Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap. 5 – “A Restauração” [NitroDungeon – Necropia]

Onde descobrimos uma característica impressionante dos Nors, os mortos-vivos governantes de Necropia.

Capítulo 5

A Restauração

__Gostou, hein?__ disse o guerreiro Nor estendido no chão.

Sati virou assustada e deixou a arma cair, o que fez com que os dentes metálicos da espada parassem de correr no momento em que atingiu o chão. Ela tinha feito o impossível, tinha matado o gigantesco Verme Kumariano. Os Deuses Selvagens dos vivos estavam olhando para ela.

O Necrofagi se aproximou, mancando de uma pata horrivelmente quebrada e gemendo baixinho. Quando ele viu que o seu dono estava vivo, se é que se pode falar assim sobre os Nors, a criatura manifestou alegria através de pequenos pulinhos e lambeu o rosto de Sir Deiphobus. Este passou a mão na cabeça da criatura e a afastou, procurando levantar o corpo com os braços. Suas pernas tinham sido arrancadas, e com certo esforço, Sir Deiphobus conseguiu se sentar. Sati ainda pensava em como fugiria dali, quando o guerreiro exclamou:

__Não tenha medo, criança. Meu Necrofagi não irá fazer nada com você. Pelo seu jeito, você é um Shem selvagem, provavelmente de algum Clã bárbaro do Submundo de Zohar, estou correto?

Sati apenas olhava para o guerreiro. Ela não podia ver bem o seu rosto, mas a pele branco-acinzentada lhe dava arrepios. E seus olhos negros de pupilas brancas olhavam fixamente para ela. O guerreiro continuou:

__Bem, deixe-me apresentar. Sou Sir Deiphobus Cordovero de Saphed, Capitão da Sexta Patrulha de Cavaleiros Matadeus de Yzael. E você, pequena Shem? Diga-me o seu nome, garota, não é sempre que tenho shems salvando a minha não-vida!

Sati olhou para o guerreiro e para o Necrofagi, que,  ansioso,  parecia aguardar a sua resposta. A criatura ao seu lado parecia sorrir por entre os enormes caninos metálicos, de onde escorria um fio de baba negra. Ela estava completamente perdida mesmo. O que mais ela tinha a perder? O jeito seria tentar agradar esse Nor e esperar uma hora para fugir.

__Meu nome é Sati, senhor.

Sati poderia jurar que o Nor estava sorrindo sob o elmo negro:

__Sati…um belo nome…Significa “Verdade” não? É incrível como os Sefiras mantêm os idiomas dos bárbaros tão próximos ao nosso. Só deuses mesmo para fazer isso. Até me faz querer virar um carola crente como o meu amigo Sir Thamis. Mas sabe como é, Sati, vida de sacerdote de armadura não é para mim não. Adoro os prazeres da minha não-vida! Bem, Sati, preste atenção. Eu vou te dar o título de Devarim, é algo muito importante, viu?

Sati apenas olhava sem falar nada.

__Há! Menina, em Yzael, qualquer Shem mataria por um título desses, por uma honra desse tamanho! Mas como você é um bichinho-do-Submundo, eu te explico: você me salvou demonstrando uma grande valentia e ignorando o medo da morte caracterírstico de sua raça. Como reconhecimento, eu te dou o título de Devarim, ou seja, de minha protegida. Daqui por diante, nenhum outro Nor poderá exigir ter você como propriedade, você é agora de minha responsabilidade. Eu só tenho que… ughnnnn…

Sir Deiphobus se mexeu e segurou uma de suas coxas com suas duas mãos, no ponto onde a suas pernas foram amputadas. O sangue do Verme Kumariano ainda queimava a carne morta do Nor. Sir Deiphobus se virou para Sati e disse:

__Essa droga de sangue de primevo, isso dói para caramba! Garota, pegue a Mutiladora e abra a barriga desse verme desgraçado, por favor…

Olhando para onde Sir Deiphobus estava apontando. A Mutiladora era a gigantesca espada de dois metros e meio que ela usara para matar o monstro. Sati, ainda nervosa com os acontecimentos, pegou a espada e a arrastou até o corpo do monstro. A Mutiladora parecia muito mais pesada agora, sem a Fúria do Clã da Garra Negra inundando o seu corpo. Assim que chegou perto do pedaço do verme onde ela imaginava ser a barriga, ela olhou interrogativamente para Sir Deiphobus.

Adivinhando o que ela estava pensando, ele disse:

__É aí mesmo, Sati. Encoste a espada, puxe uma pequena trava de segurança que tem no cabo e gire a empunhadura interna da Mutiladora três vezes para a direita.

Sati encostou a Mutiladora no torso do verme e fez como o Nor tinha mandado. A espada começou a vibrar e ela viu novamente os dentes da parte de fora da lâmina girarem, percorrendo todo o fio. A espada rapidamente cortou a carne e uma enorme quantidade de víceras escorregou para fora do corpo do Verme Kumariano. Para o horror de Sati, duas pernas enormes, vestidas com grandes botas de metal e couro negro, escorregaram junto com as víceras. A jovem guerreira colocou a mão na boca para não vomitar. As pernas estavam cortadas na altura das coxas.

__Agüente firme, minha Devarim. Essas são as minhas pernas que esse desgraçado engoliu. Pelo visto você o matou antes que ele a digerisse…Tragam-nas para cá.

Sati largou a “Mutiladora” e puxou as duas pernas até onde Sir Deiphobus estava. Ele olhou as pernas com cuidado e disse:

__É, acho que vai dar para usar. Eu não gostaria de ter que esperar os Modeladores da Carne dos Salões dos Corpos procurarem um Shem com pernas grandes o suficiente para mim. Já basta não ter mais nenhum braço original, e ter trocado minhas mãos por mais de cinco vezes. Tenho que me “restaurar” rapidamente antes que eu tenha que gastar muito para comprar novos membros.

Olhando a expressão de horror de Sati, Sir Deiphobus riu e completou:

__Hei, não se assuste com essas coisas, Devarim Sati. Os Nors usam muitos membros dos Shems como peças sobressalentes, quando o nosso corpo fica danificado ao extremo. Você não sabia disso? Eu nem mesmo conhecia esses Shems que me passaram seus membros, os Modeladores são os que cuidam da colheita dos Shems. Nós apenas vamos aos Salões dos Corpos, pagamos uma nota e compramos os membros que precisamos. E pode ter certeza de que não eram boa gente, deviam ter sido ladrões, assassinos ou outra coisa terrível. Uma das leis de Necropia exige que um Nor que receba um membro de um Shem jamais saiba a identidade de seu doador. Bem, agora vamos ver se ainda fico com as minhas pernas originais.E aprenda uma coisa, Sati, os Nors não se “curam”, nós nos “restauramos”…

Sir Deiphobus encaixou as duas pernas arrancadas na parte superior da suas coxas, como se estivesse montando um quebra cabeça com seu próprio corpo. Tirando um cristal negro do tamanho de uma maçã de um dos bolsos de seu cinturão de couro, ele o segurou em seu punho e o manteve em cima do local onde a sua perna arrancada e a sua coxa se encaixava. Sati não falava nada, apenas observava com uma mistura de medo e curiosidade.

__Sati, aprenda algo importante sobre o mundo da superfície. Acredito que o seu Clã deve usar as Amratis, os Cristais Mágicos, não? Azuis para conservar a comida com o frio, vermelhos para acenderem fogos, etc.

Sati balançou a cabeça afirmativamente.

__Pois é, essa Amrati aqui é uma Amrati especial para os Nors. Essa é a Amrati Negra, o único Cristal Mágico que pode regenerar uma criatura não-viva. Preste atenção, pois se um dia eu precisar, eu quero que você faça o que estou fazendo agora.

Sir Deiphobus segurou a Amrati Negra e entoou uma espécie de mantra gutural:

__Ktonoooooooooooooooooooooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrr…

Á medida que ele ia falando o mantra, a Amrati Negra começou a brilhar com uma luminosidade negro-púrpura e a se liquefazer. Sati podia ver que o líquido negro em que se transformara a Amrati continha milhares de vermes que nadavam um sobre os outros. O líquido negro e pegajoso escorria pelas mãos de Sir Deiphobus e caía no vão entre a perna arrancada e a coxa amputada. No momento em que tocava a carne cinza do Nor, os vermes negros começavam a se entrelaçar e a completar a parte da carne que havia sido arrancada e perdida.

Sir Deiphobus fez o mesmo com a outra perna e com os profundos ferimentos que tinha pelo corpo. Os pequenos vermes negros do líquido se entrelaçavam e regeneravam a pele, deixando-a intacta, com apenas uma cicatriz esbranquiçada como uma recordação do ferimento.

Sati também observava que a aparência da pele do Nor ia melhorando à medida que os vermes do líquido da Amrati Negra iam fazendo os seus trabalhos de cura. Em segundos, não havia mais nenhuma indicação dos graves ferimentos que o Nor sofrera e as suas pernas estavam perfeitamente coladas ao seu corpo. Apenas cicatrizes esbranquiçadas marcavam o local dos ferimentos. Sir Deiphobus se levantou e observou as novas cicatrizes que acabara de ganhar, exclamando:

__Esse lance de cicatrizes é que precisa ser melhorado. Depois de mais de oitenta anos de existência estou virando uma cicatriz ambulante, ahahahaha!

Sati continuava calada. Ela estava impressionada, os Nors eram muito superiores aos vivos. Os Anciões da sua tribo estavam certos, os Sefiras os favorecem, os mortos são os favoritos dos deuses. Não havia nenhuma Amrati que ela conhecia que fazia isso com os vivos. Sir Deiphobus continuava falando:

__A droga é que a minha calça agora está com um corte onde aquele verme desgraçado me amputou. Mas deixa quieto, eu vou comprar uma nova para mim hoje, e para você também, Sati. Uma Devarim da família Cordovero tem que andar muito mais apresentável. Você está parecendo um bicho selvagem! Vamos, venha comigo.

__Mas, senhor, eu tenho que voltar para minha tribo…__murmurou Sati.

__Deixe de besteira, menina! Você não sabe onde você está? Esta floresta faz parte dos Campos de Caça de Yzael. Essa área está cheia de Caçadores de Shems, e acredite, você não vai querer cair nas mãos de um daqueles porcos mercenários. E mais, como minha Devarim, eu sou obrigado a cuidar da sua segurança. Deixe de besteiras e vamos para Yzael! Eu saí para tentar repor os escravos que a maldita da minha irmã matou, mas não esperava encontrar um Verme Kumariano tão próximo à capital do Reino. Tenho que reportar isso aos meus superiores e organizar uma expedição, pois esses monstros sempre andam em pares. Mas primeiro eu vou arrumar o nosso transporte.

Segurando Sati pelo braço, Sir Deiphobus andou até uma área perto de onde estava o corpo do verme. No chão, ela viu o cadáver de um cavalo que parecia estar morto há muito tempo. O cavalo de pelos negros estava selado e pronto para ser cavalgado, porém em várias partes de seu corpo a carne estava aberta, expondo ossos e entranhas. O cavalo parecia morto. Parecia, porque no momento em que Sati se aproximou, a criatura abriu os olhos e emitiu um arremedo cadavérico de um relincho. Assustada, ela viu o cavalo morto mover a mandíbula semi-descarnada no reconhecimento de seu mestre, Sir Deiphobus.

__Espinhal, meu velho amigo, aquele monstro te pegou de jeito, hein?__ disse Sir Deiphobus, abaixando para acariciar o cavalo Nor. Rapidamente Sir Deiphobus tirou uma Amrati Negra do bolso e repetiu o procedimento que tinha feito para colar a suas pernas ao seu corpo. O líquido negro cheio de vermes escorreu das suas mãos depois que a Amrati se liquefez, correndo pelo corpo de Espinhal e regenerando os cortes feitos pelo Verme Kumariano. Em segundos, o cavalo se levantou e relinchou de gratidão, enquanto Sir Deiphobus acariciava a sua crina branca.

Subindo em Espinhal, Sir Deiphobus tomou as rédeas e estendeu a mão a Sati, dizendo:

__Olhe, não vou forçá-la, apesar de ter todo direito de fazer. Se você quiser ficar sozinha eu te deixo aí. Acho uma pena, desperdiçar uma Deravim para virar comida de Primevo ou presa dos Caçadores de Shems. Agora, se você decidir vir comigo, eu vou te mostrar um mundo que você nunca imaginou conhecer! Você vai ver que há muitas coisas interessantes além do seu mundinho escuro do Submundo! E o mais importante, você tem que vir comigo para fazer inveja a minha irmã. Ela nunca teve um Devarim na vida, e vai ficar possessa quando souber que eu arrumei um!

Sati olhou para Sir Deiphobus, que gargalhava para si mesmo, e depois olhou para a floresta. Ela jamais encontraria a entrada para o Submundo, ela nunca mais voltaria para sua tribo. E se voltasse, ela não saberia se seria aceita. Realmente não havia escolha. A garota agarrou a mão de Sir Deiphobus e este, em um movimento rápido, colocou-a atrás de si. Sati agarrou o corpo enorme e forte de Sir Deiphobus enquanto ele puxava as rédeas de Espinhal.

__Para casa, Espinhal, e rápido! Já tivemos diversão o suficiente para hoje.

E assim foi Sati para uma nova vida, cavalgando sobre a morte.

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CAPÍTULOS ANTERIORES DE “ALMAS TORTURADAS” – CRÔNICAS DE NECROPIA

Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap. 1 – “Ajuda Fraterna” [NitroDungeon – Necropia]

Onde conhecemos Sir Deiphobus, um Não-Vivo pertecente a ordem dos Cavaleiros Matadeus de Necropia.

Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap. 2 – “Perdida Entre as Feras” [NitroDungeon – Necropia]

Sati, uma bárbara do Clã da Garra Negra, um dos clãs dos mortais livres que sobrevivem nos Subterrâneos, arrisca e sobe a superfície, o reino dos mortos.

Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap. 3 – “O Primevo” [NitroDungeon – Necropia]

Nesse capítulo, Sati se vê de frente a um horrendo monstro, e tem de decidir sobre sua própria sobrevivência ou ajudar um inimigo de seu povo.

Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap. 4 – “A Aliança da Vida com a Morte” [NitroDungeon – Necropia]

Onde Sati se alia a um Nor e usa toda a fúria de seu povo!

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