Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap. 6 – “A Cidade dos Mortos” [NitroDungeon - Necropia]

2009 Junho 8
by Tio Nitro

Continuando as Crônicas de Necropia – Almas Torturadas, Sir Deiphobus e Sati partem para Yzael, a capital do Império dos Mortos de Necropia.

Necropia é um cenário de RPG de fantasia gótica, criado por mim e que pode ser conferido nesse link!

Capítulo 6

A Cidade dos Mortos

A cavalgada pelos Campos de Caça de Yzael foi rápida, sem maiores incidentes. Sir Deiphobus explicava para Sati, agarrada na garupa de seu cavalo, que conhecia muito bem as trilhas seguras dos Campos de Caça, longe das plantas assassinas, predadores monstruosos e elementais malignos.

O Cavaleiro Matadeus dizia que as florestas de Ereth eram parte do plano de vingança dos Sefiras com todas as criaturas vivas, e seus habitantes não toleram nenhum intruso, mesmo se forem não-vivos. Sati escutava calada, procurando aprender tudo que ouvia. Ela tinha passado toda a sua vida no Submundo, o mundo subterrâneo de Necropia, e não sabia praticamente nada sobre a Superfície. O Necrofagi os seguia de perto, hora passando na frente do cavalo-carniçal Espinhal, hora passando para trás. A criatura já tinha parado de rosnar com ciúmes para Sati e parecia estar se afeiçoando dela. Ou imaginando como seria o sabor da carne da pequena Shem.

Depois de três horas de cavalgada, os três chegaram a uma enorme estrada de pedra.

__Olhe, Sati. Esta é a Estrada Shaid-kalom ou em linguagem comum, a Estrada Gloriosa. É uma das grandes maravilhas que os mortos deram para esse mundo. Essa estrada foi feita por cima das pegadas deixadas pela Legião Imortal de Lorde Thaumiel durante a Marcha da Libertação…Ela circunda todas as dez regiões do continente de Yetzirah em torno do Cinturão das Montanhas Orgs e…Ei, eu estou te chateando com essa história, não?

Sati, que estava na garupa de Espinhal, se esforçando para não cair do cavalo morto-vivo, tentou responder educadamente:

__N-não senhor…E-eu estava olhando as pedras da estrada. Elas são tão negras e parecem ser muito pesadas…Foi feita com o trabalho de escravos vivos, senhor?

Sir Deiphobus sorriu, enquanto saia floresta para entrar na Estrada da Vitória. A estrada estava cheia, como sempre estava principalmente a esta distância de Yzael. O guerreiro Nor procurou achar um lugar atrás de uma enorme carroça de escravos Shem humanos e ravidianos, que se acotovelavam na jaula puxada por um gigantesco Besouro Nithiano, conduzido por um mercador Nor Altkuthiano, que pela vestimenta, parecia vir de Tanir, na montanhosa nação de Yavehir. Ao seu lado, caravanas de mercadores de Yzael passavam com seus carregamentos de partes corporais, deliciosos vermes khols e aves natimortas nirodhinas para os Nors, comida e mantimentos para os Shem, tecidos e tapetes yzaelianos para serem vendidos nas cidades litorâneas do sul de Zohar, prostitutas nithianas para os bordéis de Messalina, entre outras. Virando-se para Sati, Sir Deiphobus respondeu:

__A Estrada Gloriosa foi feita em homenagem à vitória de Lorde Thaumiel sobre os Primevos, e foi um presente dos Alkuthianos e dos Nithianos ao nosso imperador. Ela é mágica, as obsidianas que a compõe foram tratadas alquimicamente para serem indestrutíveis. Há um velho ditado que diz assim: “Mesmo que o Tempo termine, a Estrada Gloriosa vai permanecer e ser usada pelos senhores da realidade”.

Sati olhou para os carregamentos que via. À cerca de duas carroças à frente, ela podia ver uma enorme jaula com cerca de dez indivíduos amontoados. Eram todos Shems, cobertos de sujeira e sangue, e vestindo trapos imundos. A jaula estava sobre uma enorme carroça e o seu peso fazia com que as enormes rodas de metal rugissem um lamento altíssimo, que se somava aos sons vindos das outras carroças que enchiam a Estrada Gloriosa. Ela estava sendo puxada pelo maior besouro negro gigante que ela já vira. O mercador, um Nor obeso sentado ao lado do condutor do besouro, olhava para trás de tempos em tempos, como se quisesse conferir a carga que estava levando. Apesar de estar de costas, Sati podia perceber que o condutor parecia ter antenas! Sua atenção voltou para a jaula de escravos, que era protegida por dois enormes guerreiros a cavalo.

Não eram apenas humanos que estavam dentro da imunda jaula. Para seu assombro, Sati podia ver que entre os humanos, estava uma criatura estranha; era enorme, com cerca de dois metros e meio de altura e ao invés de um rosto, ele tinha uma espécie de máscara, onde não se podia ver o seu nariz. Mas o que realmente assombrou Sati foi o fato de que a enorme e musculosa criatura possuía lâminas saindo da cabeça e dos cotovelos. Inclusive, com o sacolejar da jaula, os demais escravos faziam de tudo para não serem jogados contra as enormes lâminas que saiam dos cotovelos da criatura. Ela estava presa com correntes no fundo da jaula. Sati continuava olhando quando percebeu que a enorme criatura a olhava de volta.

__Ele é um Mordenkai, Sati, a raça principal da nação de Ghimel. Mordenkais selvagens são difíceis de capturar pois a maioria são considerados Gentios, vivos pelo Rei Magnakai de Ghimel, sua terra nata.

__Gentios?__ indagou Sati.

__Shems que são livres, que não possuem nenhum dono Nor. São considerados cidadãos de segunda classe nas Necrópoles, mas ultimamente muitos gentios tem alcançado altas posições dentro da sociedade. Mas não se preocupe Sati, ser uma Devarim é muito melhor. A vida dos vivos é muito dura em uma cidade dos mortos.

Um dos cavaleiros que escoltava a jaula olhou para o Mordenkai, deu-lhe um safanão com o chicote de metal que carregava, que fez com que a enorme criatura urrasse. O Mordenkai se afastou das grades com ódio, esmagando um dos humanos miseráveis nas grades da jaula. O guarda-costas que o tinha castigado, olhou para trás, procurando ver o que tinha atraído a atenção do Mordenkai e seus olhos pousaram em Sati. A garota olhou para o guarda-costas, um enorme guerreiro Nor, vestindo uma armadura de couro negra cheia de placas de metal, com dois crânios cravados de espetos de aço servindo de ombreiras. O guerreiro estava usando uma máscara prateada que cobria os olhos e o seu nariz, deixando uma boca descarnada e pálida descoberta. Os dentes negros como as obsidianas do Submundo apareceram reluzentes, quando o guarda-costas sorriu. Ele gritou algo para o seu parceiro e se aproximou à cavalo de onde estavam Sati e Sir Deiphobus.

__Que bela carne-viva!__ disse para Sir Deiphobus se referindo a Sati__ Ela é de sua propriedade ou você achou no meio do caminho?

Sir Deiphobus, mantendo Espinhal dentro do ritmo da caravana, respondeu laconicamente:

__Sim, ela é minha. Agora vá embora.

O guerreiro puxou o seu cavalo com força, fazendo-o relinchar. Era um cavalo-carniçal como Espinhal, mas parecia mais novo, mais vivo. O guarda-costas continuou:

__Calma aí, cara. Eu não vou roubar essa carne-viva de você…Não se ela for sua, camarada…Ela já tem marca de escrava, não?

Sati,sentada na garupa de Espinhal, sentiu todos os músculos de Sir Deiphobus se retesarem, pouco antes dele responder:

__Ainda não, e ela não é a minha escrava, é minha Devarim.

O guarda-costas olhou para Sir Deiphobus surpreso. Ele era um Nor enorme, quase do tamanho de Sir Deiphobus, e tinha uma grande espada nas costas, com duas lâminas paralelas que se entrecruzavam como serpentes de metal. Sati podia ver as várias placas de metal cravadas no corpo do Nor e pequenas lâminas saindo dos nós de seus dedos. As palavras do ancião sobre os costumes dos Nors vieram a sua mente nesse momento. Ela recordava vagamente informações sobre os rituais de Modificação Corporal dos Nors. Como os não-vivos eram incapazes de sentir dor (sofrendo apenas com fogo e com as garras e o sangue dos Primevos) eles criaram toda uma cultura de colocar metais por todo o corpo. Isso aumentava a letalidade do guerreiro e a sua superioridade perante aos Shems. Os mortos eram apaixonados com os metais.

Repentinamente, o guarda-costas estendeu a sua mão e agarrou o queixo de Sati. Ela sentiu o toque áspero e frio do Nor e suprimiu um grito. O guerreiro riu e disse:

__Há! Eu não vou deixar passar uma carne-viva dessa qualidade! Sem marca, purinha, novinha…

Sir Deiphobus girou o braço e bateu com violência na mão do guarda-costas, fazendo-o soltar o queixo de Sati.

__Não toque nela, seu verme desprezível! Caçadores de Escravos são a ralé da Necrópole! Você não sabe com quem está se metendo? Sou Sir Deiphobus, Capitão da Sexta Patrulha de Cavaleiros Matadeus de Yzael!

O guarda costas sorriu e Sati podia sentir os olhos negros do guerreiro brilhando por trás da máscara. Virando-se para Sir Deiphobus, ele retrucou:

__ Se é assim, eu te desafio para um Shem-Athor! Um cavaleiro tão honrado não pode negar um desafio para decidir a posse de um Shem sem dono e…

SLASHHHHHH! Uma chuva de sangue negro borrifou o rosto de Sati no momento em que a cabeça do guarda costas caía para trás. Sir Deiphobus estava com a Mutiladora desembainhada, e o seu braço estava parado no final do movimento de decapitação que fizera. Girando rapidamente a enorme espada para tirar o sangue negro que a sujava, Sir Deiphobus guardou a Mutiladora no suporte de ferro preso às suas costas.

O corpo do Guarda Costas ainda agarrava com força as rédeas do seu cavalo, tremendo à medida que ia perdendo sangue negro. Alguns segundos depois, o corpo escorregou para o chão, e o cavalo-carniçal, vendo o seu dono completamente mutilado correu rapidamente de volta à carroça de escravos, levando o corpo e deixando a cabeça de seu dono para trás.

O outro guarda costas olhou para Sir Deiphobus e tirou um enorme machado de suas costas. Sir Deiphobus gritou:

__Você tem duas escolhas, verme! Ou você me ataca ou recupera a cabeça do seu amigo enquanto ele ainda tem chance de ser restaurado! Vamos, o que vai ser, cão mercador?

O guerreiro com o enorme machado olhou para Sir Deiphobus e para a cabeça de seu companheiro. Era um Ravidiano Nor, cujas feições bestiais contrastavam com o olhar morto e o tom cadavérico do grosso pêlo que cobria a sua face. Um pêlo cinzento e negro que também aparecia nas aberturas da sua armadura corporal, com certeza feita de escamas de Férrios, os enormes lagartos metálicos das montanhas do norte de Zohar.

O Ravidiano grunhiu, deixando mostrar suas enormes presas. Chicoteando o seu cavalo-carniçal com violência e partiu em direção ao Sir Deiphobus que pensou, enquanto destravava novamente a Mutiladora de suas costas:

“É inútil apelar para a razão de um Ravidiano”.

(Continua)

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ALMAS TORTURADAS

Crônica seriada de Necropia

Cap. 1 – “Ajuda Fraterna”

Onde conhecemos Sir Deiphobus, um Não-Vivo pertecente a ordem dos Cavaleiros Matadeus de Necropia.

Cap. 2 – “Perdida Entre as Feras”

Sati, uma bárbara do Clã da Garra Negra, um dos clãs dos mortais livres que sobrevivem nos Subterrâneos, arrisca e sobe a superfície, o reino dos mortos.

Cap. 3 – “O Primevo”

Nesse capítulo, Sati se vê de frente a um horrendo monstro, e tem de decidir sobre sua própria sobrevivência ou ajudar um inimigo de seu povo.

Cap. 4 – “A Aliança da Vida com a Morte”

Onde Sati ajuda a um dos mortos-vivos que quase exterminaram o seu povo!

Cap.5 – “A Restauração”

Onde descobrimos uma característica impressionante dos Nors, os mortos-vivos governantes de Necropia.

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