Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap. 2 – “Perdida Entre as Feras” [NitroDungeon - Necropia]

Nesse episódio, conhecemos pela primeira vez Sati, a bárbara do Submundo de Necropia, o mundo subterrâneo para onde os poucos humanos que conseguiram escapar da perseguição dos mortos.

Almas Torturadas – Capítulo 2

Perdida Entre As Feras

No meio da floresta, uma jovem garota andava a esmo. O local era completamente estranho para ela. A garota estava vestida em uma confusão de peles de couro. Sua vestimenta também tinha pedaços de madeira, talhada e desenhada com os símbolos de seu clã, cobrindo os ombros e o peito. A armadura tinha sido feita para uma pessoa de maior porte, o que dificultava os movimentos da garota. Seu cabelos curto, de cor castanha-escura , emoldurava um rosto pequeno e decidido. Seus dois grandes olhos verdes olhavam apreensivos para todos os lados da floresta, expressivos em meio à tatuagem facial de seu clã. Nas suas costas balançava um pequeno arco feito de ossos enquanto ela apertava uma pequena espada de obsidiana que levava na mão direita. De uma coisa ela tinha certeza.

Ela estava perdida.

_É Sati, parece que dessa vez você realmente se encrencou!_ disse para si mesma, enquanto olhava frustrada para a floresta. Não havia nenhuma entrada para o Submundo por ali.

A jovem guerreira do clã da Garra Negra quebrou a principal lei de sua tribo: ela tinha subido à Superfície, a Terra dos Mortos. Para sua tribo era como se estivesse morta. Ninguém iria vir buscá-la. Ela estava sozinha.

Durante o tempo que estivera na superfície, Sati não vira nenhuma caça decente, nenhum animal que pudesse matar e levar de volta para a tribo. Os Anciões repetiam sempre que o mundo da superfície não tinha mais nada para os vivos, que era governado pelos mortos e ameaçado pelos monstros antigos. Eles diziam que apenas os Deuses, os sagrados Sefiras poderiam mudar essa situação, só eles poderiam devolver a terra de volta para os vivos. Mas os Sefiras tinham ódio dos vivos. Os Deuses estavam se vingando dos vivos, dando Ereth, o mundo de Aum Soph para os mortos. A marca da vingança dos Deuses maculava o céu de Ereth, na forma de um Buraco Negro que devorava Shemesh, o Sol Vital. Uma vingança contra os vivos que mataram os Deuses uma vez. Tudo que restou à sua tribo era viver pedindo misericórdia aos Sefiras pelos pecados dos antepassados.

Mas Sati não acreditava em nada disso.

Ela sempre achou que essas lendas eram como histórias para crianças, lendas criadas para evitar que os vivos retomem seu lugar na superfície. Porém todos os guerreiros do Clã da Garra Negra tinham que obedecer os Anciões, sem questionar. Mesmo com grande parte do clã definhando no Submundo, morrendo por causa da escassez de alimentos, por causa das doenças subterrâneas, por causas dos monstros que constantemente atacavam o clã. A palavra dos Anciões era lei para os guerreiros Garras Negras.

Mas Sati não era considerada uma guerreira pelo seu clã. Não tinha direito de portar uma arma, não tinha direito de caçar. Apesar de todo o seu treinamento, apesar de ser uma das melhores lutadoras que a tribo possuía, ela era uma Maternal, uma mulher destinada à procriação, ao papel de esposa.Destinada à impotência.

Mas isso tudo iria mudar, se ela voltasse para o Submundo com uma generosa caça. Com certeza.

Sati olhou para a floresta em sua volta. Aquela era a segunda vez que subira a Superfície. Na primeira vez que estivera na Superfície, ela tinha ido junto com a tribo. Tinha estado em uma floresta parecida, quando fizera o Rito de Passagem há cerca de dois invernos atrás. O Rito que selou o seu destino, o dia em que a tribo iria ou não aceitá-la como uma guerreira. Ela se lembrava de Ramash, o seu irmão mais velho, olhando para ela com orgulho, certo de que ela iria passar com louvor no Rito, certo de que ela seria uma das melhores guerreiras que a tribo teria, e quem sabe, uma futura líder.

E ela estragou tudo.

Ela se lembrava do Não-Vivo que a tribo capturou para o seu Rito de Passagem, o ser que os anciões chamavam de Nor. Ela se lembrava do combate da iniciação, o olhar de desespero do Não-Vivo no momento em que ela iria decapitá-lo. Ela se lembrava do que ela sentiu, mesmo com todos os ensinamentos dos Anciões, mesmo com todo o treinamento com seu irmão, mesmo sabendo que os Não-Vivos não mereciam existir…Ela achou aquilo errado e isso custou sua identidade. Jamais seria uma guerreira.Mas isso mudaria, pensava, se ela salvasse a tribo da fome. Ela tinha decidido caçar na superfície.

Péssima idéia.

Sati escutou um barulho vindo de uma área ao seu lado direito. Ela pegou a sua pequena espada de obsidiana e a colocou na posição de combate. A floresta estava muito escura, a Lua Quebrada Ossiani e o seu Fragmento Erynae brilhavam no céu, o seu brilho pálido iluminando fracamente a floresta. Os olhos verdes de Sati, adaptados às trevas do Submundo, enxergavam claramente o vulto em meio aos arbustos. Parecia um animal de grande porte, um urso atroz ou um…

A criatura saiu dos arbustos repentinamente, pulando em cima de Sati em um ataque sobrenatural. A jovem bárbara reagiu instintivamente, pulando para o lado e tentando manter o seu equilíbrio. A criatura atingiu a arvore que estava atrás de Sati com um enorme estrondo, jogando uma chuva de farpas de madeira em suas costas.

Sati se recompôs e ficou de frente para a criatura. Era uma coisa horrenda, o que fez suas pernas tremerem. Sati estava acostumada com os monstros do Submundo, mas nunca tinha visto algo parecido. A criatura tinha o tamanho de um urso atroz, porém seu corpo era uma massa compacta envolvida por tiras de couro negro. Além disso ela tinha placas e esporões de metal encravadas em seu dorso. Uma crista de ossos deformados de sua coluna vertebral saia da base de sua cabeça e percorria suas costas até terminar em um arremedo de rabo. A coisa se erguia sobre quatro patas, ou melhor, quatro braços humanos costurados em seu corpo e envolvidos com couro negro e metal. Nos locais onde aparecia a sua pele, Sati podia ver o branco cinzento característicos dos Não-Vivos. Veias que pulsavam com o sangue negro dos Malditos se delineavam por baixo da pele morta da criatura. A criatura virou sua enorme cabeça, uma gigantesca boca cheia de dentes metálicos, deformando o que teria sido uma cabeça humana que tivera os olhos e o nariz cobertos com uma placa metálica escura.

Da boca da criatura escorriam fios negros do sangue dos não-vivos, e Sati via cortes profundos em todo o seu corpo. A guerreira recuava, tentando transformar o seu medo em uma estratégia de fuga. Não podia lutar contra uma coisa dessas. Porém antes que Sati pudesse correr, a criatura pulou novamente, caindo por cima dela e jogando-a no chão.

A enorme boca do monstro estava agora a centímetros do rosto de Sati. A criatura estava em cima dela prendendo-a no chão com suas fortíssimas patas-braços, como uma fera esperando para dar o golpe final em sua vítima. Sati reagiu, gritando e cravando sua espada na criatura através das brechas entre as tiras de couro negro que envolviam o seu torso. Porém a abominação não expressou nenhuma dor, apenas arfava e emitia sons guturais, cheirando a sua presa. O sangue negro molhava o rosto da jovem guerreira, e o cheiro horrendo que vinha do interior do corpo do monstro quase a fez desmaiar. O peso da criatura também era insuportável.

__Acabe logo com isso!__ gritou Sati.

A criatura mordeu o seu ombro, porém atingiu apenas a proteção de madeira. Saindo rapidamente para o lado, a criatura, ainda com a armadura de Sati firme entre os seus dentes enormes, começou a arrastá-la em direção aos arbustos de onde tinha vindo. O monstro a arrastava como se Sati não tivesse peso nenhum, e a guerreira tentava em vão se segurar nas pedras e nas raízes que via pelo chão.Foi então que teve uma idéia.

O monstro a puxava cada vez mais rápido. Sati soltou as amarras de sua armadura e na hora que ela se desprendeu do seu corpo de seu corpo, a jovem bárbara rolou rapidamente para longe da criatura. A criatura levou alguns segundos para notar que sua presa tinha escapado, mas Sati já tinha começado a correr. Porém a criatura era muito mais rápida que a jovem guerreira. Antes que Sati pudesse escapar, a criatura deu alguns pulos enormes em direção às árvores e usando seus troncos como apoio, rapidamente aterrisou em frente a Sati.

__Droga! Me larga! Olha que agora eu estou preparada, você não vai me pegar tão fácil quanto da outra vez!__gritou Sati para a criatura, tentando pegar o pequeno arco de osso que estava em suas costas. Sua espada ainda estava encravada no torso do monstro, e agora ela rezava para que o seu pequeno arco não tivesse quebrado com a sua queda.

A criatura rosnava e se aproximava de Sati. Porém não fazia nenhum movimento de ataque. Sati pegou o arco e rapidamente carregou uma de suas flechas, mirando em direção da cabeça do monstro. Porém, a criatura se aproximava lentamente, com a cabeça baixa e rosnando.

__O que você quer? Por Binah, eu estou falando com um monstro…Sati, você ta ficando doida menina!

A criatura soltou uma espécie grotesca de latido e virou a cabeça para o lado onde tinha arrastado a jovem guerreira. Sati mantinha o arco esticado.

__O que você quer? Tem algo por ali? É isso?

A criatura respondeu com outro latido grotesco.

Logo depois ela começou a caminhar lentamente em direção aos arbustos de onde tinha entrado e parou olhando para Sati e emitindo outro latido estranho, uma mistura de sons guturais e gritos cavernosos. O seu rabo de ossos espinhais balançava de um lado para o outro.

__Se eu não for com você, você acaba me matando, certo?

Outro latido de resposta.

Sati suspirou. “É dessa vez menina, você realmente estragou tudo”, pensou enquanto seguia a criatura, ainda com o arco armado em sua mão. A cada passo, Sati sentia que se afastava cada vez mais de sua tribo. Sua vida estava nas mãos de um monstro dos Não-Vivos. Ela sentia, que ao seguir a criatura sua vida mudaria para sempre. Era como os anciões diziam: “Em sua Sagrada Vingança os Sefiras determinaram que os Mortos guiariam os Vivos”. Ela finalmente entendera essa frase.

(Contninua no próximo Capítulo: “O Primevo”)

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Crônicas de Necropia – Almas Torturadas Cap. 1 – “Ajuda Fraterna” [NitroDungeon - Necropia]

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