

__Espere! Você não vai conseguir achar a garota. Maninho, ela fugiu por minha culpa, deixe que eu a trago de volta para você, já que ela é taaaaaaaão importante assim…Eu conheço o submundo dessa cidade muito melhor do que você, maninho.

__Você está louca, mulher! Você quer é acabar com ela, como parte do seu plano mesquinho de transformar a minha existência em um inferno. Eu jamais vou acreditar em você, Valshea!

__Então façamos um pacto. Você sabe muito bem que eu nunca volto atrás em um pacto. Se eu encontrar essa pirralha para você, você joga no meu time no Shabbat, daqui à quatro dias. Se você encontrar, eu juro que vou tratá-la como uma devarim. E se a gente não encontrar, ela vai ter morrido mesmo e você vai ter que procurar outro brinquedo para se lembrar daquela midrash fedorenta que você chamou de filha!

Sir Deiphobus agarrou o pescoço de Valshea, antes que ela pudesse reagir. Katsuchiyo avançou como um raio, pulando em direção aos dois. Neko avançou para cima do ex-samurai soltando um rugido, mas Katsuchiyo girou o corpo no ar em uma cambalhota e desviou da mordida estraçalhadora do Necrofagi. Ainda no ar, ele girou a espada em direção ao pescoço de Deiphobus…

__Pare!__disse Valshea, quase engasgando com o estrangulamento de Deiphobus.

Nos últimos milésimos de segundo,Katsuchiyo desviou sua espada do pescoço de Deiphobus, cravando na porta de metal como se ela fosse um bloco de manteiga. A lâmina ficou atravessada entre Deiphobus e Valshea, encostada no pescoço do cavaleiro Matadeus. Deiphobus soltou sua irmã:

__Se você a achar, eu jogo no seu time.__ murmurou Deiphobus. Logo em seguida, ele olhou para Katsuchiyo e disse:

__Eu ainda te mato, cachorrinho.__ e virando-se para o Necrofagi, concluiu__Vamos embora Neko!

Sir Deiphobus e seu Necrofagi saíram da cripta de Valshea para se prepararem para a busca. Valshea os observava sorrindo. Tudo estava acontecendo como planejara. A essa altura, os Guardas Ósseos já tinham capturado a escrava fujona, e, mais uma vez, ela tinha seu irmão em suas mãos. Virando-se para Katsuchiyo, ela disse:

__Onde estávamos mesmo meu amor? Há sim, vamos continuar esse desmembramento…

E Katsuchiyo a observava, seus olhos mortos jamais expressando alguma emoção. Ela era sua mestra, ela era a senhora de sua alma. Ela era o seu destino na eternidade.

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4 Respostas para “Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap.12–“Os Mortos também sonham!”[NitroDungeon – Necropia]

  1. Caramba, essa história tá muito bacana! O clima é perfeito – consigo imaginar perfeitamente o ambiente de Necropia -. Por mim você escreveria um capítulo por dia…

  2. Concordo! Podia rolar um Pdf com os 10 primeiros capítulos, eu só li os últimos três e queria imprimir pra ler mais confortavelmente os primeiros =P

  3. Pingback: Pernas pesadas é uma condição médica, | Modeladores Corpo .com O ponto de encontro entre voce e o Modelador. | Modeladores - Cintas e Malhas Compressivas·

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